Paulette Pink é a convidada da vez da coluna "O T da Questão". Em um papo franco, a artista, maquiadora e performer dá detalhes da sua transição

“O mundo gay precisa mudar, não eu” . Assim Paulette Pink, colunista entrevistada a algum tempo pela equipe do IGay, ( veja entrevista aqui ), formada em teatro e artes plásticas, ícone entre as a drag queens, começou a nos  contar sobre seu processo de autoconhecimento e o que a fez se descobrir mulher.

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Paulette Pink
Divulgação
Paulette Pink

Esta afirmação, “O mundo gay precisa mudar, não eu”, é o pano de fundo da transição dessa artista talentosa, polêmica e sem papas-na-língua. Com a palavra, Paulette Pink :

“Eu sempre busquei desempenhar meu trabalho artístico com magia. Tenho uma veia cômica e sentia que quando estava fantasiada com peruca, roupa de mulher, saltos altíssimos, estava bem comigo mesma. Aquilo foi me ajudando a me encontrar... eu era gay e me achava estranha. Quando tirava a peruca, o vestido, o sapato, eu me sentia infeliz, por que olhava no espelho e via uma figura que, dentro de mim, na minha cabeça, no meu eu, não era eu.

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Aí fui procurando a mim mesma, encontrar com meu corpo... Fui fazendo cirurgias, nariz, peitos, tirando os pelos do corpo, fui tomando hormônio, deixando o cabelo crescer e aos poucos fui me encontrando. Fiz também o acompanhamento para redesignação (genital) no HC. Fiz a terapia, fiz os testes de sangue, e até descobriram uma coisa rara em mim, que eu tinha uma dosagem de hormônio feminino acima do esperado, antes da hormonização, fiz tudo, mas desisti da cirurgia na última fase.

Mulher transexual

Antes de ir para a cirurgia, eles me falaram: 'Pense bem, depois não terá mais volta'"

Antes de ir para a cirurgia, eles me falaram assim: 'Agora a gente quer que você converse com pessoas que fizeram a cirurgia aqui com a gente, fale com elas, sinta suas experiências e veja os prós e os contras, pense e decida o que quer fazer. Você é uma mulher transexual, tem todo o processo feito, está tudo ok, mas precisa conversar com pessoas que fizeram e ver o que você decide. 'Pense bem, porque depois do processo não terá mais volta'.

Peguei os números, liguei, conversei com elas e descobri que nem tudo é um mar de rosas, houveram problemas, é um processo bem tenso. De minha parte, pensei bem e desisti de fazer a cirurgia. E, neste processo de encontro comigo mesma, eu vi que eu sou eu mesma, assim, com pênis ou sem, sou eu mesma". 

Reação dos outros

Eu era gay, era venerada, era maravilhosa e tinha muitos amigos. Conforme virei travesti, perdi os amigos, comecei a perder os trabalhos, comecei a perder a minha valorização artística pelos gays"

No papo com a coluna também falamos sobre trabalho. Questionei se Paulette havia percebido mudanças no tratamento que as pessoas dispensavam a ela. “No meu trabalho, eu era venerada pelos gays , mas quando eles começaram a ver que eu me tornava uma transexual, ou uma travesti, senti que fui perdendo o valor para eles, me desvalorizando, ao mesmo tempo em que acontecia o meu processo de transformação. E eu não entendia o porquê, aquilo me deixava muito triste. Não era assim? Eu era gay, era venerada, era maravilhosa e tinha muitos amigos. Conforme virei travesti , perdi os amigos, comecei a perder os trabalhos, comecei a perder a minha valorização artística pelos gays.

Engraçado é que os heterossexuais continuaram me contratando, continuaram trabalhando comigo. Por que eu não ia numa festa ou fazer um show pelada, eu sempre me vestia, botava uma fantasia e ia lá, ninguém queria abrir minha roupa e ver se tinha um peito que era de verdade ou era de plástico... então o meu trabalho, pelos héteros, continuou o mesmo, não foi desvalorizado, pelo contrário, foi mais valorizado ainda, cada vez mais. E, cada vez menos, pelos gays”.

Arrumando a linda cabeleira negra Paulette, terminando a entrevista, olhou-me pelo espelhinho de maquiagem que segurava e decretou: “O mundo gay precisa mudar, não eu”.  Para saber mais sobre transição, clique aqui e acompanhe Fe Maidel na coluna "O T da Questão"

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