Fê Maidel estreia coluna no iGay e fala sobre transição de gêneros, e busca pelo que é neste mundo e os sentimentos que envolvem esse tema

Como é o processo de transição? Como se olhar no espelho e não se ver no reflexo?
Fe Maidel
Como é o processo de transição? Como se olhar no espelho e não se ver no reflexo?

Nesta coluna vou procurar explorar a transição como tema principal, usando-o de forma genérica propositalmente, para que se possa avaliar o quanto a transição vivida, por exemplo, no amadurecimento biológico, de carreira, de estado civil ou de gênero, podem ter algo em comum.

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Evitarei, assim, a tentação e a pretensão de escrever sobre como deve agir a militância gay ou LGBT ou sobre o que fazer para conseguir realizar a transição de gênero , pois essas são falas que não me cabem e que prefiro deixar para quem as faça com maior propriedade ou representatividade.

Vou iniciar tentando exemplificar como provavelmente se sinta um transgênero. Imagine a seguinte situação: convide um torcedor de futebol ir a um jogo do seu time contra o arquirrival. Uma vez lá, tente convencê-lo a vestir a camisa do time adversário e, supondo que ele tope, uma vez vestida a camisa, ficar na torcida adversária e comemorar um gol contra seu próprio time. "Nem todo torcedor se incomodaria", alguém arriscaria dizer. 

Acredito que a maioria das pessoas não se submeteria a uma situação assim. Ao se perceber em desacordo com o que se entende ser (identidade, crenças, valores, meios, modos, gestos), um sentimento de incongruência atuaria sobre o indivíduo e uma força descomunal tentaria restaurar o equilíbrio. Acuado, ele viveria em “não-conformidade”, sob a sombra do preconceito. 

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Quase todas as pessoas que conhecemos passaram ou passarão por uma transição. É provável que haja um motivo bastante forte para se estar passando por ela e que aconteça uma grande insegurança quanto ao destino que as coisas tomarão. Passar por um processo desses não é algo fácil. Mas, por estarmos vivenciando uma experiência, em geral, comum a um monte de gente, podemos contar com informações, apoio e conselhos para nos guiar até estarmos experientes o suficiente para nos virarmos sozinhos.

Cada vez que nos dispomos a lidar com descobertas, surpresas, crises, bons e maus momentos da vida, ainda que não saiamos vitoriosos de todos estes encontros, crescemos. A transição sinaliza a possibilidade de se lidar com contradições expostas e lidar com esses contextos torna estes momentos únicos pela libertação que podem propiciar, a despeito da dor que possam causar. É quando, em geral, se procura fugir do enfrentamento. 

A transição de gênero, no entanto, pode ser algo bem diferente de ser vivenciada.  Vamos para o mundo em busca de nossas identidades usando o corpo como veículo. Habitamos o corpo e vestimos as couraças sociais, profissionais, de gênero, da idade. Acabamos fazendo o que se espera e nós, guiados pelo senso comum, tentamos encontrar meios de ser o que entendemos que somos, fazendo escolhas que limitam os campos de atuação. Escolhemos o tempo todo: esconder ou mostrar, submissão ou revolução.

A essência, a alma, fica sob o manto do corpo. Se a veste não nos representa claramente, o que resta a fazer? Rebelar-se, tentar fugir dessa coação cotidiana, se trancar, silenciar, morrer um pouco todo dia, exercendo o que se impõe como certo, líquido, garantido? Elevamos o veículo ao patamar de essência e fundimos os dois. Viver, sob o preconceito, a “não-conformidade”. 

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Como lidar com a opressão

Gostaria de cogitar meios de lidar com o preconceito , especialmente a homofobia e transfobia , de modo a criar diálogos possíveis, pensar no que sente o indivíduo no momento em que faz suas escolhas, o que move a pessoa que, em geral, não consegue dizer exatamente o que quer expressar, por estar vestida numa língua, numa sociedade, num corpo que não viabiliza instrumentos para tal. 

Interessa-me, aqui, pensar qual é a força que determina e impulsiona indivíduos à transição, falar desses silêncios trancafiados sob o véu de medo, pela invisibilidade, dessas pequenas mortes em prol de uma subsistência insossa, da perda do que se é, causada pelo que se representa. Falar de qualquer essência, qualquer expressão, que se mostre contraditória ao status quo vigente. 

Sentimentos impulsionam decisões e isso propicia a transição. É preciso trazê-los à consciência e torná-los coesos com o que se é no mundo. Esta é a busca que proponho. Para saber mais sobre o tema, acompanhe a coluna "O T da Questão", de Fê Maidel, no iGay

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