Tamanho do texto

Nesta semana, a coluna do Pomba traz entrevista exclusiva com o escritor e ativista LGBT João Silvério Trevisan, que lançou seu novo livro "Pai, Pai"

João Silvério Trevisan é talvez o principal escritor assumidamente gay brasileiro. Jornalista, dramaturgo, tradutor, cineasta e um dos pioneiros ativistas LGBT do Brasil. Ex-seminarista , assumiu sua homossexualidade ainda na época da ditadura militar , o que lhe fez mudar-se para a Califórnia, onde acabou se assumindo politicamente. Voltando ao Brasil, foi um dos fundadores do grupo Somos na defesa dos direitos dos homossexuais e sua descriminalização na década de 1970. Também foi um dos editores do pioneiro jornal gay  " Lampião da Esquina" .

Agora João Silvério Trevisan lançou seu 12º livro - " Pai, Pai" - onde expõe e expurga sua conflituosa e também ausente relação com seu pai. Aproveitei a oportunidade e fiz essa entrevista com ele, onde além de conversarmos sobre o novo livro, também revelamos a reedição de sua obra mais famosa " Devassos no Paraíso" (1986).

Leia também:  Parada LGBT 2018 de São Paulo já tem data e tema político sobre eleições

João Silvério Trevisan lança seu novo livro Pai, Pai
Divulgação
João Silvério Trevisan lança seu novo livro Pai, Pai

André Pomba: Obra lançada, passado pouco mais de um mês, como hoje você apresentaria a seus leitores seu novo livro Pai, Pai?
JSTrevisan:  É um livro sobre perdões. Através da conflituada relação com meu pai, repasso minha trajetória desde a adolescência até os dia de hoje, num plano tanto intelectual quanto emocional .

André Pomba: "Meu pai passou trinta anos tentando se matar". Essa frase é repetida várias vezes no final da sequência dos capítulos "Saudade, Dejeto da vida" e "Céus em epifania". Como você explicaria esse misto de emoções contraditórias?
JSTrevisan  : Meu livro foi escrito justamente para examinar tantos sentimentos contraditórios que permearam a relação com meu pai, alguém que me surrava, quando pequeno, e mais tarde foi totalmente ausente em minha vida. O percurso entre a mágoa e o perdão levou várias décadas para acontecer. É essa trajetória até o perdão que o livro disseca.

André Pomba: Em 1970, você fez um filme chamado "Orgia ou O Homem Que Deu Cria" (1970) em que o personagem principal - um adolescente - enforca o pai alcoólatra e foge atormentado pelo culpa. Já era um tipo de acerto de contas? Como você enxergava o filme na época e como você analisaria o jovem Trevisan neste trabalho?
JSTrevisan:  Com Orgia , filme que realizei no final da minha adolescência , eu tentava elaborar a grande perplexidade de ter sido gerado por um estranho. Toda a abordagem ficcional foi o instrumento que encontrei, inconscientemente, para confrontar e dar sentido a essa sombra paterna.

André Pomba:Na novela Amor à Vida, o médico César (Antonio Fagundes) não aceitava a homossexualidade do seu filho Félix (Mateus Solano) e, por isso, o rejeitou a vida toda. Quando este teve um AVC, foi o filho gay rejeitado que o ajudou a se recuperar e só então reconciliaram. Você traçaria algum paralelo entre essa ficção e ocorrido entre você e seu pai?
JSTrevisan:  Essas histórias de reconciliações tardias são bastante recorrentes entre homossexuais, tanto masculinos quanto femininas, que o pai rejeitou. Eu e meu pai sequer chegamos a conversar sobre minhas escolhas sexuais , tanto quanto ele nunca se interessou em saber sobre qualquer aspecto da minha vida. Antes da sua morte, as circunstâncias da vida me obrigaram a estar presente. São coisas que a vida faz para nos forçar a encarar algo incômodo. Eu não podia deixar a figura paterna apodrecendo dentro de mim.

Leia também: Governo de São Paulo comemora o Dia Internacional dos Direitos Humanos

André Pomba: O que você poderia nos adiantar sobre a reedição de sua obra mais famosa, "Devassos no Paraíso", que virá revista e ampliada?
JSTrevisan: A nova edição de Devassos no Paraíso , a sair em junho de 2018 pela editora Alfaguara, terá vários capítulos novos, visando atualizar a edição publicada em 2000. Vou inserir desde novas histórias de estrangeiros que se confrontaram com sua homossexualidade no Brasil até as novas frentes na luta pelos direitos LGBT , como identidade de gênero , homofobia da bancada religiosa no Congresso Nacional , leis aprovadas ou em processo e as interferências do judiciário para corrigir a omissão dos nossos políticos. Também haverá novas ilustrações, no mesmo sentido de atualizar informações.

Você não pode deixar de ler " Pai, Pai" , o novo livro de João Silvério Trevisan . E para saber mais dicas de cultura, acompanhe a  coluna do Pomba aqui no iGay  .

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.