Fê Maidel comanda coluna "O T da Questão" no iGay e fala sobre transição de gênero. Nesta semana, um papo com a advogada e travesti Marcia Rocha, que mostra que orientação é uma coisa, identidade é outra

A partir do momento em que comecei a estudar psicologia, permiti-me enxergar as questões importantes que se apresentaram sob outros prismas. Entender o que importa ao outro, como as relações e os afetos se estabelecem e se sustentam, o que leva alguém a agir de uma certa forma, diferente da forma que se espera. Em vários momentos desse caminho, o acolhimento surgiu como o fator mais importante para, de fato, poder auxiliar alguém.

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Fe Maidel
"Orientação é uma coisa e identidade é outra" e como o acolhimento é importante no meio disso tudo

Há alguns anos, durante minha graduação, conversei com Marcia Rocha, advogada, travesti, estudiosa das questões ligadas a sexo e gênero e que tem sido muito bem-sucedida na empreitada de trazer visibilidade e credibilidade às pessoas trans . Falamos, naquela ocasião, sobre sua história e seu processo de transição, e acabei guardando as transcrições deste diálogo para uso futuro, numa ocasião como esta. Com autorização dela, trago aqui alguns trechos dessa conversa pois acredito que ilustrem bem a questão do acolhimento como fator fundamental no processo transição.

Transição de Marcia Rocha

“Tenho uma longa história. Sempre tive uma sensação de que eu era diferente dos outros meninos e encontrei o que você coloca como 'acolhimento' na vida adulta. Aos 4 anos de idade comecei a me sentir menina e aos 6 sofria certa repressão na escola. Me tornei um menino agressivo, fui pro outro extremo, talvez até por uma questão de defesa. Aos 8 eu já vestia algumas peças de roupas femininas e aos 12 me montava inteira. Com 14 anos, meu pai descobriu que comecei a me hormonizar . Como meu peito começou a crescer, ele me levou ao médico e tive que admitir a eles, que me convenceram a parar, principalmente por eu gostar de meninas.

Eles achavam que era uma coisa ilógica, que não ia dar certo, mas eu sempre levei essa coisa meio confusa dentro de mim. Gostar de meninas, me vestir de mulher e me sentir uma menina era uma contradição muito grande pra mim. Saia às vezes, me vestia e ia pra balada GLS , já maior de idade, mas tinha épocas em que eu dizia 'mas eu não sou gay !', pegava tudo, jogava fora, passava um tempo e, quando eu ia ver, estava comprando tudo de novo, calcinha, sapato e tal.

Eu tinha 22, 23 anos e já fazia terapia com um psiquiatra por mais de um ano quando, um dia, ele falou: 'Você é uma pessoa trans . Tem que por isso prá fora, senão vai te fazer mal'. Cheguei em casa super feliz, falei 'Pai, já sei qual é o meu problema, é que eu sou trans, o dr. falou'.

Meu pai, imediatamente, me tirou desse e me colocou num outro psiquiatra, que dizia que eu não podia me montar, que era muito perigoso, que sair assim na rua era um perigo, que ninguém podia saber, que eu tinha que ficar escondida. Fiquei indo lá por mais de 10 anos, não gostava de ir por que era sempre esse discurso. Eu dizia que gostava de mulher e ele duvidando disso.

Na primeira consulta que tive com ele, após a morte de meu pai, ele falou 'Agora você que vai pagar sua terapia, não é?'. Eu falei 'sim, agora eu pago minhas contas', ele respondeu: 'então nós vamos mudar a linha da sua terapia. Falei 'como assim, doutor?'. Ele disse: 'Você é uma mulher...' Eu levantei, fui embora e nunca mais voltei.

Fiquei uns 5 anos com essa dúvida e sem terapia nenhuma, quando um amigo indicou um psicólogo, Osvaldo Rodrigues, que tinha um instituto e dava cursos sobre sexualidade humana pra médicos e psicólogos, especialista. Eu fui lá conhecer e, na primeira consulta, contei essa história toda, ele começou a rir e falou: 'mas não tem nada a ver, orientação sexual é uma coisa, identidade de gênero é outra. Você pode se sentir menina e gostar de menina, de mulher, por que não? Lésbica não gosta de mulher? Então! '.

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Nossa senhora, minha vida mudou! Quando ele disse 'Orientação é uma coisa, identidade é outra... aquilo pra mim foi um UAU! Então eu posso existir, posso ser quem eu sou, não tenho que escolher entre ser gay ou trans, posso ser várias coisas, posso ser uma trans homossexual , uma trans que gosta de mulher!'.

Outras ajudas que tive vieram do BCC, da Betinha e da Paula Anders, que foram minhas madrinhas. Eu falo até hoje que o que ela fez por mim foi muito importante, ela diz que não fez nada, mas eu sei que o pouco que ela me mostrou que haviam outras pessoas como eu, que eu não era a única no mundo, que eu podia ser o que sou, abriu portas, e isso é muito importante. Outra pessoa que foi de grande ajuda foi a Dudda Nandez que, apesar de ter milhões de outras coisas a fazer na vida, ajudou muita gente também, foi fundamental. O trabalho dela foi muito importante.

Ainda faço terapia com ele, parei, voltei várias vezes, agora estou de novo fazendo acompanhamento com ele, é um cara que me ajudou muito por que ele me mostrou que pode, que a gente tem o direito de ser o que é, o que não ocorre quando a gente se julga, se reprime, em razão dos outros, do preconceito, do que vai ter que enfrentar, dos medos...medo é um péssimo conselheiro, acho que a gente, quando vive a nossa realidade, seja ela qual for, consegue ser muito mais feliz.

Acho que o papel do terapeuta é dar ajuda, mostrar prá você quem você é e facilitar, mas quem faz a mudança somos nós. Quem mudou a minha vida fui eu, tanto em relação ao físico quanto em todas as transformações da minha vida. Às vezes é duro, ás vezes é difícil, com família e tudo mais, eu acho que se você é verdadeira e enfrenta a coisa, acho que tem tudo prá acabar dando certo, de uma forma ou outra. Não digo que é prá todo mundo, acho que tem muita gente no armário que tem que ficar no armário, por que a pessoa constrói um vida, emprego, trabalho, família e tudo, e de repente jogar tudo fora não é um conselho saudável prá dar a todo mundo, mas é muito duro, também, ficar no armário, sem acolhimento.” Para saber mais sobre transição e transgêneros, clique aqui e acompanhe a coluna de Fê Maidel no iGay

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