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Transgêneros brasileiros têm certos direitos conquistados, mas ainda não são bem aceitos nas empresas. Na Tailândia, por exemplo, acontece o contrário

No dia em que parte do mundo celebrou (ou descansou) o Dia Internacional do Trabalho, aqui na Tailândia a gente conhecia a nossa nova rainha. O rei Maha Vajiralongkorn trocou votos com Suthina Vajiralongkorn três dias antes da cerimônia oficial de sua coroação como líder máximo de uma das nações que mais aceita e respeita a diversidade de gêneros e comunidade LGBTI+ no Oriente.

homem e cineasta trans conversam em festival de cinema
FEFF/FlickR
Tanwarin Sukkhapisit é a primeira parlamentar LGBT na Tailândia

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Se formos lembrar, Brunei - nação asiática a apenas 2h30 de voo de Bangkok - anunciou no mês passado que irá punir lésbicas, gays, bissexuais e transgêneros com a pena de morte. Aqui na Tailândia, tudo é "bem aceito". Apesar de ainda não existirem leis que permitam o casamento, a possibilidade de adoção e a obtenção de benefícios sociais para casais homoafetivos, não lembro de gente sendo morta ou espancada por ser gay por aqui.

Essas discussões sobre direitos para a comunidade LGBTI+ , inclusive, ganharam cada vez mais força nas últimas eleições legislativas, ocorridas em março passado, e das quais a cineasta trans Tanwarin Sukkhapisit (também bissexual assumida) marcou história como a primeira representante LGBT no parlamento tailandês. Ela, claro, se comprometeu a lutar pela causa dos transgêneros.

Apesar de já fazerem parte da cultura do país, cerca de 70% dos  transgêneros  - as "ladyboys" (trans femininas) e os "tomboys" (masculinos) - são direcionados ao universo do entretenimento, o que no contexto tailandês, engloba o mundo da televisão, música, shows em casas noturnas ou no próspero mercado da prostituição.

Apesar de ainda ser uma prática ilegal no país, em Bangkok, é comum o turista ser abordado por funcionários de bares na região de Patpong (Silom) e Soi Cowboy (Nana) oferecendo os famigerados "ping pong shows" - apresentações onde travestis e outras garotas cis atiram bolinhas de suas genitálias.

Exploração e frustração, mas que, às vezes, acaba sendo a única opção para essas meninas. O que a nova ala LGBT no país quer é que o Parlamento legalize a prostituição. Já que, mesmo sendo um destino de turismo sexual, nunca permitiu que os trabalhadores desse setor realizassem suas atividades legalmente. E conheço muitas que gostariam disso.

Trans

Mulher trans faz show em bar na Tailândia
The Strange Bar/Divulgação
Cerca de 70% dos transgêneros na Tailândia trabalham no mercado do entretenimento

Mesmo que 70% dos transgêneros tailandeses estejam inseridos no universo do entretenimento, ainda temos uma parcela bastante grande (30%) com espaço no mercado de trabalho tradicional. Aqui, é muito comum ver "katoeys" (como chamam os trans) em espaços de destaque em grandes empresas, sejam como médicas, arquitetas, advogadas.

Praticamente toda loja de shoppings ou restaurantes têm um ou dois atendentes trans. Infelizmente, por não haver uma lei que regularize isso, alguns desses funcionários ainda são obrigados pelos patrões a utilizar seus nomes de batismo, ao invés dos sociais. Lembro de uma vez que fui em uma loja de conveniência e me espantei ao ver que a atendente tinha um crachá com a foto de quando ela ainda era um garoto, antes da readequação.

Por outro lado, ainda me choca que a própria comunidade gay ainda olha com tanto descaso para os trans. Em um dos meus tours como guia turístico aqui em Bangkok, levei um casal gay brasileiro para um restaurante e eles me pediram para mudar de mesa, porque se chocaram ao ver uma trans nos atendendo. "Isso é normal por aqui?", perguntaram-me.

Tão normal que, há cerca de dois anos, lembro de um shopping que abriu no subúrbio da capital tailandesa e fez uma convocação para vagas destinadas a transgêneros em suas lojas e restaurantes, oferecendo cursos de capacitação e de idiomas estrangeiros. A Tailândia pode não ser perfeita para os trans, mas vem abrindo seus olhos para os seus potenciais.

