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Meio século após a Revolta de Stonewall em Nova York, população LGBT ainda precisa brigar pelos seus direitos, às vezes com a própria vida

Em Nova York para celebrar a World Pride esta semana, resolvi mergulhar nos bairros do Tribeca e do Chelsea para entender um pouco mais da cena LGBTQI+ . É nessa região de Manhattan que está localizada a Christopher’s Street e o Stonewall Inn, o bar que foi berço da luta mundial pelos direitos da comunidade gay, há exatos 50 anos. Por esta razão, a chamada Revolta de Stonewall pautou praticamente todas as paradas do Orgulho LGBT mundo afora este ano.

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policiais em bar LGBT
Diana Dhavis/Arquivo/Biblioteca Pública de Nova York
LGBTs eram humilhados pela polícia e lutavam por respeitos

Não adianta eu bater na mesma tecla que praticamente todo site e revista já comentou este mês, explicando o que foi o fato. Em resumo: frequentadores do bar se revoltaram contra a polícia que fazia batidões em estabelecimentos LGBTs da época e iniciaram um movimento contra a opressão, que ganhou as ruas de Nova York. Em seguida, dos Estados Unidos e do mundo, dando origem ao conceito de #PRIDE e às paradas do Orgulho LGBT .

jovens Stonewall
Leslie-Lohman Museum/Arquivo
Jovens que deram início aos primeiros movimentos no Stonewall Inn

A história vocês podem acompanhar em artigos e dezenas de filmes sobre o fato. Acho mais importante comentar aqui o que o 28 de junho de 1969 significou para o mundo, para a luta pelos direitos humanos. A Revolta de Stonewall abriu a discussão sobre “o direito de ser diferente e ter os mesmos direitos”.

Durante este mês do Orgulho, a exposição AMOR E RESISTÊNCIA , em cartaz na Biblioteca Pública de Nova York, mostrou através de registros fotográficos das ativistas Diana Davies e Kay Tobin Lahusen como a sociedade norte-americana foi transformada em questão de poucos meses após o evento. As imagens mostram o quanto o simples ato de segurar a mão do companheiro ou companheira na rua pode ser um ativismo político e fazer a sociedade refletir sobre o respeito ao outro.

exposição amor e resitência lgbt
Diogo Carvalho
Mostra AMOR E RESISTÊNCIA, na Biblioteca Pública de Nova York, ilustra 50 anos de resistência LGBT pós eventos de Stonewall

A exposição também é ilustrada por cartazes e campanhas que associações em prol dos direitos LGBTs faziam para as pessoas saírem dos armários, para aumentar a força do movimento e mostrar que ser diferente não era algo errado, só nos fazia ainda mais especiais.

Quem é LGBT sabe do esforço duplo (ou triplo) para nos provarmos capazes e talentosos perante nossa família e o sistema. Esses grupos eram em boa parte liderados por mulheres lésbicas e trans (como Sylvia Rivera e Marsha P. Johnson), o que só reforça a constante luta feminina pela igualdade de direitos.

Marchas de Gay Power e “saída do armário” eram constantes no início dos anos 1970. Agora assumidos, os ativistas poderiam se reconhecer com mais facilidade, unindo forças para incrementar a briga contra o preconceito.

Stonewall
Leslie-Lohman Museum/Arquivo
Sinais: acessórios utilizados em determinado lado do corpo ajudavam os gays a se identificarem

Dá para imaginar que antes a galera se comunicava com símbolos como lenços nos bolsos traseiros da calça? Naquela época, se usasse um lenço no bolso direito, indicava que você era um gay passivo. Os ativos, usavam no bolso esquerdo da calça. Quando as festas gays se tornaram mais abertas, os mesmos sinais se transmitiram para o uso de anéis ou acessórios também respeitando-se os lados do corpo em que eram utilizados.

Stonewall
Diana Dhavis/Arquivo/Biblioteca Pública de Nova York
Depois dos eventos de Stonewall, houve um boom de publicações destinadas ao público LGBT nos anos 1970

Na década de 1960, algumas poucas publicações LGBTs circulavam de maneira marginal. Após Stonewall, houve um boom de revistas, jornais, zines, todos utilizados pelas alianças pela diversidade para discutirem a luta pelos direitos e enaltecerem a arte LGBTQ, em desenhos, poemas e fotografias. Foi a época de ouro da The Lesbian Tide, Tribad, Come Out, Gay Power e The Advocate, referência até os dias de hoje. Muitas dessas ganharam tanto alcance que chegaram até ao extremo Oriente.

