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Vicente Negrão abre as portas da coluna Arco para o cinema e um papo com André Fisher, que está à frente deste importante festival de cinema

O Festival Mix Brasil completa 25 anos e de lá pra cá simplesmente o cinema, e claro, todo o mundo que ele representa, mudou de forma radical. O festival se mantém relevante pelo fato de nunca perder o foco nos dias de hoje.

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Andre Fisher está à frente do Festival de Cinema Mix Brasil
Divulgação
Andre Fisher está à frente do Festival de Cinema Mix Brasil

Quando realizou o primeiro Mix Brasil, André Fischer era uma figura tipo ponta de lança da comunidade que então se organizava em torno da vida noturna das capitais SP e Rio. A cena clubber ainda desconhecia a sigla GLS , gays , lésbicas e simpatizantes, mas que encontrou no festival de cinema – inicialmente apenas curtas - uma forma de se agregar e produzir conteúdo dentro do tema.

O Mix Brasil nº 1 aconteceu com a exibição de cerca de 50/60 títulos sendo apenas 9 produções nacionais, todos curtas. Euzinho mesmo participei de uma cena num filme feito especialmente para este debut que trazia várias cenas tipo comercial de margarina com casais gays. Foi emocionante me ver num telão de cinema!

Pra explicar: o Festival Mix Brasil é um evento cultural anual com foco em filmes relacionados com a diversidade e a sexualidade em suas diversas formas de expressão.

Na edição passada o público estimado foi de 48 mil pessoas que circularam entre as exibições, festas, teatro, música, conferência e debates promovidos pelo festival que há alguns anos ganhou todas estas frentes. Realizado pela Associação Cultural Mix Brasil, uma organização sem fins lucrativos, visa promover a liberdade de expressão da diversidade sexual em diferentes formatos. Este ano acontece de 15 a 26 de novembro.

Para contar melhor essa história fui entrevistar o criador do Mix Brasil, André Fischer. Como a conversa foi incrível e rendeu muito, vou dividir em duas partes. Uma agora, para contar um pouco da história e convidar criadores para inscreverem seus trabalhos até 25 de agosto, e uma mais detalhada quando o line-up do festival estiver definido.

Papo com André Fischer

ARCO : Qual o contexto que levou a criação do Mix Brasil e como era a cena LGBT naquele momento?

André Fisher: Existia uma inquietação minha na época, uma enorme vontade de realizar algo depois que voltei de NY e convivi com a cena militante de lá. Chegamos a pensar, eu a Erika Palomino, em criar uma associação chamada JACA: Jovens Artistas contra AIDS, para alguma exposição, na minha produtora, coisas assim. Até que surgiu o convite do Karin Aïnouz, que na época dirigia o Festival MIX lá em NY e já era amigo. Eles abriram uma convocatória convidando países de todo o mundo para apresentarem seus projetos. Quando fui montar um programa de curtas brasileiros pra mandar pra lá descobri simplesmente que eles não existiam, então tive que pedir aos amigos que produzissem filmes. Isso gerou uma espécie de movimento para preencher este vácuo. Era um momento que nada estava acontecendo no Brasil neste sentido. Tinha uma coisa que era o movimento homossexual. Não existia militância. Estava muito inconformado com a caretice e queria fazer algo pra mexer com isso por aqui. Não posso deixar de dizer que teve uma motivação pessoal em fazer algo que fizesse o pensamento avançar.

Aquele foi um momento bem interessante. Tinha uma coisa muito efervecente em SP e algumas cidades maiores do Brasil, que era a coisa Clubber, surgiu ali no início dos 90 e tinha um frescor, um certo fascínio da mídia também com esse movimento da noite que claro, era completamente gay, sem ganhar o rótulo.

A confluência de tudo isso levou já a primeira edição do Mix a espaços bastante institucionais: o teatro nacional de Brasília, o Palácio da Abolição em Fortaleza. Todo mundo querendo saber que coisa interessante era essa. O fato de se chamar Mix também foi importante, a despeito de ser um festival de cinema 100% gay. Ainda foi preciso usar metáforas para abrir portas, mas conseguimos ocupar espaços importantes. O Brasil querendo se abrir, se modernizar e o fato do festival ter vindo de NY também colaboraram bastante neste início para quebrar resistências. Teve um timming muito perfeito para tudo aquilo acontecer. No primeiro foram 9 e fizemos quase esta convocatória para os amigos por conta desta demanda do festival de NY. No segundo ano abrimos inscrições e tivemos surpreendentes 25 títulos nacionais. Sem internet ou nada que o valesse, apenas pela divulgação do festival. Ou melhor, aconteceu uma história curiosa: íamos fazer São Paulo e Rio. No Rio,  no Centro Cultural Laura Alvin, onde um amigo trabalhava na época e nos convidou. Quando a diretora, que estava em férias, voltou, desconvidou a gente com a seguinte frase: “O Rio não é NY”. Isso criou uma comoção e até Darcy Ribeiro foi à imprensa em nossa defesa. Resultado, fomos convidados para mais 10 cidades e fizemos a primeira edição em 12 cidades.

