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Marcas aproveitam visibilidade da #Pride e vão para a avenida com as cores do arco-íris, mas é bom ficar ligado

Em conversa com alguns dos mais de 1 mil jornalistas envolvidos na cobertura da World Pride - a parada mundial do Orgulho LGBTQI+, que rolou no mês passado em Nova York -, um dos assuntos que mais chamava a atenção era a quantidade de empresas que nunca tínhamos visto na vida fazendo parte da marcha e se dizendo “gay friendly”. O pior: algumas delas até com histórico de preconceito em relação à comunidade LGBT.

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Estande da M&M formando o arco íris LGBTQI+ arrow-options
Diogo Carvalho
M&M com linha exclusiva para a #Pride

Não que elas não possam querer se redimir. Mas ficou claro que elas estavam usando os holofotes do maior evento LGBT do planeta com foco no cobiçado “pink money”. OK, galera... Eu sei que todo mundo fala que a Parada de São Paulo é a maior do mundo, mas a de Nova York superou e impressionou mesmo esse velho de guerra em prides.

Em Manhattan, cerca de 4 milhões de pessoas conferiram as mais de 12 horas de desfile, com mais de 600 alas e 160 carros. Eu marchei junto com o trio do Ministério do Turismo da Tailândia (país onde moro hoje) e seguimos pelas avenidas da Big Apple até depois da meia-noite, ainda com milhares de pessoas nos abraçando e nos aplaudindo nas calçadas. Em Sampa, este ano, o público foi de 3 milhões e teve 19 trios-elétricos, se não me engano.

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Tailandesa na parada LGBTQI+ arrow-options
Diogo Carvalho
Governo da Tailândia foi um dos que apostou na WORLD PRIDE para enaltecer o país como destino LGBT

O fato é que, enquanto no Brasil geralmente temos trios da prefeitura da cidade e de algumas ONGs abrindo os desfiles - seguidos pelos carros de empresas como Burguer King e Uber, que este ano trouxeram artistas como Glória Groove, Luisa Sonza, Lexa e Iza para a Avenida Paulista -, em países como os Estados Unidos e Canadá, as empresas gay friendly organizam verdadeiros blocos padronizados e convidam seus funcionários para marcharem. Algumas delas, inclusive, enaltecendo o talento e a qualidade dos serviços dos LGBTs nos seus times. É um lance mais empresarial e ativista, do que o carnaval fora de época no Brasil.

Música existe. As Forças Armadas e a Polícia (neste caso, até o FBI veio com uma ala cor de rosa) levam suas bandas marciais para a avenida e seus veteranos LGBTs chorando emocionados nos carros, provavelmente externando a emoção e orgulho depois de anos dentro do armário para se segurar numa carreira em ambientes predominantemente machistas. Algo realmente lindo de se ver. Grandes empresas como a Macy’s, Unilever, Alaska Airlines, Disney e City Bank também apostam na animação com DJs e drag queens em suas alas, revezando-se com trios de boates.

Faixa da Tailândia em apoio à comunidade LGBTQI+ arrow-options
Diogo Carvalho
Diversidade é uma maravilha: Nós acreditamos na Tailândia

Como mencionei anteriormente, em Nova York foram mais de 160 carros de empresas e entidades! Se no Brasil, algumas companhias têm medo do boicote (inútil) da bancada evangélica (opressora) e seus seguidores (alguém aí lembra de Ana Paula Valadão?), na América do Norte elas disputam a tapa um espaço no desfile. Por serem boazinhas e mostrarem apoio aos LGBTs? Talvez...

Mas não podemos ser ingênuos de lembrar que, ao contrário do senhor presidente Bolsonaro - que não enxerga o potencial dos LGBTs em alavancar a economia do Brasil -, essas empresas estão bem ligadas no nosso pink money. Nos últimos anos, pesquisas mostraram que nossa comunidade tem maior potencial de consumo que os héteros. No Brasil, chegamos a gastar quase R$ 420 bilhões, mais de 10% do PIB nacional.

