Fe Maidel escreve a coluna "O T da quesTão" no iGay e fala sobre os sentimentos, a busca e as possibilidades que a transição de gêneros propicia

Para elaborar este post, pedi ajuda a Cris Camps, uma das diretoras do Brazilian Crossdresser Club, também conhecido como BBC, para falarmos um pouco sobre que é esse clube e o Crossdressing. Ela, que há 16 anos se assumiu como crossdresser, hoje se define como “transexual pré-cirúrgica em transição”, e cuida de uma área sensível do BCC, os “contatos reais”, que une o clube às plataformas externas, como o meio social, a mídia e simpatizantes.

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O que é o Brazilian Crossdressing Club?

“Existimos pelo prazer de ser mulher”-Brazilian Crossdresser Club
Fe Maidel
“Existimos pelo prazer de ser mulher”-Brazilian Crossdresser Club

O BCC foi criado em 1997 com a intenção de ser um clube voltado ao público Crossdresser e transgênero, bem como seus amigos e simpatizantes, acreditando que esta seria a solução ideal para as "garotas que viviam no armário".  Assim começou um importante, mas ainda pouco conhecido, capítulo da revolução de gênero no Brasil.

Esse "clube"virtual, que funciona como um "rito de passagem", permitiu a centenas de pessoas o acolhimento que necessitaram no momento em que se descobriram em transição . No seu início mal havia informação pela internet, o que se conhecia era importado, em inglês e, sempre, muito confundível com sites de encontro.



O BCC não tem caráter sexual ou de encontros

A finalidade do site e do clube é a integração social entre pessoas que tem a fantasia de usar roupas do sexo oposto ( crossdressing ). O termo "Crossdresser", numa tradução literal, significa "vestir-se ao contrário" e foi importado para o Brasil no mesmo ano de criação do BCC. Nos Estados Unidos e Europa este termo é muito comumente utilizado e ajuda a diferenciar a fantasia de usar roupas do sexo oposto das opções sexuais de cada um.

Fica claro, em um passeio pelo site, que o BCC não tem caráter sexual ou de encontros, o que possibilita até a menores de 18 anos consultarem seu conteúdo, “já que lá se pode encontrar caminhos para a solução de muitas dúvidas”, sendo recomendando, no entanto, o acompanhamento de um maior responsável nas consultas às páginas.

Num relato ao site “Casa da Maitê” em 2011, Cris afirma que “evita emitir conceituações polêmicas sobre o assunto, pois o tema é muito pessoal e diverso” e que procura trazer, em posts publicados em vários blogs, apenas um breve conceito sobre o crossdressing, “extraído de fontes diversas”. Para ela, de maneira genérica, “Crossdressing (ou travestismo ) é um termo que se refere a pessoas que, eventualmente, vestem roupas ou usam objetos associados ao sexo oposto, por satisfação pessoal, sem relação direta com a orientação sexual, à transexualidade ou ao fetichismo transvéstico”.

Quem pode ser crossdresser?

Cris ainda explica que “um crossdresser pode se identificar como heterossexual, homossexual, bissexual ou assexual”, e que “crossdressers tipicamente não modificam o seu corpo através da terapia hormonal ou cirurgias".

"No entanto, sabendo-se do grande desejo de algumas pessoas que se consideram crossdressers quererem adquirir características secundárias do sexo oposto, como seios ou barba, presume-se, nesses casos, tratar-se do início de uma transição para a transexualidade”.

A partir de sua experiência, ela coloca que “o crossdressing é, geralmente, praticado por homens com estabilidade profissional e familiar, havendo um grande peso sobre si quanto ao sigilo e a discrição, devido ao risco de perderem seu status, caso sejam revelados em seus meios de convívio. Por isso, entende-se que o âmago do crossdressing é saber voltar ao gênero de origem sem deixar vestígios ou afetações do gênero visitado”.

Leia também: Como a questão do acolhimento é fator fundamental no processo transição

“Existimos pelo prazer de ser mulher”

Esse é o mote do BCC, já que a visão que cada um tem de si é o que realmente define cada indivíduo. Sabendo que não é tão simples explicar o que significa exatamente o Crossdressing, uma vez que existem diversas teorias e estudos sobre o assunto. Cris comenta que “publicamos alguns ótimos textos que nos foram enviados por associadas e que podem ajudar a elucidar melhor o tema”, permitindo, assim, que cada pessoa pesquise e construa seu próprio conceito a respeito do tema. 

Posso afirmar que pude perceber, lendo o conteúdo do site Brazilian Crossdresser Club e dos relatos de Cris Camps, um avanço enorme nesta década, tanto em termos de vivência, como de nomenclatura, mudança e aceitação de outras formas de expressão de gênero e sexualidade, provando que a questão de gênero é bem mais presente do que se costuma supor. A existência do BCC, com vinte anos de estrada e centenas de pessoas que já foram e são associadas, mostra a extrema importância da discussão e da aceitação da diversidade de gênero.  Para saber mais e continuar essa conversa, clique aqui e acompanhe Fe Maidel na coluna "O T da Questão".

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