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Por que a revelação da sexualidade de personalidades ainda precisa ser trabalhada como um espetáculo pela mídia?

Como meu fuso horário na Tailândia é 10 horas na frente do Brasil, eu já havia enviado minha  coluna da quinta-feira para a redação do iG quando o "boom" da revelação do ginasta brasileiro Diego Hypolito estorou na internet. A coluna deste fim de semana deveria ser sobre turismo, mas não poderia deixar passar batido este episódio aí no Brasil.

Vamos lá... Diego Hypolito "saiu do armário" em entrevista ao portal UOL. Mas saiu para quem, afinal? Para ele, para a família, para os amigos? Todos esses já sabiam. Ele apenas fez um desabafo para a sociedade em um grande portal de notícias. E, convenhamos, personalidades se assumindo já deveria ter deixado de ser notícia há muito tempo.

Ginasta Diego Hypolito nos Jogos Olímpicos do Rio
CBG/Flickr
Medalhista olímpico Diego Hypolito falou pela primeira vez sobre sua orientação em entrevista nesta semana


Vi uma chuva de brincadeiras nas redes sociais de vários amigos gays. "Diego Hypolito saiu do armário? Cadê a novidade?", muitos comentaram em seus stories, com memes de chacota. Lembro de reações semelhantes quando o latin lover Ricky Martin também se assumiu publicamente. Até minha melhor amiga berrou um "eu já sabia".

Acho que a publicação da entrevista do atleta vale por inúmeros fatos, mas menos pela "saída do armário". Acredito que o fato nos leva à discussão de por que uma empresa não pode patrocinar um esportista LGBT ? Ou mesmo levantar uma discussão sobre o  bullying  em ambiente de treinamento. Mas, "Diego Hypólito é gay"?

Até eu soltei um "eu já sabia" quando li sobre isso. Na minha cabeça, inclusive, ele já tinha se assumido há muito tempo. Tem tanto artista que nós, LGBTs, vemos em baladas e que eu acho que são assumidos, mas que ainda estão nas entocas, na verdade. É aquele nosso velho "gaydar" apitando e que nossas amigas héteros sempre nos pedem para usar na hora que estão paquerando algum potencial ficante.

Sempre fazemos questão de destacar que essa história de opção não existe. Ninguém escolhe nascer gostando de homem, mulher ou qualquer outro gênero. A única opção dos LGBTs é se assumir ou não para a sociedade. Isso, sim, é uma escolha de fato.

Na entrevista, o medalhista olímpico contou que "se descobriu gay" por volta dos 19 anos. Mas só veio dar a cara à tapa para a sociedade esta semana, aos 32 anos. Não estou aqui para julgar, acho que cada um tem seu tempo e sua própria realidade.

Imagino o quanto Diego deve ter sofrido ao longo de todos esses anos, vivendo uma mentira. Mas, antes tarde do que nunca, não é? Tem tanta gente que vai para a cova escondendo quem é de fato.

Em rodas com amigos eu sempre discuti que eu acho que o mundo nos trataria de uma maneira muito mais natural se todos os enrustidos saíssem desse armário escuro e fedorento. Aqui fora é tudo muito mais legal. Afinal, por que se esconder? Não somos bandidos, não estamos fazendo nada de errado. Qual é o problema de ser gay? Só pelo fato de estar fora dos padrões heteronormativos?

Imaginem um mundo que ninguém apontasse os outros como héteros, homo, bis, agêneros (etc)... Um mundo em que fôssemos tratados como pessoas, o que realmente somos. Sem essa divisão toda. O sofrimento seria muito menor para tanta gente.

Diego Hypolito em ambiente de treinamento
Gabriel Dias/Flickr
Diego falou também do bullying que sofreu dos colegas nos locais de treinamento


Não vem ao caso agora como foi a minha saída do armário - acho que vale um post futuro só sobre isso -, mas também não foi fácil. A diferença é que eu não quis viver uma mentira e sofrer calado por tanto tempo quanto Diego Hypolito. Eu tinha 17 anos, estava na faculdade, conheci meu primeiro namorado e me apaixonei. Chorei uma semana sozinho, na seguinte resolvi contar para a minha mãe, que não me apoiou de cara.

Engraçado que fui achar primeiro o apoio na rua do que dentro de casa, com exceção da minha irmã caçula, claro, que mesmo com apenas 12 anos sempre foi muito compreensiva e minha melhor amiga. O lance é que eu não tinha muito esse medo que as pessoas têm ao se assumir: "O que vão dizer no meu trabalho? Como meus amigos vão reagir?".