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Comparando

Reações como essas me fazem pensar o quanto o brasileiro se diz um povo "tão aberto", mas que não respeita as diferenças. Dados do GGB(Grupo Gay da Bahia) comprovam que o Brasil é o país que mais mata transgêneros no mundo. Embora ainda não há pesquisas oficiais sobre a inserção dos trans no mercado de trabalho, sabemos que a situação é muito mais complicada do que em outros países do mundo.

Enfrentando uma crise financeira que parece nunca ter fim e com dezenas de milhões de desempregados, como é que o Brasil conseguiria absorver essa população trans, que - ao contrário das lésbicas e gays cis - estão na linha de frente do preconceito? Pesquisas mostram que a evasão escolar dessa parcela da comunidade é muito maior que as demais.

Segundo a Ordem de Advogados do Brasil (OAB), 82% dos trans não concluem o ensino básico. Quem dirá, conseguir terminar uma universidade? Antes de reclamar que "a rua do seu bairro está repleta de travestis se prostituindo", pare para pensar que foi o próprio sistema que as atirou ali, muitas expulsas de casa pela família e sem acolhimento do estado.

Conversando com muitos amigos trans pelo mundo, comento triste que cresci numa realidade onde as travestis eram pessoas forçadas a serem marginalizadas e excluídas do sistema de forma extremamente violenta, uma vez que não tinham proteção nem para continuar os estudos sem serem vítimas de transfobia  pelos colegas e professores.

 Uma luz

Nesse Dia Internacional do Trabalho, ainda há muito no que se pensar. Lembrar de pesquisas recentes, como a do instituto Center for Talent Inovation, que descobriu que 61% dos LGBTs brasileiros ouvidos escondem sua sexualidade ou gênero no  ambiente de trabalho , que seguem no armário por medo do preconceito. E estamos em 2019, galera!

Lembro de um caso ocorrido no Recife no qual um dentista compartilhava um consultório com outros colegas e acabou sendo vítima de LGBTfobiaquando resolveu contratar uma mulher trans para a vaga de assistente clínica. Isso porque ela ficaria apenas dentro da sala dele. Mas os demais profissionais acharam que essa atitude "afastaria pacientes".

Felizmente, eu venho enxergando um movimento no Brasil, liderado por empresas multinacionais, que replicam políticas estrangeiras para aumentar a presença de grupos minoritários em suas filiais brasileiras. E se engana quem pensa que eles fazem isso só por questões altruístas. O estudo Diversity Matters, da consultoria McKinsey, mostra que companhias com times abertos à diversidade têm resultados 57% melhor que as demais.

Imaginem que em um grupo com cabeças que tenham realidades muito diferentes pode ser muito mais fácil a solução de problemas. Assim como LGBTs em ambiente de trabalho aberto e convidativo podem se tornar muito mais produtivos do que aqueles cuja parte da rotina é destinada a esconder quem são de verdade.

Evento

Nos dias 17 e 18 de maio, o Grupo Dignidade, de Curitiba, promove o Seminário de Empresas: networking, diversidade & inovação. O evento pretende conectar empresas com diferentes setores da sociedade de maneira a desenvolver ambientes de trabalho inclusivos para a comunidade LGBTI+.

Confira a programação:  www.grupodignidade.org.br/seminariodeempresas/

Ajuda

ativista Regina Guimarães com time de futebol trans
Transviver/Divulgação
Projeto Transviver capacita homens e mulheres trans para o mercado de trabalho no Recife

E é nesse caminho, ainda tímido, que devemos seguir. Liderada pela advogada Márcia Rocha, a plataforma Transempregos foi criada em 2014 para a inclusão de profissionais trans no mercado de trabalho. Se no começo o site tinha apenas 12 empresas interessadas em seus serviços, atualmente já são mais de 50.

Acesse a plataforma no  https://web.facebook.com/transempregos

Também há ONGs espalhadas pelo Brasil que tentam buscar cursos de capacitação e mais oportunidades para a comunidade trans. Conheço pessoalmente a ativista Regina Guimarães - uma verdadeira mãe, querida por seus mais de 50 "filhos" - e sei do esforço que ela faz para tocar o projeto TransViver no Recife.

Leia também: 73% dos LGBT brasileiros já testemunharam homofobia no trabalho; veja pesquisa

Conheça no  https://web.facebook.com/projetotransviver

Se vocês conhecem outros projetos semelhantes e que queiram compartilhar, deixem um comentário ou mandem um email para o lgbtudoig@gmail.com. Ko Pun Krap!

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