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Influencer não beija o marido no próprio casamento e revolta seguidores

Em semana na qual a  criminalização da LGBTfobia volta à pauta em Brasília, outro assunto mexeu mais com os nervos da comunidade LGBTQI+ nas redes sociais: o casamento de  Carlinhos Maia  e Lucas Guimarães. O evento já tinha gerado o maior bafafá na internet com a sucessão de closes errados do influencer, com declarações do tipo: "Não será um casamento gay, mas sim um casamento entre dois homens".

Noivos Carlinhos Maia e Lucas Guimarães no casamento
Reprodução/Instagram
Cerimônia de casamento entre Carlinhos Maia e Lucas Guimarães foi acompanhada por mais de 2 milhões de internautas

Pois bem. O casamento de R$ 1 milhão entre dois homens rolou na última terça-feira (porque gente famosa não casa em fim de semana), na cidade alagoana de Piranhas, às margens do Rio São Francisco, com uma chuva de convidados ilustres, como Anitta, Alok e Wesley Safadão. Mas o que chamou mais atenção? Os dois homens não se beijaram após a troca de votos.

Leia também: Após críticas, Carlinhos Maia explica por que não beijou noivo no casamento

Claro que não ia demorar para a internet cair em cima de novo, não é? A quantidade de comentários negativos que li esta semana não está no gibi. Alguns reclamando que ele não se beijou "'em respeito aos casais héteros da cerimônia", como se os homossexuais se  ofendessem quando vamos a um casamento hétero e vemos o beijo dos noivos, não é?

Para rebater as críticas, Carlinhos veio com outra daquelas justificativas: “Muitos nos pedem o esperado beijo, a maioria ainda não percebeu, que nem tudo na vida é virtual, o nosso beijo é quentinho, molhada igual a maioria dos beijos, mas é nosso, apenas nosso! Quem sabe um dia não será visto, mas por enquanto será apenas sentido por nós dois e pelo nosso amor”, disse ele no Instagram.

Vamos lá: eu até concordo que a intimidade de cada casal é diferente e que a gente não pode tratar isso como um espetáculo midiático. Mas, senhor Carlinhos, na posição de formador de opinião que tem, poderia utilizar sua força e visibilidade para ajudar na transformação que essa sociedade precisa nos dias de hoje.

Afinal, será que ele acha que seria chocante para os 2 milhões de internautas que acompanhavam a cerimônia ao vivo? Acho que 99,5% deles estavam esperando ver essa demonstração de carinho, afinal, ao contrário do que você defendia, era sim um casamento GAY. Acho que até  Anitta , que estava lá na festa, ficou indignada com aquele beijo na testa (em vídeos na internet, dá para ver a reação da cantora no momento).

Carlinhos, beijar quem se ama, andar de mãos dadas, acariciar o cabelo ou qualquer gesto não deveria ofender ninguém, muito pelo contrário. Demonstrações públicas de afeto são, acima de tudo, um ATO DE RESISTÊNCIA. E acho que era isso que muito de seus seguidores esperavam de você. Afinal, se até Anitta, hétero, beijou uma mulher em um de seus clipes, por que você, gay, não poderia fazer o mesmo? Ainda mais com alguém que se ama...

O que mais nós, ativistas, brigamos é por mais espaço e voz na sociedade. Um espaço para mostrar que pagamos nossos impostos como todo mundo e só queremos ser aceitos por quem realmente somos. Um beijo é um beijo, seja lá em quem for. E um cara como Carlinhos poderia ter mostrado a seus milhões de seguidores que isso não é um tabu . E não pode ser.

Precauções

colunista Diogo carvalho e o namorado Jeep Ampol se beijam em frente ao monumento
Diogo Carvalho
Que melhor maneira de celebrar o monumento "O Beijo", em San Diego (Califórnia), do que dando um beijo no meu namorado?

