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Enquanto juíza celebra primeira união LGBT em pequena cidade do Mato Grosso, exposição sobre o tema é censurada em Fortaleza

No Brasil, a união estável entre casais homoafetivos foi reconhecida em maio de 2011. Dois anos depois, o casamento civil passou a valer para todos. Mesmo não sendo uma lei, é garantido pela Justiça, através de decisões do STF e do CNJ. Ainda assim, nem todo brasileiro sabe disso. Prova é que a cidade de Bonito, a 300km de Campo Grande (MT), foi palco do primeiro casamento gay  somente nesta semana.

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Juíza Adriana Lampert posa junto com as noivas Elaine Ferreira e Cleusa Alcará, no fórum de Bonito
Assessoria de Imprensa TJMS/Divulgação
Juíza Adriana Lampert (à esquerda) posa junto com as noivas e amigas

O mais bacana é que a juíza do fórum da cidade, Adriana Lampert, quis marcar o último dia 28 de maio de maneira especial e fez questão de levar uma bandeira do movimento LGBT e um bolo colorido para cerimônia que marcou o processo de união estável para casamento de Elaine Ferreira e Cleusa Alcará, ambas de 40 anos e juntas há cinco anos.

A um portal de notícias local, a juíza contou que quis festejar o ato inédito em sua comarca: "Em tempos de neoconservadorismo, elas duas se abriram, enfrentaram de cabeça o erguida o preconceito e lutaram por um direito que é delas". Atualmente, 28 nações no mundo permitem a realização de  casamentos homoafetivos .

A atitude da juíza foi elogiada pelo casal: "O preconceito é muito explícito, inclusive, em casamentos civis do cartório. Quando a gente decidiu casar judicialmente, eu pensei que seria da mesma forma. Não esperava esse acolhimento por parte de uma juíza. Ficamos muito felizes”, contou Elaine ao portal Campo Grande News.

Gestos como o da juíza Adriana chegam para mostrar que parte da Justiça (ainda bem) está do nosso lado e que se guia pelo respeito aos direitos humanos. Juíza de direito do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul há 17 anos e titular da 1ª Vara da Comarca de Bonito há 11, Adriana Lampert é gaúcha, tem 44 anos e agora faz mestrado em Direitos Humanos , o que a motiva ainda mais a militar contra as desigualdades da sociedade.

Em entrevista ao Campo Grande News, ela destacou que para conseguir qualquer coisa para as ditas minorias é preciso um enfrentamento dobrado. "Nós, como profissionais do direito, também temos nosso papel de reconhecer, encorajar, empoderar. E isso não é apenas na causa LGBT, é em todo contexto de desigualdade. O Estado tem um dever a cumprir, mas não é aceitando o direito do outro, é respeitando”. 

Enquanto isso, em Fortaleza...

Faixa contra homofobia no centro cultural Banco do Nordeste
Eduardo Bruno/Arquivo Pessoal
Casal de artistas diz que retirada da faixa do centro cultural foi um ato de censura

Um casal de artistas cearense acusa o Banco do Nordeste de censura após a retirada de uma faixa com mensagem que fazia referência ao casamento gay. O material fazia parte da exposição "O que pode um casamento (gay)?" e estava na frente do prédio do Centro Cultural e foi removido por ordem de funcionários do banco.

Os artistas Eduardo Bruno e Waldírio Castro resolveram transformar o próprio casamento em obra de arte, com uma série de performances, selecionada na mostra da 70ª edição do Salão de Abril, o maior salão de artes do Ceará, promovido pela Prefeitura de Fortaleza. A faixa que foi retirada sem a autorização dos artistas ou da curadoria continha a frase "Em terra de homofóbicos casamento gay é arte".

Em nota, o Banco do Nordeste admitiu que retirou a faixa na entrada do prédio porque estaria descaracterizando a fachada do prédio e comprometendo sua identidade visual. Na última terça-feira, o casal removeu toda a instalação que ocupava a parte interna do Centro CulturalBanco do Nordeste. A Prefeitura de Fortaleza informou que vai alocar a mostra num novo espaço, a Casa do Barão de Camocim.

Em entrevista à Rede Globo, Eduardo Bruno classificou o caso como homofobia: "A obra celebra a afetividade entre LGBTs e não continha nenhum conteúdo que justificasse a decisão. Era uma faixa, na parte de dentro, tinha um beijo gay, que hoje até novela mostra. Não tem discurso de ódio, não tem palavra de baixo calão, não tem pornografia".

Tive curiosidade de ler alguns comentários de internautas sobre o caso no portal da Globo do Ceará. É impressionante como 90% deles são para atacar os artistas com mensagens de ódio e dizer que "homofobia só existe na cabeça dos gays". E os governantes insistem em dizer que o preconceito vem diminuindo ou não existe. 

Enquanto isso, na Ásia

Logo após Taiwan ser o primeiro país da Ásia a legalizar o casamento homoafetivo, a discussão sobre o assunto tomou conta das rodas de conversa em Hong Kong, nação cujo parlamento já havia negado a legalização do casamento LGBT em 2018. Advogado do governo do país, Stuart Wong disse que não poderia permitir que casais homoafetivos se casassem, "por que assim a instituição casamento se tornaria algo não mais especial”.

Depois que um casal de lésbicas teve seu pedido negado nesta semana, Wong completou seu discurso afirmando que não é errado tratar as pessoas de forma diferente. “Nem todas as diferenças no tratamento são ilegais. Você não deve tratar casos desiguais da mesma forma”. Olha, mais um bolsonarista no Oriente...

