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A Parada SP, que celebra o orgulho LGBT em São Paulo, colore a Avenida Paulista. Para falar um pouco sobre o que ela representa, Heitor Werneck, colunista do iG, trouxe Claudia Regina, uma das organizadoras

Assumi neste ano a função de diretor artístico da Parada SP. A ideia é tornar ainda mais bonito esse evento que desde 1997 reúne gays, lésbicas, bissexuais, transexuais e travestis para celebrar a diversidade e o direito de amar, de ser feliz e de ser um cidadão pleno.

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Parada SP pretende reunir uma multidão colorida de mais de um milhão neste ano
Fotos Públicas
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Todos os diretores da APOGLBTSP (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo) trabalham voluntariamente e hoje o papo é reto com Claudia Regina, presidente dessa associação.

Heitor Werneck: Desde quando você milita no movimento LGBT?

Claudia : Milito desde 1980, mas minha participação na APOGLBTSP começou só em 2002. Cheguei bem no ano em que o evento atingiu a marca dos 500 mil participantes.

Heitor Werneck: Antes disso o evento era muito menor?

Claudia : Sim. Tudo começou com pequenas passeatas, no final dos anos 90. Havia meia dúzia de ativistas, um carro de som emprestado pelo Sindicato das Costureiras e um grupo de anarcopunks cuidando da segurança. A ONG, propriamente, foi fundada em 1999, enquanto associação, e eu ingressei nela em 2002, como voluntária.

Heitor Werneck: Como você vê a evolução do movimento LGBT ao longo desse período?

Claudia : Perto do que militei nos anos 80, o evento foi um salto. A gente sempre mexe em temas que despertam o debate em toda a sociedade.

Heitor Werneck: Quais são os principais desafios para realizá-la?

Claudia : É muito trabalho e pouca gente pra fazer. Somos meia dúzia para correr atrás de tudo: organização, patrocínios... E, lá fora, claro, tem milhares de pessoas dispostas a nos criticar. Além disso, o evento é uma data marcante, mas o trabalho se estende pelo ano todo. Nós temos aluguel para pagar, luz, água, telefone, salário de estagiário. Não é simples. Por isso, as verbas de patrocínio captadas na época do evento são “esticadas” por nós para bancar as despesas do ano todo.

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Heitor Werneck: Como estimular o resto da militância a se engajar, a ajudar?

Claudia : Este ano a gente abriu uma série de reuniões públicas para discutir o evento. Durante quase oito meses, o tema foi discutido coletivamente. Antes, a gente não tinha perna nem cabeça pra fazer isso. Mas ainda é pouco: só ficando aqui dentro para perceber como é dificil dar conta. E, vale lembrar: nos outros 11 meses em que a parada não acontece continuam ocorrendo atos de violência, de LGBTfobia.

Heitor Werneck: Por falar em violência, você acredita na criação de uma lei que criminalize a LGBTfobia?

Claudia : Sim. Infelizmente, a gente não tem uma lei que garanta a vida. Criminalizar é uma forma de discutir com a sociedade, de cercar esse tipo de criminoso, de entender por que uma pessoa sai da casa dela disposta a ir matar uma lésbica, um casal gay... Nós precisamos discutir e entender de onde vem esse tipo de psicopatia.

Heitor Werneck: Qual é a estimativa de público dos organizadores para a parada deste ano, e de que maneira o evento pode ajudar a combater a LGBTfobia?

Claudia : Nós queremos ultrapassar o número de um milhão de participantes. Por mais que seja festa, o evento cumpre a missão de cutucar a sociedade. Ele incomoda, instiga as discussões, e isso é especialmente importante agora, que estamos observando um recrudescimento da intolerância religiosa. Por isso, em 2017, o tema é a laicidade do Estado.

O fundamentalismo religioso está invadindo toda a área administrativa do País. A gente precisa, realmente, questionar: até que ponto a religião tem o direito de invadir a sua vida pessoal? Todos pagamos impostos, e o político eleito deveria olhar as questões da cidade, do Estado, do País, em vez de ficar pegando no pé dos cidadãos LGBT.

A gente quer levar essa questão para a avenida. Não se pode ignorar que as religiões, com seus fundamentos moralistas, criam as condições para a homofobia. Tanto é assim que empresas grandes têm medo de patrocinar o evento, enquanto, lá fora, eles bancam as ONGs LGBT durante o ano todo, fornecem até sede! No Brasil, a gente tem que ficar mendigando. Não há uma fonte de financiamento que mantenha a associação.

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Heitor Werneck: A parada cumpre seu papel militante ou ela é, principalmente, uma grande festa de rua?

Claudia : Com festa ou sem festa, a parada sempre mostra temas sérios e desperta discussões importantes. Esse é o papel militante dela.

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