Ala da Polícia de Nova York na Pride arrow-options
Diogo Carvalho
Ala da Polícia de Nova York

O último censo mostrou que a renda de um casal homoafetivo gira em torno dos R$ 5,2 mil, enquanto a dos héteros é de R$ 2,8 mil. Os turistas LGBTs movimentam mais de 15% do setor no mundo, números ignorados pelo senhor Jair, mas acompanhados de perto por nações como Canadá, Dinamarca, Israel e Tailândia, todos com estandes montados na feira oficial da World Pride, promovendo-se vomo destinos que abraçam e respeitam a diversidade. Será que o Itamaraty estava por lá?!? Já imaginam a resposta...

Mas é claro que não existem apenas empresas ligadas somente no potencial de compra dos LGBTs. Boa parte delas abraça as causas e discussões do mundo moderno e se propõem a respeitar a individualidade de seus funcionários. O Google, por exemplo, conseguiu nota máxima no índice da Human Rights Campaign (HRC), ONG internacional engajada na luta prlos direitos LGBTs e que aponta o quão friendly uma empresa é com a comunidade. E não importa apenas fazer campanhas com arco-íris ou escrever mensagens no mês do Orgulho. 

Avião inflável da Alaskan Airlines na parada de San Diego arrow-options
Diogo Carvalho
Alaska Airlines, na Parada de San Diego

O reconhecimento vem caso a organização ofereça dignidade ao seu time, seja com políticas internas contra discriminação, planos de saúde a população trans e boas condições e ambiente de trabalho para os funcionários LGBT. O Google, assim como o Facebook, Instagram, Twitter e Youtube,  sempre foi referência nesses casos.

Querem outros nomes? A Avon, que já era conhecida pelo histórico de luta pelas mulheres, entrou com tudo na defesa pelos LGBTs. Na área da beleza, podemos citar ainda a L’Oreal Paris, Natura e O Boticário. Adidas, Converse, Ambev, Absolut, McDonald’s, Coca-Cola, com suas campanhas e linhas exclusivas. Apple (e seu CEO assumidamente gay) e Netflix (com suas inúmeras produções voltadas para o público) também não podem deixar de ser mencionadas.

Embalagem gay friendly da Oreo arrow-options
Diogo Carvalho
Oreo apresentou uma linha exclusiva para a #Pride em Nova York

E não paramos por aí: Sony, Warner, Universal, Cartoon Network, Gol, Delta, Ford, Toyota... Por isso, é bom pensar 20 vezes antes de ameaçar boicotar alguma dessas marcas apenas por elas enaltecerem a diversidade e o respeito.

Feira gay friendly

De olho nesse nicho, São Paulo vai sediar a primeira edição da Expo Pride, uma feira voltada para empresários e empreendedores que desejam tornar o ambiente de trabalho de suas empresas mais “friendly”. No evento, serão debatidas estratégias e políticas para enaltecer o talento e profissionalismo dos funcionários LGBT.

A Expo Pride acontece nos dias 7 e 8 de setembro, das 10h até as 22h, na São Paulo Expo. A entrada do evento custa a partir de R$ 15 reais, estudantes e menores de idade pagam meia entrada. Mais informações no site  http://expopride.com.br/ .

Enquanto isso, em Israel...

O ministro da Educação israelense, Rafi Peretz, virou alvo de protestos no país no fim de semana, após dar declarações de que acredita na eficácia de terapias de conversão de homossexuais, a "cura gay", e que já as utilizou algumas vezes. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, condenou o colega.

"Os comentários dele sobre a comunidade gay não são aceitáveis e não refletem a posição do governo", afirmou em nota. O premiê assegurou ainda que "o sistema de educação do país continuará a aceitar todos os filhos de Israel da forma como são, sem se importar com sua orientação sexual".

Enquanto isso, na Alemanha...

Girafas juntas arrow-options
Free Press Journal/reprodução
Girafas gays de zoo de Munich

Depois do Zoológico de Londres fazer uma campanha em defesa dos direitos LGBTQI+, foi a vez do zoo de Munique, na Alemanha, explicar a seus visitantes que o amor entre seres do mesmo sexo também é comum no reino animal. De pinguins e serpentes até elefantes, todos dão uma lição de tolerância aos seres humanos em tours guiados no parque. 