Itália fazendo história

Gianmarco Negri, prefeito trans de cidade da Itália
Twitter/Reprodução
Gianmarco Negri foi eleito o primeiro prefeito trans da história

A cidade italiana de Tromello acaba de fazer história na política mundial. A cidade de 3,7 mil habitantes elegeu o primeiro prefeito transexual, Gianmarco Negri, de 40 anos. Uma curiosidade é que em momento algum da campanha ele esconder ser uma pessoa trans e ainda acabou derrotando o principal candidato da extrema-direita do povoado.

Menos atenção ao HIV

Essa perseguição do presidente Jair Bolsonaro  com a comunidade LGBTQI+ só vai de mal a pior. Agora foi a vez dele acabar com o Departamentode IST (Infecções Sexualmente Transmissíveis), Aids e Hepatites Virais, referência no mundo inteiro no tratamento de doenças sexualmente transmissíveis.

Agora, o órgão se chama Departamento de Doenças de Condições Crônicas e Infecções Sexualmente Transmissíveis, onde o HIV não ganhará mais estratégias específicas e dividirá as atenções com doenças como a hanseníase e a tuberculose. Segundo o Ministério da Saúde, a medida "busca reordenar ações em favor da população e melhor gestão do SUS". 

LGBTfobia no Chile

A cidade chilena de Coiapó foi palco de mais uma tragédia motivada pela LGBTfobia. O garoto trans José Matías De La Fuente Guevara se atirou do 11º de um prédio após sofrer várias agressões na escola onde estudava. Em uma carta de despedida deixada para a família, ele relatou alguns episódios que o levaram ao suicídio. Os país publicaram o texto na internet, de forma a aumentar o combate ao bullying.

Biografia autorizada

Ginasta Diego Hypólito
Maurício Silva/Divulgação
Após sair do armário, ginasta vai lançar biografia

Depois do desabafo que movimentou o mundo do esporte e reascendeu a discussão sobre atletas dentro do armário, o ginasta Diego Hypólitoconta que vai lançar, em breve, sua biografia autorizada, escrita pela jornalista Fernanda Thedim. O livro já está sendo finalizado e deve sair ainda este ano. Segundo ele, a questão da sexualidade, do bullying e da depressão estarão no livro. 

Grindr bloqueado

Por ordem do Ministério das Telecomunicações do Líbano, o aplicativo de relacionamento gay Grindr foi bloqueado no país. Ativistas LGBT do Oriente Médio acreditam que é uma tentativa do governo de "apagar a existência de homossexuais no país". A homossexualidade ainda é vista como um crime no Líbano.

Leia também: Taiwan celebra hoje primeiros casamentos LGBT da Ásia; 300 casais se registraram

Banheiros e dignidade

A briga pelo uso de banheiros de acordo com a identidade de gênero ainda é grande ao redor do mundo. E na Bahia ganhou um novo episódio. O vereador Marcos Mendes (PSOL) apresentou um projeto de lei que garante o acesso livre de pessoas trans a banheiros e vestiários em Salvador. Os estabelecimentos - públicos ou privados - que não seguirem a ordem seriam multados. O projeto ainda prevê ações educativas com funcionários.

Trans não, POC

 Pabllo Vittar vestida de Jasmine
Disney/Divulgação
Pabllo foi convidada pela Disney a posar com a temática do filme Aladdin

Em entrevista ao canal de Bianca Della Fancy no YouTube, a drag  Pabllo Vittar  falou que tentou iniciar a transição de gênero, no fim do ano passado, mas desistiu ao se perceber como um gay afeminado e não uma mulher trans. Ela contou que tomou hormônios femininos por cerca de um mês, mas desistiu logo em seguida. "Eu sou uma poc, um gay”, destacou.

E o pink money rendendo...

Uma pesquisa da LGBT Capital mostrou que a comunidade LGBTQI+ foi responsável por mais de US$ 24,5 bilhões do PIB dos Estados Unidos, só através do turismo em 2018. Esse público gasta mais de 33% a mais que turistas héteros, além de viajar de 4 a 6 vezes por ano. E Bolsonaro que ainda quer fechar o mercado para o nosso pink money?

Esse número deve crescer bastante este ano, com as comemorações dos 50 anos da revolta de Stonnewall pelo país e a realização da Parada do Orgulho Mundial, em Nova York, no fim de junho. Só de poder de compra, a pesquisa mostra que o público LGBT representa mais de US$ 912 bilhões ao ano. Não por acaso, várias marcas investem em produtos específicos.

Como é o caso...

tênis Nike Air Max 720 Be True
Nike/Divulgação
Nike Air Max 720 Be True ganhou as cores do movimento LGBT

Depois de cervejarias, redes de atacado e da Disney, foi a vez da Nike lançar um tênis em comemoração ao mês do Orgulho LGBT. O novo Air Max 720, da coleção Be True, ganhou as cores do movimento e deve custar em torno de US$ 180. No mês passado, a Converse já tinha feito o mesmo com uma linha exclusiva do All Star, que ganhou as cores da bandeira trans.

Beijo gay

A deputada bolsonarista Clarissa Tércio (PSC) moveu uma ação judicial contra o canal de humor Porta dos Fundos, após a publicação de um vídeo que mostra um beijo gay entre dois atores que representavam Jesus Cristo e Judas. De acordo com ela, eles cometeram crime de escarnecimento da fé cristã, previsto no artigo 208 do Código Penal.

Leia também: Carlinhos Maia: porque beijo gay ainda é um tabu?

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