Fê Maidel comanda a coluna "O T da Questão" no iGay e fala sobre transição de gênero. Nesta semana, um papo com a drag Draga da Quebrada

Como mencionei num post anterior, tenho conversado com várias pessoas que vivem a transição de gênero sobre os mais variados assuntos, com o objetivo entender a real receptividade que as trans podem ter na sociedade. Desta vez, trago trechos da conversa que tive com Carlos Luiz, a Draga da Quebrada , drag queen e performer.

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A Drag ri da ideia de gênero, pega a máscara dos gêneros, amassa e joga fora
Divulgação/@dragacebrasil
A Drag ri da ideia de gênero, pega a máscara dos gêneros, amassa e joga fora

Draga, que se apresentou junto com outros artistas no Projeto "Ações para a Cidadania - Boteco da Diversidade: Visibilidade gorda", falou um pouco sobre a possibilidade de extrapolar a questão trans e conseguir conversar com outras pessoas sobre suas questões, usando a personagem: ”A Draga é uma personagem legal, dinâmica, bacana, que criei para permitir que a exploração de minha fluidez e meu corpo pudessem chegar à minha vida cotidiana, permitindo que o Carlos (apontando para si) não tivesse mais vergonha de si e de seu corpo. Fazer drag permite essa nova forma de exploração, você esculpe uma nova figura, muda o corpo, o rosto, muda tudo, transiciona para uma outra persona. ”

Carlos falou-me a respeito deste caminho que escolheu e como este mudou sua perspectiva e seu comportamento frente ao trabalho que exerce, as responsabilidades que assumiu e como se faz ouvir pelos seus pares, a partir das vivências da personagem drag que encena, além da sua vida cotidiana.

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Draga, que se define como trans não-binári@ , presenteou-me com alguns vídeos de suas performances e falou-me das novas possibilidades que se abriram a partir do momento em que decidiu, conscientemente, transicionar e deixar-se existir “trans”. Fazer drag permitiu-lhe exercer um olhar crítico e político sobre essa questão e sua própria posição frente à profissão que exerce (além de performer e drag, Draga da Quebrada é bancári@ e faz parte da comissão da Diversidade no banco onde trabalha).

“Me monto, assim, desde sempre, desde os 9 ou 10 anos de idade. Mas faço Draga apenas uns 3 anos. Quando comecei a me montar como drag era muito superficial, não importava muito o que eu fazia ou falava, qual mensagem passava. Era algo como o “close pelo close”, entende? Com o tempo fui lendo, me entendendo, percebendo que fazer drag era uma ferramenta para acessar esse universo como trans, me entender e a meu corpo. Quando a gente fala de performance artística de drag, sempre vem um estereótipo, muito brilho, pedrarias, bate cabelo... Mas quando você me assite, eu não conto piada, não sou muito de fazer rir. Gosto de drama (e ri de si mesma).  Meu corpo é um ente político, eu resisto, eu afirmo. Eu sou gorda, sou trans, sou o meio do caminho, nem homem, nem mulher. Eu falo do meu corpo, eu atuo, trago conteúdo, uma mensagem a cada performance. Eu prefiro sair da zona de conforto. ”

Questionando sobre o que seria a mensagem que ela traz, Draga da Quebrada colocou:

“Minha mensagem é que o corpo pode tudo, pode existir de vária formas. A drag ri da ideia de gênero, pega a máscara dos gêneros, amassa e joga fora. Você pode ser drag feminina, pode ser masculina, tipo drag–king, pode transcender, fazer uma montação para não parecer humano, questionando os invólucros e saindo do lugar-comum. Descobrir-me trans mudou minha maneira de ser drag, a maneira de me montar, me desafia a sair do lugar comum. Me sinto empoderada, é como abrir uma caixinha dentro de mim, olhar para dentro e descobrir coisas que nem sabia que existiam." Para saber mais sobre transição, clique aqui e acompanhe Fe Maidel na coluna "O T da Questão"

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