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stonewall
Reprodução/Arquivo/Biblioteca Pública de Nova York
Marco de luta: primeira edição da revista ChristopherStreet mostrava que não estávamos mais dispostos a nos esconder dentro do armário

Surgiam também publicações específicas a outros movimentos, como os gays negros e as travestis, como a Transvestia. Todos estavam ganhando o seu lugar de voz. O primeiro número da ChristopherStreet, para mim um dos mais memoráveis, trazia na capa a imagem de um armário completamente vazio, traduzindo o real sentimento da época: ninguém queria mais se esconder, todos estavam ali juntos para lutar!

Diversão

jovens lgbt
Diana Dhavis/Arquivo/Biblioteca Pública de Nova York
Jovens em festa LGBT há 50 anos

Se hoje a gente consegue ir tranquilamente a um bar ou boate LGBT, ou mesmo curtir festivais como as #prides nas ruas, antes de Stonewall, bares fixavam cartazes com dizeres como “Viados, fora!” ou “Se você é gay, mantenha distância” (nada que não fosse comum no Brasil até uns anos atrás)... Mas, antes, bares eram até punidos com multa se servissem bebidas a homossexuais. Grupos fechados - como a Mattachine Society - se correspondiam por cartas para perguntar quando seriam os “bailes” ou o que eles esperavam nas festas, como preço do ingresso e estilo de música.

Depois da revolta, já nos anos 1970, alguns grupos LGBTs saíram com jornalistas fazendo batidões pelos EUA para conferir se os estabelecimentos estavam realmente abertos aos “diferentes” ou não. Foi a época também que várias festas eram organizadas para arrecadar fundos que seriam utilizados para dar suporte aos movimentos LGBTs e suas marchas por respeito. No fim dessa década, já era possível ver clubes como os dos moldes de hoje, com gogo dancers e música até o nascer do sol.

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Resistir

casais lgbt
Diana Davies e Kay Tobin Lahusen/arquivo/Biblioteca Pública de Nova York
Fotografias de Diana Davies e Kay Tobin Lahusen mostram como casais LGBT da época militavam com simples gestos

Acho que a maior arma da comunidade LGBT mesmo era o amor e a união. Depois da truculência dos eventos de Stonewall, o ativismo procurou buscar o respeito da sociedade através de muita discussão e demonstrações de carinho. As fotografias da exposição AMOR E RESISTÊNCIA mostram que, ao contrário do que muita gente achava, os movimentos não “converteram pessoas em gays”. Não houve um aumento de LGBTs no mundo. Eles sempre estiveram ali, prontos para amar, mas seguiam escondidos em armários escuros. 

casal de lésbicas vendo foto
Diogo Carvalho
Casal de lésbicas se emociona ao verem fotos de amigos na luta por direitos, 50 anos atrás, no Leslie-Muhman Museum

Quem visitar Nova York em outras épocas do ano, pode visitar o Leslie-Loham Museum, no Tribeca. O único museu assumidamente LGBT no mundo guarda um acervo de artistas em prol da diversidade e também guarda arquivos de militância e luta pelos direitos humanos. Na minha passagem por ele esta semana, pude ver um casal de lésbicas idosas com lágrimas nos olhos ao verem fotografias de amigas já falecidas lutando nas ruas pelos direitos da comunidade pós-junho de 1969.

Infelizmente, 50 anos após a Revolta de Stonewall , mais de 60 países ainda criminalizam a homossexualidade, punindo LGBTs até com a pena de morte. Por outro lado, temos nações como o Brasil, onde recentemente foi aprovada a lei que criminaliza a LGBTfobi a e é palco da maior parada da diversidade do mundo, mas ainda é o lugar onde mais lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans são assassinadas apenas por serem o que são. Isso mostra que, apesar dos avanços, ainda precisamos lutar muito, precisamos ir às ruas e exigir respeito.

E esse foi o maior legado que Stonewall nos deixou: eles terão que nos aceitar, nós existimos e não voltaremos para o escuro dos armários!