Tamanho do texto

Em países mais liberais, como a Alemanha, o tratamento de reorientação sexual, conhecido como "cura gay" ainda é um mal a ser combatido

Em meus trabalhos como guia turístico no distrito LGBT de Bangkok, na Tailândia, eu me deparo com todo tipo de história. Uma das mais recentes - e que muito me chocou - foi a de uma alemã de 23 anos que me contou ter passado pela "terapia de reorientação sexual", a chamada " cura gay " aí no Brasil, cerca de cinco anos antes.

Leia também: Ativistas LGBT pressionam e Brunei volta atrás em pena de morte

cena do filme Boy Erased, com Lucas Hedge
Focus Pictures/Divulgação
Baseado em história real, Boy Erased mostra jovem que passa por "cura gay" e teve distribuição cancelada no Brasil

Com muita naturalidade, ela me narrou de maneira breve tudo que passou durante seis semanas numa espécie de "internato" que ficava a algumas horas de carro de Sttutgart, sul da Alemanha. Ela tentava dar risada das situações, até porque, segundo ela, "sabia que aquilo nunca ia funcionar e tirava sarro dos tutores", mas estava claro que aquele "tratamento", ou seja, a " cura gay " tinha deixado cicatrizes nela.

Segundo a jovem, tudo era como mostrado em alguns filmes: eles participam de cultos e aulas de estudos bíblicos, de uma maneira a convencê-los que o demônio está em seus corpos e que precisa ser expulso; eles têm consultas com psicólogos que tentam descobrir onde estava a ausência, no caso dela, da figura materna, o que teria 'transformado ela em lésbica'. E por aí vai...

Ela conta que nunca chegou a ser agredida fisicamente, mas a tortura psicológica era pesada. Lembra que só não se prejudicou mais porque era muito crente em Deus e sabia que não tinha nada de errado com ela. Mas fala de colegas que entraram em depressão e precisavam ficar dopados de medicamentos, ao invés da felicidade fake que os tutores tentavam demonstrar que existia no tratamento.

Como ela conseguiu sair? "Passei por todo aquele blá blá blá e fingi que estava gostando de garotos. Depois de algumas sessões com a psicóloga, ela disse que eu estava 'curada'. Acho que meus pais também não estavam mais dispostos a pagar pelo tratamento, que era bem caro". Ao voltar para casa, depois de três dias, foi reencontrar sua namorada num bar LGBT de uma cidade próxima.

Depois de uns meses, deixou a casa dos pais e foi morar com ela. Hoje, não estão mais juntas e ela viaja sozinha pelo sudeste asiático, tentando se conectar mais com a natureza e outras culturas. "Minha cabeça sempre foi muito boa e eu sabia que não precisava ser 'curada' de nada. Eu não sou doente. Doentes são aqueles que tentam tirar proveito disso, da fragilidade de adolescentes e de suas famílias malucas", destacou.

Leia também: Confira datas de Paradas do Orgulho LGBT no Brasil e no mundo em 2019

 Ainda uma realidade

A conversa que tive com essa alemã foi há algumas semanas, mais ou menos na época em que o  Supremo Tribunal Federal (STF) no Brasil concedeu liminar ao Conselho Federal de Psicologia mantendo íntegra a resolução que determina que não cabe a psicólogos o oferecimento de qualquer tipo de prática de reversão sexual, uma vez que a homossexualidade não é doença ou desvio.

E o bizarro é que ainda precise existir briga na Justiça contra esse tipo de absurdo. Afinal, esse grupo de psicólogos defende que os jovens  precisam de liberdade para se tratar? Ou só querem se aproveitar e arrancar dinheiro do momento frágil que os LGBTs e suas famílias mais rígidas estão passando? Bem, em quase 15 anos de ativismo, eu nunca conheci um "ex-gay" ou "ex-lésbica".

Mesmo sendo o país onde mais se mata LGBTs no mundo, o Brasil foi o pioneiro a banir esse tipo de prática. No país, o Conselho Federal de Psicologia proíbe terapias de reversão sexual desde 1999 e profissionais que desobedecerem a regra podem ter seu registro cassado. Mas vocês iriam se chocar se dessem uma pesquisada na internet para saber como ainda é no mundo afora.

Em alguns países, a "cura gay" já é proibida por lei, como é o caso de Malta, Equador, Israel e em alguns estados norte-americanos. Mas é bizarro que em países considerados tão avançados no quesito de direitos humanos, como a própria Alemanha e algumas outras nações europeias, ainda seja uma realidade e precise ser combatida.

ministro da saúde alemão Jens Spahn discursa em evento
Hubert Burda Media/Flickr
Homossexual assumido, ministro da Saúde alemão Jens Spahn briga por aprovação de lei contra o tratamento no país

No início deste ano, o ministro da Saúde alemão, Jens Spahn, reforçou a necessidade da aprovação de uma lei eficaz que combata esses tratamentos: "Eu não acredito nessas terapias, até por causa da minha própria homossexualidade. Eu digo sempre que Deus deve ter tido os seus motivos", afirmou Spahn, que é um dos principais líderes da ala direita do partido conservador União Democrata Cristã (CDU).