Cerca de 90% das girafas têm comportamentos bissexuais, por exemplo, explicam biólogos, enquanto cerca de 8% dos leões têm atividades homossexuais. No mês passado, o zoo de Londres pendurou um cartaz na área reservada aos pinguins: "Alguns pinguins são gays. Supere isso".

Enquanto isso, na Bolívia

Em mais um avanço na luta pelos direitos LGBTQI+ na América Latina, homossexuais e bissexuais deixaram de ser qualificados como "promíscuos" pela legislação da Bolívia. A nova medida permite também que LGBTs passem a doar sangue no país. Antes, eles inaptos por serem considerados "grupos de risco".

Enquanto isso, na Inglaterra...

Para homenagear um dos maiores LGBTs de todos os tempos, o Banco da Inglaterra vai lançar uma nota de 50 libras com o rosto do matemático Alan Turing. O nome do inventor foi escolhido dentro de uma lista com mais de mil candidatos. As notas devem estar em circulação no país até o fim de 2021.

Conhecido como o pai da inteligência artificial e criador de um dos primeiros computadores do mundo, sua invenção foi decisiva para a vitória na 2ª guerra mundial, após ele conseguir decifrar códigos nazistas. Mesmo assim, anos depois, Turing foi perseguido por ser gay e condenado a ser castrado quimicamente. Em 2013, a rainha Elizabeth II concedeu a ele perdão póstumo.

Enquanto isso, em São Paulo...

O estado de São Paulo acaba de ganhar mais uma ferramenta de combate à LGBTFobia. A Rede Gay Brasil desenvolveu um aplicativo gratuito como medida de proteção à população, o TiaLu. Na ferramenta, disponível para iOS e Android, o usuário preenche seus dados pessoais e o número de celular de duas pessoas de confiança.

Em caso de alguma ameaça, o LGBT aciona o "botão de socorro", que envia mensagens para os seus contatos e sua localização. Assim, a polícia pode ser contactada e seguir para o local da agressão o mais breve possível. Vale lembrar que, segundo o Sinan, houve um aumento de 127% nas denúncias de crimes LGBTfóbicos no estado no último ano.

Biblioteca para lésbicas

Ganhando cada vez mais espaço no mercado cultural, a literatura LGBT acaba de ganhar mais uma plataforma. O site Lesboteca (https://lesboteca.com/) já reúne mais de 120 obras voltadas ao público lésbico. Bem organizado, ele separa os livros por gênero literário, com links para a aquisição da obra. O objetivo do portal é acabar com a visão fetichista em cima das lésbicas e incentivar uma nova ótica sobre a relação entre mulheres.

Mais um close errado

Em mais uma atitude de mostrar que "o Brasil não é país de homossexuais", o presidente Jair Bolsonaro afirmou à bancada evangélica do parlamento que ele pretende incluir os termos "pai" e "mãe" nos campos destinados à filiação em documentações dos passaportes brasileiros, no lugar de "genitor 1" e "genitor 2", campos que respeitam os relacionamentos homoafetivos.

Vacina contra o HIV

A Johnson & Johnson está realizando pesquisas para trazer ao mercado a primeira vacina contra o vírus HIV. O plano da empresa é começar com os testes no final do ano nos Estados Unidos e Europa, com 3.800 homens. Pelo fato do vírus ser muito diverso, é importante encontrar uma vacina que seja universal e efetiva.

Bem-vindo ao Vale

Juan Pablo Di Pace abraçado de uma colega de cena arrow-options
NETFLIX/DIVULGAÇÃO
Juan Pablo Di Pace

Juan Pablo Di Pace, o Fernando do sitcom Fuller House (Netflix), falou pela primeira vez publicamente sobre sua homossexualidade. Ele conta que o bullying que sofreu na escola fez com que ele se mantesse dentro do armário por anos na indústria do entretenimento, mas que já havia se assumido para família e amigos há mais de 20 anos. Juan também deu vida a Jesus na minissérie A.D. The Bible Continues (NBC) e viverá Carlos Gardel no cinema.

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Deusas

Conhecida pelas letras empoderadas que exaltam a comunidade transexual e detonam o preconceito, a brasileira MC Trans lançou na semana passada o seu novo single, Deusa. A curiosidade é que a cantora divide a faixa com Anastaccia, drag queen personificada pelo seu filho na vida real.