ARCO: Qual o papel do festival naquele momento e hoje?

André: Ele teve coisas muito legais. A primeira Parada, que rolou 4 anos depois...no ano anterior à parada a gente abriu com um filme sobre Stonewall e outros contando a história das paradas.  Todo mundo que acabou fazendo a parada aqui estava naquele dia, naquela sessão, então detonou um sentimento geral que a gente precisava fazer algo aqui, estava demorando. O Festival serviu para reunir estas pessoas e jogar estas questões que acabaram por ganhar outros rumos.

Hoje o festival funciona de outra maneira. Ele teve milhões de filhotes: sites, revistas, programa de rádio, de TV no Canal Brasil, quando nada disso existia. A partir do momento que mudou o cenário, com um milhão de sites, blogs, youtubers gays, falando e mostrando isso, esses filhotes perderam um pouco seu sentido.  Então resolvi focar no festival porque estas outras iniciativas todas, elas respondiam a questões daqueles momentos. O festival foi mudando. Era de curtas independentes e hoje é um evento com teatro, música, conferência que se mantém como um ponto de encontro dentro do calendário, em especial de SP porque a itinerância também se reduziu. Funciona como um ponto no calendário para se refletir sobre estas questões presentes o ano todo mas não tratadas em conjunto. Numa proposta não de trazer informações, pois elas já estão acessíveis, mas sim de “vamos assistir juntos?”, trocar informações e conviver durante duas semanas. Tem uma coisa também muito interessante que é a renovação de público, tem uma moçada bem bacana chegando justamente pela música, pelas conferências do Sex Box, que trouxe essa moçada não binária que estava meio solta e se juntou conosco. Outra turma que se mistura ao pessoal que vem frequentando o festival há 25 anos, com mais de 40, 50 anos. Tem uma troca de experiências que continua funcionando, hoje talvez muito mais. Óbvio que tem um trabalho de curadoria importante. É fundamental, num mundo com bilhões de informações, alguma fonte que te diga: “estes são os 100 filmes, espetáculos, e tal, que você não pode deixar de ver”. Esse é o ponto de partida e sim, ele funciona muito como ponto de encontro no mundo físico para reflexão sobre este tema.

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ARCO: Quais as principais transformações que o festival mostrou e que chegaram à sociedade?

André: A primeira vez, por exemplo, que a palavra transgênero foi publicada foi em 2000. O termo diversidade sexual, em 95/96, dentro do festival. E hoje a questão dos transgêneros, transexuais é tão quente, está na novela, mas já aparecia no festival  15 anos atrás. Esse assunto chega com um frescor pra muita gente ainda hoje, mas é um tema que já deu pra ser digerido, pensado e vem sendo pensado há muito tempo dentro do festival. Questões do não binarismo, assunto que me impactou bastante há três anos, nunca tinha pensado, por exemplo, em assexual, não entendia como opção....aliás, até a própria palavra opção, eu reconsidero hoje em dia. Teve o momento que foi tabu falar em opção sexual porque tínhamos que resolver com a igreja e tal, mas eu considero que sim, no final das contas você tem que escolher. Fazer uma opção.

Dentro de um ambiente como o Mix é o espaço para se colocar este tipo de questionamento, misturando o acadêmico com o leigo, gente interessada, buscando informação, diálogo e mais ainda, ele cumpre o papel de servir de vitrine e de estímulo para esta produção que por vezes está dispersa pela internet, que populariza e ao mesmo tempo dilui.  O festival é um momento de uma concentração. Depois de 25 anos mudou o mundo e maneira como o mundo enxerga o que hoje se chama LGTB, então o festival precisa mudar e evoluir sempre. Se não tivesse cedido às nossas inquietações de fazer algo novo, talvez nem tivesse mais sentido.

ARCO: Como faz para manter um festival vivo, interessante e sustentável por 25 anos ?

André: Ele só existe porque é uma causa. No caso o João (Federici) e eu, que estamos à frente do festival, entendermos a importância dele, e queremos continuar. Ele acontece daqui a três meses e nesta 25ª edição ainda não sabemos se vamos ter dinheiro deste ou daquele patrocinador. Sabemos que ele vai acontecer, com certeza, e já aprendemos a adequar plano A, B ou C. Naturalmente não é nossa primeira atividade senão não sobreviveríamos, e principalmente temos uma equipe muito legal, comprometida e que tentamos desde sempre remunerar e dialogar com eles como profissionais que são. Mesmo quando são voluntários, temos este empenho em reforçar uma cultura de trabalho no sentido de profissionalizar o segmento gay. Uma cultura que o festival ajudou a criar.

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Como falei, a conversa foi tão produtiva que vamos ter que dividir, então faremos uma pausa por aqui, convidando você a inscrever seu trabalho audiovisual no festival Mix Brasil 2017. Voltamos ao assunto cinema, festival Mix Brasil e Show do Gongo, uma das atrações mais emblemáticas do festival, e outros, mais próximo à chegada da sua edição de prata. 

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