Juntos há quatro anos, meu namorado e eu viajamos juntos sempre que podemos. A Tailândia, ainda bem, é uma das nações mais progressistas da Ásia. Aqui, não é tabu ser LGBTQI+ e somos muito respeitados pela sociedade. O mesmo, claro, não acontece em outros países do continente.

Em Bangkok, andamos de mãos dadas e nos beijamos em público sem problemas. Ninguém nos olha de maneira distorcida ou grita ofensas homofóbicas. A coisa é tão natural que, em janeiro passado, quando me despedia de Jeep no aeroporto (ele faria um voo para os Estados Unidos), após ele abraçar o irmão e a mãe, demos um mega-beijo no saguão.

A mãe dele, vendo a cena, nos abraçou carinhosamente. Ao verem a cena, dois indianos que estavam próximos começaram a fazer comentários pejorativos em inglês. Meu cunhado comentou com minha sogra, que rapidamente virou com cara brava para eles e disse, em tailandês, que não destratassem o amor entre duas pessoas. E que aqui na Tailândia é um lugar de respeito e não de preconceito.

Aí é que está o ponto que quero chegar: claro que quando Jeep e eu viajamos para nações onde a homossexualidade não é bem aceita, não vamos afrontar os valores culturais do lugar. Se nos Estados Unidos, andamos "agarrados", claro que não faremos o mesmo na Índia. Da última vez que estivemos na China, evitamos afetos mais carinhosos em público, mas exigimos uma cama de casal no hostel que ficamos. Era um direito nosso.

Lembro que, no ano passado, o Itamaraty soltou um comunicado aos LGBTs que estavam indo para a Copa do Mundo da Rússia, para que evitassem demonstrações de afeto em público, já que os homossexuais não são bem vistos no país. E eu falo o mesmo para amigos que viajam para a Malásia ou Emirados Árabes, por exemplo.

Mas isso porque nesses países a homossexualidade ainda é um tabu ! A gente não pode querer empurrar nossa cultura e valores goela abaixo nesses lugares. Mas por que você, Carlinhos Maia, aí no Brasil, com toda visibilidade que tem, ainda trata um beijo entre dois homens que se amam como um tabu?

Leia também: Transexualidade não é mais uma doença para a OMS

Evolução

casal de lésbicas se beija em frente a parque, em São Paulo
Reprodução/Youtube
Quatro em cada 10 cidadãos de São Paulo são contra demonstrações de afeto entre LGBTs em locais públicos

Muitos dos meus amigos aqui na Ásia comentam: "Mas você é do Brasil. Lá a galera tem a cabeça bem aberta". Será? No ano passado, o estudo Viver em São Paulo mostrou que na cidade tida como a "mais moderna do país", quatro em cada 10 pessoas eram contrários à demonstração de afeto (beijos e abraços) entre LGBTs em público. Somente 22% disseram que não havia problema algum.

A mesma pesquisa revela que mais de 50% dos moradores de São Paulo já presenciaram ou viveram situação de LGBTfobia após troca de afetos em espaços ou transportes públicos. Mas não acredito que Carlinhos Maia seria hostilizado em pleno seu casamento por dar nem que seja um selinho no seu marido...

Por mais que a gente admita que o Brasil ainda é o país bem retrógrado quanto aos direitos da comunidade LGBTQI+ - ainda mais com o recente avanço da extrema-direita conservadora - a liberdade de sair do armário hoje é muito maior do que há 15 anos, quando me assumi.

São inegáveis os avanços. Hoje, existem leis que protegem a expressão de afeto em público. Muitas vezes essas leis não conseguem barrar um ataque homofóbico, mas certamente servem para punir um estabelecimento ou um agressor, já que ainda não existe crime de LGBTfobia.

