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Coluna Arco da semana mostra como o tórrido caso de amor entre a poesia de Rimbaud e a prosa de Verlaine, e seus autores é claro, inspirou filmes, poemas e se tornou o 1º escândalo gay entre celebrities na França de 1800

Na época que o termo “bas-fond” ainda significava algo como o bairro de baixo, mais pobre, a cidade baixa, dois escritores franceses provocaram alvoroço na sociedade com um caso de amor aberto, explícito e muito, muito “bafonzeiro”. O poeta Arthur Rimbaud, então com apenas 16 anos, foi convidado pelo já consagrado escritor Paul Verlaine para uma visita à Paris. Mal sabiam que essa prosa ao lado da poesia resultaria em tanto babado. 

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Paul Verlaine e sua poesia
Ilustração
Paul Verlaine e sua poesia

O convite para um encontro entre poesia de um e a prosa do outro, unidas pelo simbolismo, acabou se transformando em muito mais do que conversa de intelectuais. Ambos se apaixonaram , Rimbaud abandonou a esposa e durante 4 anos os dois escritores protagonizaram cenas que caberiam numa novela de João Emanuel Carneiro, num filme de Gus Van Saint ou num texto de Plínio Marcos.

Regados a muito absinto – a bebida que enlouqueceu boa parte dos artistas daquele século com seu “suave” teor alcoólico que vai de 50 a 80% -, drogas e brigas, eles protagonizaram escândalos que deixaram “bege” a Paris de 1870.

Dignos de um “Cidade Alerta”

Sem deixar de produzir alguns dos poemas mais lindos da literatura, ou marcos da prosa simbolista, Rimbaud e Verlaine também chegaram muito perto ‘produzirem’ um a morte do outro. Numa grande discussão pública, sob o efeito destes aditivos, Rimbaud esfaqueou o companheiro na mão.

Pouco tempo depois, no auge da confusão entre amor e ódio , Verlaine comprou uma pistola e disparou em Rimbaud, ferindo o escritor de raspão no punho.  O ato levou-o a prisão por dois anos e ao afastamento completo do casal.

Imagine esse bafo todo nos dias de hoje? Seria como se o cantor Elton John resolvesse lavar toda a roupa suja (se é que ela existe porque os dois parecem o casal perfeito) com o cineasta David Furnish num boteco de Londres, ou Ellen de Generes mandasse bala, literalmente, em sua companheira, a modelo Portia de Rossi, numa festa em Nova York.

Veríamos manchetes por toda a mídia, sensacionalista ou não, e o amor conturbado dos escritores seria assunto de vários programas de TV, matérias especiais em sites de fofocas e a beleza de seus escritos talvez ficasse relegada ao segundo ou terceiro plano.

Leonardo DiCaprio em 'Total Eclipse'
IMDB
Leonardo DiCaprio em 'Total Eclipse'

Em 1995, a historia ganhou um filme, chamado “Total Eclipse”, com o jovem Leonardo DiCaprio, como Verlaine, antes do seu sucesso em “Titanic” e David Tewlis, mas que não chega nem perto de revelar a tensão dramática e a complexidade do amor e do relacionamento dos escritores.

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Deixo vocês com “Antigo”, poema de Arthur Rimbaud:

“Gracioso filho de Pã! Em torno de tua fronte coroada de pequenas flores e bagas, teus olhos, esferas preciosas, se movem. Pintadas de borra parda, tuas faces se afundam. Tuas presas brilham. Teu peito lembra uma cítara, tinidos circulam em teus braços louros. Teu coração bate nesse ventre onde dorme o duplo sexo. Passeia, à noite, movendo docemente esta coxa, esta segunda coxa e esta perna esquerda.”

Se quiser comentar algo comigo, sobre prosa, poesia ou qualquer bafo, estou  no vicente@vicentenegrao.com. Clique aqui e acompanhe a coluna Arco no iGay

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