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O que muda na vida das pessoas trans com essa nova decisão?

Desde junho do ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) havia anunciado que a transexualidade estava fora da lista de transtornos mentais, presentes na nova classificação do Manual Internacional de Doenças e Problemas de Saúde (CID). No entanto, a decisão só foi oficializada na segunda-feira (20), com assinatura durante a 72ª Assembleia Mundial da Saúde, em Genebra.

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A partir de agora, a transexualidade está integrada à categoria de “condições relacionadas à saúde".  Em sua 11ª atualização, a CID apresenta um tópico específico para “incongruência de  gênero  de adolescente ou adulto", persistente entre o gênero experimentado e o atribuído ao indivíduo no nascimento. O tópico diz que o "diagnóstico" não pode ser feito antes da puberdade.

Mulher trans carrega bandeira do movimento em ato nos Estados Unidos
Ted Eytan/Flickr
Pessoas trans poderão contar com mais apoio de profissionais e órgãos de saúde com a nova decisão da OMS


A comunidade trans e os  ativistas LGBTQI+ enxergam como positiva a decisão de manter a transexualidade na CID-11, não mais como uma doença (como foi nos últimos 28 anos), mas como uma condição relacionada à saúde do indivíduo. Isso reforça que "a pessoa trans  não é doente, mas requer atenção por parte de profissionais e entidades da saúde", como destacou a OMS em documento.

A gente precisa lembrar que o código internacional de doenças não fala só de doenças, fala de condições de saúde que demandam atenção de profissionais. Só para exemplificar, a gravidez também consta na CID. Ou seja, podemos entender as pessoas trans como mulheres grávidas, que precisam de acompanhamento médico, no caso delas para os procedimentos de  readequação , como terapia de hormônios e cirurgias.

Especialistas acreditam que a nova decisão da OMS pode facilitar muito o procedimento de readequação, uma vez que pode vir a dispensar o diagnóstico psiquiátrico, já que não é uma patologia, mas sim uma forma de ser humano na sociedade.

Eu tenho amigos trans que precisaram esperar até dois anos para receber esse "diagnóstico" só para dizer quem realmente são e que corpo devem ter. A espera por uma cirurgia de readequação pode levar até 20 anos no sistema público de saúde. Essa espera diminuiria drasticamente agora, uma vez que a condição não é mais tratada como transtorno.

Ativistas LGBTs em evento em Washington
Ashley Smith/Flickr
Entidades e ativistas acreditam que processo de readequação ficará menos burocrático


Só lembrando que essa decisão da OMS é apenas um começo para uma briga que nós ativistas temos diariamente com a sociedade - seja ela hétero ou LGBT . As pessoas trans ainda seguem à margem do sistema, sem oportunidades reais de emprego e ainda são as que mais sofrem com a violência. Só para reforçar, o Brasil se diz tão mente aberta, mas ainda é o país que mais mata transgêneros no mundo.

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Após o novo acordo internacional da OMS, cada país terá até o dia 1º de janeiro de 2022 para se adaptar à nova norma da CID-11. Nós vamos ficar aqui de olho! Juntos e shallow now! <3

 Aliados

A National LGBT (uma ONG dos EUA que defende os direitos da comunidade) lançou um guia que ensina como ser um "aliado" da luta trans . O manual tira dúvidas a respeito da transexualidade, como apoiar um amigo que se revele trans e até mesmo como interromper conversas transfóbicas na família. Isso vale também para os outros irmãos LGBTQI+, beleza? Estamos juntos pela igualdade.

Na semana passada, a prefeitura do Rio de Janeiro também lançou um Guia da Diversidade , que pode ser acessado pelo:  http://www.rio.rj.gov.br/c/document_library/get_file? uuid=d8b0e405-89cc-403e-9316- 4aa1447bea37&groupId=6767039

Líder

Deputado David Miranda com o marido e os dois filhos
Reprodução/Twitter
Deputado David Miranda (direita) é eleito um dos 10 líderes da nova geração mundial

O deputado federal  David Miranda  (PSol) foi eleito um dos "10 Líderes da Nova Geração no Mundo", pela revista norte-americana Time, que abraça nomes que abrem novas perspectivas em áreas como a arte, o esporte e a política. David é um dos únicos deputados federais abertamente gays no Brasil.

Casado e pai adotivo de duas crianças, David tem como seu primeiro projeto de lei criar a obrigação de educação sobre questões e políticas LGBTs para educadores e políticos. 

Criminalização

Só para lembrar: o julgamento sobre a  criminalização da homofobia  vai retornar à pauta do Supremo Tribunal Federal (STF) a partir desta quinta-feira (23). Caso exista um parecer favorável à ação, a descriminalização ainda vai ter que passar por votação na Câmara Federal e no Senado.

Hoje em dia no Brasil, nas agressões motivadas por preconceito contra a população LGBTQI+, os casos são tratados como lesão corporal, tentativa de homicídio ou ofensa moral.

No táxi

Youtuber Spartakus Santiago
Reprodução/Youtube
Youtuber foi vítima de racismo e homofobia por parte de taxista de aplicativo

Já não é de agora que os LGBTs sofrem ameaças e agressões nos transportes públicos no Brasil. E nos táxis não é diferente. Conhecido por fazer vídeos em prol dos negros e dos LGBTs no Brasil, o youtuber Spartakus Santiago  foi vítima de racismo e homofobia no último domingo. Ele teve a corrida negada por um motorista do aplicativo 99 Táxi, que reagiu com agressões verbais (gravadas pelo próprio ativista).

Depois que a hashtag "NãoVouDe99" ganhou força nas redes sociais no fim de semana, o app se pronunciou sobre o caso, desculpando-se com Santiago e informando que havia banido o tal motorista da plataforma.

No táxi 2

Quem também passou por maus bocados no táxi foi a atriz Samantha Schmütz . Ela gravou um vídeo no qual o motorista do táxi onde ela estava assume ter agredido um casal gay com tapas só pelo fato de eles estarem se beijando em público.

"Dei uma coça. Não tinha lei, ainda, não tinha essa liberação total. Eles desrespeitaram todo mundo. Não tem nada a ver: um montão de casal hétero, 'normal', ninguém se beijando e por que os dois ficaram se agarrando ali?", disse o motorista no vídeo.

Indignada, a atriz deixou o táxi e fez os desabafos nas redes sociais. "Eu desci do táxi, porque quem não se posiciona contra está a favor!", comentou Samantha.

Sacola

sacola com as cores da bandeira do arco-íris da Ikea
Divulgação/Ikea
Rede de lojas Ikea vai lançar sacola em comemoração ao mês da diversidade

Depois de muitas marcas de bebida anunciarem garrafas comemorativas ao mês da diversidade, foi a vez da rede de lojas Ikea lançar uma sacola especial com as cores do arco-íris. Na Europa, por exemplo, elas estarão à venda por 1 euro e o dinheiro arrecadado será doado para eventos Pride e iniciativas LGBT. Algum amigo na Europa guarda uma para mim?!

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