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Enquanto presidente do STF não vê urgência na criminalização da LGBTfobia, nós podemos nos unir para ajudar mais uma vítima dessa violência

Homofobia  é coisa inventada na cabeça dos gays. Isso não existe". A frase é recorrente em comentários de conservadores e bolsonaristas em toda e qualquer reportagem que reflita sobre os direitos da comunidade LGBTQI+. O problema é que "essa coisa que não existe" continua a fazer vítimas no Brasil, o país que mais mata LGBTs no mundo. Vítimas como o pernambucano Jefferson Anderson Feijo da Cruz, de 22 anos.

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Jefferson
Arquivo pessoal
Rapaz de 22 anos foi espancado até quase morrer em cidade de Pernambuco e passou um mês em coma

Morador do pequeno município de Moreno, a 33km do Recife, o rapaz foi brutalmente agredido no dia 7 de dezembro de 2018, ficando um mês em coma. Quando acordou, já não falava, não andava e sobrevive com a ajuda de aparelhos. Acredita-se que o crime tenha motivação  homofóbica , uma vez que Jefferson era assumidamente  gay .

Na noite do ocorrido, Jeff tinha saído para beber com os amigos na praça da cidade e comemorar o fim do ano letivo. Avisou que ia ao banheiro e não mais voltou. Após muito tempo, seus amigos foram procurá-lo e o encontraram debaixo de uma laje: sem roupa, ensanguentado e desacordado. Ele foi assaltado, espancado e deixado ali para morrer sozinho.

Após acordar do coma, um mês depois da agressão, Jeff continuou seu tratamento num hospital em Olinda. No último dia 22 de maio, recebeu alta, mesmo assim sem as reações e vivacidade pelo qual é conhecido pelos amigos. A família criou uma vaquinha online para arrecadar o dinheiro para que ele possa seguir como tratamento em casa.

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Os pais do rapaz não têm como arcar com todos os materiais e equipamentos que ele precisa para sobreviver. O quarto adaptado deve ter ar-condicionado, cama articulada, colchão ortopédico, balão de oxigênio, luvas e botas ortopédicas, além dos custos com sessões de fisioterapia e fonoaudióloga.

Justiça lenta

Em conversa que tive com Izabella Oliveira, prima de Jefferson, ela me contou que o rapaz anda reagindo bem ao tratamento e conseguiu reconhecer alguns amigos e parentes. Mas que pelo quadro ainda ser muito delicado, por ser mais perto do hospital. "Meus tios colocaram a casa de Moreno para alugar e com o dinheiro arrumaram um lugar para ficar em Olinda", explicou Iza.

Segundo Izabella, as investigações foram concluídas, mas o agressor continua solto porque o juiz não quer liberar o mandato de prisão: “O cara é conhecido na cidade. Temos amigos em comum. Existem provas, filmagens e testemunhas que confirmam ser ele o responsável. A gente não sabe por que o juiz não manda prendê-lo!”

“Meu primo é gay e todo mundo sabia, era muito querido. Uma amiga que estava bebendo com Jeff na praça disse ao delegado que o agressor estava próximo a eles e pediu para ficar com meu primo. Jeff disse que não, pois tinha namorado. Então o cara olhou para ele e disse: ‘Vou te pegar, viadinho safado’”. Está tudo no inquérito”, contou-me Iza, acrescentando que Pedro, namorado de Jeff, mesmo ainda abalado, segue forte ao lado dele todo o tempo.

Segundo o médico que cuida de Jeff, ele pode ter algumas sequelas, como na voz. Mesmo bastante otimista, ele diz que apenas um neuro pode dar um parecer mais preciso, uma vez que a maior parte das lesões foram na cabeça.

Em vídeos recentes no Facebook, a família comemora o fato de Jeff já conseguir emitir alguns sons e acompanhar os movimentos com os olhos. “As mudanças são mínimas, mas para a gente é muita coisa, porque estamos vento a melhora dele. Mesmo que lentamente, ele está melhorando”, celebra Izabella.

Peço ajuda dos meus amigos jornalistas e ativistas aí de Pernambuco. Precisamos nos mobilizar e cobrar urgência do juiz de Moreno, para que esse caso não seja engavetado como tantos outros crimes motivados por LGBTfobia.

Assista ao vídeo de Jefferson 

 Como ajudar

Sabe aquela mensagem que todos compartilhamos: "Ninguém solta a mão de ninguém"? Chegou a hora de provarmos a nossa solidariedade e ajudarmos um irmão vítima dessa violência tão cruel que os bolsonaristas insistem em dizer que é uma fantasia!

Como pernambucano que moro na Tailândia, fico angustiado de não poder fazer mais, ou dar um apoio mais de perto à família e aos amigos nessa hora. Mas deixo aqui o link da vaquinha online. Qualquer valor pode ser doado. Segue também o link da página do Facebook, onde você pode achar mais informações sobre como ajudar o Jeff.

Vaquinha

https://www.vakinha.com.br/vaquinha/587285 

Página do Facebook "Unidos pelo Jeff" 

https://web.facebook.com/Unidos-pelo-Jeff-1890522384317548/ 

Criminalização da LGBTfobia 

O que parecia estar cada vez mais perto foi adiado mais uma vez. Com previsão para ser realizada no próximo dia 5 de junho, a votação pela criminalização da LGBTfobia no Supremo Tribunal Federal (STF) foi adiada mais uma vez pelo ministro Dias Toffoli, presidente da casa. Dessa vez, para o dia 13 de junho.

bolsonaro
EBC
Após encontro com Bolsonaro, presidente do STF adiou votação pela criminalização da homofobia

O impressionante é que parece que o poder público não enxerga a urgência de uma decisão como esta. Que a criminalização vai acontecer já é um fato - uma vez que já temos 6 votos a favor, de um total de 11. Mas para que adiar tanto a legalização? Quantos mais casos como o de Jeff precisam acontecer para eles abrirem os olhos?

Coincidência ou não, o ministro Toffoli já havia manifestado publicamente que não gostaria que o STF julgasse a pauta. Mais curioso ainda foi ele ter adiado a votação novamente horas depois de ter tomado um café da manhã como presidente Jair Bolsonaro - aquele cara que estaria enquadrado até o pescoço, depois de tantas declarações homofóbicas: "filho gay é falta de porrada", "se visse dois gays de mãos dadas na rua, bateria neles" e por aí vai...

Muito suspeito que o adiamento tenha se dado sem nenhuma justificativa do ministro do STF e logo após o encontro com o líder da homofobia no Brasil, não é? E Bolsonaro ainda comentar a jornalistas que "é muito bom ter a Justiça do nosso lado"...

Bem, o fato é que uma vez criminalizada, a LGBTfobia será configurada legalmente como já é o racismo e as discriminações por etnia e religião no país.

E nós seguimos (juntos e shallow now) esperando ansiosos pelos próximos capítulos. Cabe a nós da comunidade LGBTQI+ e aliados nos unirmos para cobrar em peso urgência do STF na conclusão desse julgamento. Devemos isso a Jeff e todos outros milhares de LGBTs agredidos e mortos ao longo desses anos apenas por defenderem o amor e quem são.  

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