Eu não pensava muito nos outros. Eu só queria estar bem comigo mesmo. E, na minha opinião, acho que os LGBTs devem ser um pouco egoístas nessa hora. Afinal, é a nossa vida. Só nos mesmos sabemos a dureza que é nossa vida. às vezes, a gente precisa brigar em dobro por direitos que nos deveriam ser garantidos sem esforço.

Afinal, por que pagamos os mesmos impostos, mas não temos os mesmos direitos de um cidadão heterossexual? Este mundo é justo, afinal? Por isso, antes de pensar como os outros iam reagir quanto à minha "revelação", eu só queria estar em paz comigo mesmo. Hoje, minha família é muito de boa, mas levou um certo tempo para digerir, assim como foi a história com o ginasta.

Reação

Engraçado que a revelação dele aconteceu justamente na semana em que o jornal esportivo francês L'Equipe publicou uma capa discutindo a  homofobia no esporte . Mesmo sem ser abertamente gay, Diego sofria chacota dos colegas de treino. Não só pelo fato de ser gay (enrustido), mas principalmente pela sua aparência.

Imagina para esse cara a quantidade de neuras que ele tinha na cabeça e ainda precisar se preocupar com desempenho nas competições. Falando nos torneios, acredito que um dos maiores medos de Diego era que ele fosse perder o patrocínio de algumas empresas caso sua orientação viesse à tona.

Entendo a preocupação dele na sociedade machista em que ainda vivemos (e onde um presidente censura um simples comercial que mostra a diversidade do brasileiro). Mas não chegou a hora de repensar nesses valores? No meu caso, eu não deixaria de afirmar quem eu sou por medo de perder dinheiro ou apoio.

Como sempre dizemos, onde uma porta se fecha, duas se abrem. Poderia ser que Diego perdesse os patrocínios se ele se assumisse gay antes. Mas ele poderia comprar uma bandeira por uma causa muito maior, podia ter servido de exemplo e inspiração para tantos atletas muito antes. E até desenrolar patrocínio de grandes empresas que exaltam a diversidade (e que são muitas).

Diego Hypolito fala em palestra
Maurício Silva/Flickr
Ginasta diz que agora quer servir de inspiração para outros atletas que ainda estão no armário

Mas, volto a reforçar, cada um tem uma realidade. Lembro que, no meu caso, minha mãe me dizia: "Pelo amor de Deus, não se assuma no seu ambiente de trabalho . Você pode perder seu emprego, isso vai fechar suas portas". Antes dela falar isso, eu já tinha feito tudo ao contrário. É claro que eu não colocava isso no meu currículo, mas numa roda de conversa nunca escondi que tinha um namorado.

Leia também: Como se assumir LGBT no trabalho

E, ainda bem, que na minha carreira profissional sempre fui bem aceito. Afinal, minha orientação não diz nada a respeito do meu talento ou capacidade de executar tarefas. Acho que um LGBT assumido no ambiente de trabalho, inclusive, é muito mais produtivo. Talvez, a medalha olímpica de Diego tivesse vindo muito antes se ele não tivesse toda essa neura de esconder quem é. Quem sabe?

O fato de ser gay no meu ambiente de trabalho, inclusive, só me abriu portas. Deixou-me conectado com o mercado de entretenimento LGBT no Recife e com as ONGs de todo o Brasil. No jornal Diario de Pernambuco, conquistei uma coluna para discutir ativismo LGBT e tornei-me editor de noticiário internacional, sempre com espaço de destaque para a discussão dos direitos humanos.

Será que se eu fosse um gay enrustido na redação, iriam me colocar para escrever sobre os clássicos do futebol pernambucano? Nunca vou saber... Mas sou feliz por sempre ter tido abertura para viver quem eu sou de verdade. Por isso, se me perguntam "assumir ou não", eu digo que depende da realidade da pessoa. A minha não era tão favorável assim, mas minha decisão foi não viver na mentira.

VALE

Por isso, caro Diego Hypolito, obrigado por nos contar. "Eu já sabia" que você era um dos nossos há muito tempo, mas seja bem-vindo ao VALE, este lugar tão mais feliz e bonito, mas também de muita luta. Espero, sim, que você sirva de exemplo para muitos esportistas e que eles vejam que não vale a pena sofrer calado por tanto tempo.

Ginasta Diego Hypolito abraça colega em competição
CBG/Flickr
Bem-vindo ao VALE, Diego!


Colegas LGBTs, mesmo que "vocês já sabiam", vale respeitar a individualidade de cada um. Cada um tem os seus motivos para sair ou não. Se eu pudesse, faria uma campanha para destruir todos os armários, porque eles só causam dor e sofrimento para quem está dentro e fora dele. E que possamos viver num mundo onde "a saída de alguém do armário" não seja mais tratada como uma notícia espetáculo.

Tem alguma sugestão para a coluna? Manda um e-mail para a gente no lgbtudoig@gmail.com


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