Pelo fato da comunidade LGBT ser bem aceita na Tailândia, não conheço casos assim por aqui. Mas, com certeza, devem existir, uma vez que aqui não existe lei que proíba a prática.

O mais chocante é que bem aqui do lado, na Malásia, o governo fez uma campanha (!!!) a favor da terapia de conversão sexual depois que autoridades federais disseram que a orientação sexual de alguém pode ser transformada através de um "treinamento intensivo". Eles chegaram a oferecer um prêmio em dinheiro para o melhor vídeo de "prevenção à homossexualidade" em uma competição juvenil de vídeos de educação sexual.

História no Brasil

No Brasil, o projeto da Cura Gay - também conhecido pelos nomes Terapia da Reorientação Sexual, Terapia de Conversão ou Terapia Reparativa - é um conjunto de técnicas que tem o objetivo de extinguir a homossexualidade de um indivíduo, sejam elas métodos psicanalíticos, cognitivos e comportamentais. Também são utilizados tratamentos de ordem clínica e religiosa.

O assunto se tornou polêmico por se referir à orientação sexual como uma doença, já que a palavra "cura" implica a eliminação de um “mal”. Só que desde a década de 1990, a Organização Mundial da Saúde (OMS) descartou qualquer possibilidade de que a orientação sexual dos indivíduos esteja relacionada à uma doença, e sim uma variação natural da sexualidade humana.

Em 2011, o deputado federal do PSDB de Goiás, João Campos, foi quem protocolou na Câmara dos Deputados um PDC (Projeto de Decreto Legislativo) para suspender a resolução do Conselho Federal de Psicologia, que proíbe este tipo de tratamentos desde 1999.

ativistas LGBT em protesto contra a cura gay em São Paulo
Flickr/Eduardo Petrini
Na época da tramitação do projeto sobre a cura gay no Brasil, ativistas LGBT foram às ruas do Brasil em protesto

Dois anos depois de tentativas de votação e sob muitos protestos de outros parlamentares e da população em geral, o projeto foi aprovado em 18 de junho de 2013 pela Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. Mas apenas 15 dias após o deferimento do PDC de sua autoria, o deputado João Campos levou à Câmara um requerimento que pedia o cancelamento da sua proposta.

Isso se deu graças à pressão do próprio PSDB, que se mostrou contrário à solicitação de seu deputado. O arquivamento foi aprovado por quase todos os partidos, menos pelo PSOL, do deputado e  ativista LGBT Jean Wyllys , que queria não só o arquivamento , mas também que tal proposta não pudesse ser reapresentada. O pedido teve indeferimento imediato na Câmara.

Mas conversando com amigos advogados, eles me explicaram que o indeferimento de projetos como este tem data de validade. E quando o trâmite de uma proposta é cancelado na Câmara, outra de conteúdo semelhante não poderá ser apresentada no mesmo ano em que a primeira foi cancelada. Por isso, a ameaça de um novo projeto de Cura Gay sempre está sobre nossas cabeças.

Leia também: Mercado de trabalho ainda fechado para LGBTs

Para assistir

Sei que a "cura gay" ainda é um tema a ser muito discutido na sociedade. Por sorte, Hollywood sempre esteve interessada sobre o tema. Na internet e em serviços de streaming, é fácil encontrar produções que debatam esse tema. A mais recente delas é  Boy erased  (2018), conhecida no Brasil como "Uma verdade anulada". 

Estranhamente, a exibição desse longa incrível foi cancelada no circuitão de cinemas do Brasil. Soube de alguns poucos casos onde ele foi exibido em mostras específicas. No mês passado, ele foi lançado por aí direto em DVD. Baseado no livro homônimo de Garrard Conley, Boy erased é estrelado pelos vencedores do Oscar Nicole Kidman e Russell Crowe e pelo indicado ao Oscar Lucas Hedges.

Cena de O mau exemplo de Cameron Post, com Chloe Grace Moretz
Parkville Pictures/divulgação
O mau exemplo de Cameron Post mostra uma garota lésbica internada pela tia fanática religiosa

Na trama, Lucas vive Jared, um jovem norte-americano de 19 anos que revela ser gay ao pai (Crowe), pastor de uma igreja. Ele então é obrigado a fazer uma escolha: ingressar num programa religioso de “reversão sexual” ou ser excluído de sua comunidade.

O filme mostra os meses de tratamento e dor pelo qual o autor da obra passou. Nicole e Lucas dão um verdadeiro show de interpretação na tela, mostrando que o amor da família é a verdadeira cura ao preconceito.

Outro longa que também aborda o assunto recebeu o grande prêmio do júri no Festival de Sundance do ano passado. Também adaptação de um best seller (este escrito por Emily M. Danforth), O mau exemplo de Cameron Post mostra uma órfã (vivida por Chloë Grace Moretz) que é submetida à “cura gay” por uma tia conservadora após se flagrada pelo namorado dando uns pegas na melhor amiga durante o baile de formatura.

Tem outras sugestões de temas, como " cura gay ", a serem abordados pela coluna? Manda um e-mail para a gente no  lgbtudoig@gmail.com .