A gente precisa, sim, brigar para que esses direitos já conquistados não sejam ofuscados. Quando a Justiça, com o advento das novas leis, busca disciplinar a questão da igualdade entre as pessoas, está visando à eliminação das desigualdades socialmente construídas. E assim seguimos, juntos e shallow now... =D

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No Vale europeu

 Leonardo Vieira e marido posam em frente à bandeira de Portugal
Reprodução/Instagram
Leonardo Vieira e marido hoje moram em Portugal

Em entrevista ao jornal Extra desta semana, o galã  Leonardo Vieira  fala que resolveu morar com seu marido, Leandro Fonseca, em Portugal desde novembro do ano passado, após receber ameaças de morte depois de sair do armário publicamente. “Em Portugal, a homofobia é bem menor que no Brasil, eu não sofro ameaças de morte por ser eu, como já aconteceu no meu país", destacou.

Ele ainda comentou da atual situação política do Brasil: "Aqui não há um presidente que faz cortes na educação e estimula o uso de armas por crianças. Aqui em Portugal a extrema direita não está no poder. Esses são alguns dos motivos e já são o suficiente para eu ter escolhido morar em Portugal”.

Censurado

Lembra que elogiamos a animação infantil Arthur, que retratava em sua nova temporada um casamento homossexual? Pois bem, o episódio em questão teve sua exibição censurada pelo canal público de TV do estado do Alabama, nos EUA. Isso porque o desenho nem menciona a palavra "gay". O protagonista só fica feliz por seu professor estar "com alguém que é bom, gentil, divertido".

Aliado

Antoine Griezmann na capa da revista Tetu
Reprodução/Têtu
Atacante Antoine Griezmann pede fim da homofobia no futebol

Um dos maiores aliados da comunidade LGBTQI+ na França, o atacante Antoine Griezmann é capa da nova edição da revista Têtu. Na entrevista, ele revelou que deixaria o campo se ouvisse algum jogador com atitudes homofóbicas. “A homofobia não é uma opinião, é crime. Precisamos educar nossos filhos para que cresçam em um mundo menos preconceituoso e sexista”, destacou.

 Criminalização

A Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) aprovou na última quarta-feira (24) o projeto que prevê punições para a discriminação ou preconceito por orientação e identidade de gênero. O projeto que criminaliza a LGBTfobia, solicita a alteração na legislação que trata crimes de preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional.

O Superior Tribunal Federal (STF) vai voltar a discutir esta mesma pauta a partir desta quinta-feira (23). Segundo a proposta, a punição será dada para pessoas que “impedir ou restringir a manifestação razoável de afetividade de qualquer pessoa em local público ou privado aberto ao público”, isentando templos religiosos.

O texto indica uma punição de três anos de prisão e pagamento de multa para quem praticar, induzir ou incitar a intolerância, discriminação ou preconceito de orientação ou identidade de gênero.

 Rainbow Disney

Produtos da linha Rainbow Disney
Divulgação/Disney
Disney lança linha de produtos em comemoração ao mês do Orgulho

Já não é de agora que a Disney tem investido cada vez mais na diversidade (não, ministra Damares, a Elsa não é lésbica - ainda). O Walt Disney World de Orlando realiza a Pride Parade já há alguns anos e a Euro Disney (Paris) vai receber a primeira edição da marcha este ano. E, nesta semana, a empresa anunciou uma coleção com peças inspiradas nas cores do arco-íris.

Parte da renda dos produtos da Rainbow Disney Collection será destinada à Diversity Role Models, organização de apoio a jovens LGBTs. Outra novidade do grupo Disney é que eles já começaram a produção de uma série inspirada na comédia romântica Com amor, Simon, sobre a saída do armário de um jovem homossexual.

Bem-vindo ao Vale

O cantor cingapuriano Wils saiu do armário publicamente em seu novo clipe, Open Up Babe, no qual aparece em cenas românticas com outro cara. Em Cingapura, assim como em outros 22 países asiáticos, prática homossexuais ainda são ilegais, em alguns sendo punidas até com a morte.

Fora de sua terra desde 2011, ele conta que muitos gays orientais não revelam sua sexualidade para não trazer "vergonha" às famílias, mas que as coisas têm mudado nos últimos anos no continente e as pessoas encaram tudo com mais naturalidade. Assista ao clipe do cantor Wils: