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Comunidade LGBT do Brasil tem dado uma prova de resistência, mesmo diante do avanço da política de opressores; leia análise do evento aqui

beijo gay
Patricia Borges/Raw Image/Agência O Globo
23ª Parada do Orgulho LGBT de São Paulo, trouxe slogan "Nossas conquistas, nosso orgulho de ser LGBT+"

Orgulho. Acredito que essa palavra resume de maneira perfeita o que eu senti ao ver aquela multidão de 3 milhões de pessoas no desfile da 23ª edição da Parada LGBT de São Paulo , neste domingo (23). Orgulho por ver tanta diversidade, pela união da nossa comunidade. Orgulho pelas nossas conquistas nos últimos anos, por sobreviver. Orgulho por ser LGBTQI+.

O evento foi simbólico por diversos fatores. Primeiramente, por celebrar os 50 anos da Revolta de Stonewall , berço das revoltas LGBTs no mundo. Mas, além de tudo, para nós brasileiros, por ser a primeira Parada desde a eleição deste governo opressor, de um presidente que é a personificação da LGBTfobia. Ah, sem deixar de lembrar que é a primeira Parada depois da criminalização da homofobia pelo STF .

E por falar em STF, se não fosse o Supremo Tribunal Federal, nenhuma das nossas recentes conquistas teriam se concretizado. Além da criminalização da LGBTfobia , o casamento homoafetivo, a adoção de crianças por casais gays e o uso do nome social nos documentos pelas pessoas trans foram todos avanços concretos graças ao STF, que precisou agir após anos de omissão do Congresso Federal em relação às pautas LGBTs.

Fazia tempo que o Brasil não se apresentava numa situação tão complicada em relação a direitos humanos. O avanço da direita e o fanatismo religioso parecem ter tomado conta da sociedade. A bancada de opressores em Brasília se acha no direito de ameaçar todas as conquistas que tivemos nos últimos anos.

É bizarro ver que hoje os intolerantes no Brasil têm orgulho de bater no peito e soltar declarações homofóbicas, graças ao suporte do senhor Bolsonaro . O "líder" que diz que "o Brasil não pode ser um país de gays , porque tem famílias". Aquele que retirou a verba de incentivo ao turismo LGBT, mesmo esse sendo o setor que mais cresce no mundo .

Mas nós, LGBTs, estamos mais unidos do que nunca. E os 3 milhões na Avenida Paulista neste domingo só reforçaram isso. Não podemos deixar que esses "valores morais" de um modelo engessado de família heteronormativa e o fanatismo religioso tomem conta da nossa nação. Quantos irmãos LGBTs mais precisarão morrer para que essa luta acabe?

Já não é vergonhoso ser o país que mais mata LGBTs no mundo e conferir níveis alarmantes de depressão e suicídio de jovens que não conseguem se estabelecer em um padrão pré-estabelecido por esta sociedade machista? Orgulhem-se, irmãos.

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Identidade

parada gay
Carla Carniel/Código19/Agência O Globo
O evento, que movimentou R$ 288 milhões no ano passado, espera atrair 3 milhões de pessoas em 2019

Este ano, vimos na avenida muito mais das 12 bandeiras que representam os movimentos dentro da comunidade LGBTQI+ . Lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, transgêneros, queers, intersexuais, assexuais, pansexuais, não-binários, aliados...

O mundo está cada vez mais plural e precisa ser representado. Que orgulho que essas pessoas estão ganhando seu espaço. Que orgulho que elas podem ter referências e se identificar. É a evolução do movimento. Se antes, chamávamos de " Parada Gay ", hoje quem comanda é a diversidade.

Não é preciso nem irmos muito longe. Há pouco mais de cinco anos, as referências que boa parte dos brasileiros tinham de LGBTs eram figuras escrachadas no Zorra Total ou A Praça é Nossa. Quem não se lembra daquele personagem que tinha um filho afeminado e repetia o bordão "Onde foi que eu errei?". O quanto essa brincadeira feriu gays mais delicados e o quanto pertubou a cabeça de muitos pais? Afinal, que erro?

Hoje, a gente não precisa mais tratar um beijo gay na TV como um escândalo. Atrizes trans estão ganhando destaque em novelas, quem diria? Formadores de opinião, como a diva Fernanda Lima - madrinha da Parada de SP este ano - estão aí para debater de maneira natural a diversidade com jovens e famílias. Nos trios elétricos da parada, artistas como Iza, Lexa, Gretchen e Luísa Sonza também eram puro orgulho por serem nossas vozes.

E por falar em cantoras, se antes os gays precisavam de divas pops internacionais (mulheres cis héteros) para se espelharem e defenderem sua causa, hoje podemos contar com LGBTs como Glória Groove, Lia Clarck, Mulher Pepita, Linniker, Linn da Quebrada, Johnny Hooker para nos representar. E não apenas no mercado LGBTQI+, mas no mainstream da indústria fonográfica. Parte deles também brilhou hoje em São Paulo.

Quem imaginaria que o país que cantarolava letras sertanejas machistas anos atrás estaria exportando o diamante Pabllo Vittar para o mundo? Isso tudo é uma evolução da sociedade e da qual devemos também ter orgulho. Pensar que tudo isso está acontecendo enquanto o conservadorismo político avança é uma prova de resistência.

Devemos também ter orgulho do alcance que o movimento no Brasil tem tomado. A transmissão ao vivo da Parada LGBT de SP no YouTube – através de canais como o Diva Depressão, Mandy Kandy e Lorelay Fox – teve mais de 32 milhões de views. Pela primeira vez também, um canal de TV, o GNT, fez transmissão ao vivo do evento e levou a discussão para um outro patamar, com ativistas e personalidades.

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Preconceito

Parada do Orgulho LGBT
Carla Carniel/Código19/Agência O Globo
Antes chamada de "Parada Gay", a Parada do Orgulho LGBT deste ano tem caráter mais acolhedor com as minorias

Ninguém nasce desconstruído, vale lembrar. Somos reflexo de uma sociedade machista e heteronormativa. Frutos de um sistema que nos criou racistas, lgbtfóbicos, gordofóbicos. Vários atos ao longo do nosso cotidiano denunciam isso. E isso não é ruim. Isso nos desperta a fazermos uma autocrítica o tempo inteiro. Preconceituosos todos somos, o problema é se não paramos para refletir e discutir sobre. 

No início da minha militância, há cerca de dez anos, por diversas vezes tive atitudes e pensamentos dos quais hoje me arrependo. Era desses radicais que achava que todo mundo tinha que sair do armário e quem não o fizesse era um deserviço para a comunidade. Para mim, era difícil entender que todo mundo tinha uma realidade diferente e que era preciso respeitar o momento de cada um. O armário, às vezes, é uma estratégia de sobrevivência.

A gente amadurece e segue se desconstruindo. A militância LGBT não pode ser bélica com possíveis aliados à causa. Pois se a gente age de maneira radical com quem ainda está tentando entender e aprender, vem alguém do outro lado (opressor) e lhe estende a mão.

Questões de gênero são pautas que precisamos desconstruir dentro da própria comunidade LGBTQI+, então é natural sermos um pouco "ignorantes". E podemos, sim, cobrar um posicionamento dos possíveis aliados sem afastar essas pessoas. E acredito, sim, que essa sementinha foi plantada em boa parte das 3 milhões de pessoas na Avenida Paulista e tantos outros milhões que assistiram à transmissão do evento no mundo.

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Luta

Parada do Orgulho LGBT
João Cesar Diaz
Avenida Paulista foi tomada por cores durante a 23ª Parada do Orgulho LGBT

Apesar da festa, lembrar que está ali deveria lutar pelos nossos direitos. Ainda precisamos abrir os olhos para muitas coisas. Mesmo com os recentes avanços, os transgêneros no Brasil ainda estão à margem da sociedade. Pesquisas mostram que 90% das mulheres trans ainda trabalham na prostituição (não como escolha, mas necessidade), apenas 5% tem carteira assinada e apenas 0,2% estão na faculdade.

No mundo, mais de 60 países ainda penalizam a homossexualidade. Mesmo que o fato de ser LGBT não seja um crime por aqui, o Brasil (repito) ainda é o país que mais mata a comunidade. Só este ano, até 15 de maio, 141 LGBTs foram assassinados apenas por serem quem são.

É claro que os brasileiros estão mais unidos, mais engajados. E isso é preciso, porque do outro lado eles estão juntos para nos destruir. Temos que mostrar para os opressores que não tem mais retrocesso, não tem mais volta. Eles vão ter que aprender a conviver com isso. Não voltaremos para os armários.

Esta é a noção de pride! A revolta de Stonewall nos dá uma lição de orgulho e deveria, sim, ser ensinada nas escolas, como marco da luta pelos direitos humanos. Orgulho hoje e sempre!