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Após uma parceira realizar a fertilização in vitro, a outra decidiu fazer um tratamento para que as duas pudessem amamentar, sem exclusividade

A mediadora cultura Marcela Tiboni, de 36 anos, e a produtora Melanie Zuccherina, de 29, acabam de se tornar mães dos bebês gêmeos Bernardo e Iolanda. O nascimento aconteceu na sexta-feira (5), e, logo em seguida, os filhos já foram amamentados pelas duas. Mas tudo isso só foi possível por causa de um longo tratamento realizado pelo casal lésbico. 

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Melanie (à esquerda) abraça os bebês tão esperados pelo casal lésbico, e Marcela (à direita) usa as bombas para tirar leite
Arquivo pessoal
Melanie (à esquerda) abraça os bebês tão esperados pelo casal lésbico, e Marcela (à direita) usa as bombas para tirar leite


“Brinco que a nossa gravidez demorou um ano e sete meses, desde a primeira consulta até o parto”, comenta Marcela, em entrevista ao iGay, sobre todo o processo realizado em uma clínica de caráter social em Santo André. O casal lésbico optou por engravidar através da fertilização in vitro, e a mãe que carregou os bebês em sua barriga foi Melanie.

Com o tempo e o sucesso no tratamento, o casal lésbico conseguiu até armazenar leite materno
Arquivo pessoal
Com o tempo e o sucesso no tratamento, o casal lésbico conseguiu até armazenar leite materno

De acordo com a mediadora cultural, as duas obtiveram a ajuda de diversas profissionais para que tudo corresse bem. “Ficava preocupada com a Mel, se ela sofreria sendo exclusiva na amamentação , se teria problemas com relação à privação de sono, alimentação e higiene”, conta. No quarto mês da gestação de Melanie, Marcela percebeu que tinha a vontade de amamentar os filhos, assim como a parceira.

Como um casal formado por duas pessoas do mesmo sexo, elas nunca dividiram as responsabilidades de forma sexista e, por isso, decidiram dar esse passo e também buscar auxílio para dividir a responsabilidade da amamentação.

Marcela, então, conversou com uma consultora de amamentação e descobriu que isso era possível. Ela começou a tomar duas medicações por dia e, após três meses de tratamento, começou a usar a bomba de tirar leite, de três a cinco vezes por dia. Com o tempo, cada vez mais leite era produzido, e foi possível anunciar o sucesso do protocolo.

A recompensa veio logo após o nascimento de Bernardo e Iolanda. Ambas as mães amamentaram os pequenos nas primeiras horas de vida deles. “O parto foi tranquilo. Eles nasceram, foram imediatamente para o colo da Mel e, depois de alguns minutos, para o meu colo também. Vieram colocando a boca e a língua como se já soubessem que dali sairia leite”, detalha Marcela. 

A história do casal lésbico

As duas têm uma história de amor de cerca de quatro anos, mas só no ano passado que o casal lésbico decidiu ter filhos
Arquivo pessoal
As duas têm uma história de amor de cerca de quatro anos, mas só no ano passado que o casal lésbico decidiu ter filhos


Marcela e Melanie se conheceram em 2013, estudando juntas em uma pós-graduação. No final do ano, elas começaram a ficar mais próximas, mas foi só em novembro do ano seguinte que elas oficializaram o namoro.

“Desde então, foi tudo bem rápido”, explica Marcela. Em fevereiro de 2015 já começaram a morar juntas. A mediadora cultural recorda que a parceira costumava, em um momento descontraído, fazer três perguntas: se ela queria casar, ter um cachorro e ter filhos. “Eu sempre ria e respondia que sim”, comenta.

“Um dia acordei e perguntei se ela só seria feliz quando aquelas três perguntas fossem realmente concretizadas. Ela me respondeu: ‘Sim e não. Sim, pois ter as três coisas me deixaria completa e realizada, e não, pois já sou feliz com você”, conta. Assim, ter filhos sempre esteve na lista de planos do casal lésbico.


Marcela fala que foram dando um passo de cada vez e que a adoção de um cachorro foi fundamental para elas. “Foi um teste de cuidadora, de afeto. A gente se testou como um casal, que tinha responsabilidades e precisava cuidar de um ‘terceiro elemento’”, conta.

Com o tempo, as duas começaram a conversar sobre ter filhos. No início, Marcela tinha a vontade de engravidar, mas, logo quando soube que a parceira também tinha a vontade de carregar os filhos na barriga, decidiu abrir mão imediatamente da gravidez. “A partir de então, eu nunca mais tive desejo ou vontade de ter a gestação de um filho na minha barriga”, explica.

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Qual é a hora certa para ter filhos e como fazer isso?

O casal lésbico teve dúvidas sobre qual seria a hora certa para ter filho, e acabaram sentindo que era o momento em 2017
Arquivo pessoal
O casal lésbico teve dúvidas sobre qual seria a hora certa para ter filho, e acabaram sentindo que era o momento em 2017


No final de 2016, elas começaram a conversar mais seriamente sobre ter filhos e ficaram com a dúvida de qual seria o momento certo. “Não sabíamos se era preciso ter estabilidade financeira, emocional ou alguma rede de contato”, relata Marcela.

Em 2017, elas sentiram que o momento estava chegando e, então, procuraram mais informações na internet. Elas não tinham conhecimento sobre clínicas, médicos e procedimentos e acabaram obtendo ajuda e indicações de conhecidos nas redes sociais. “Escolhemos uma clínica de caráter social em Santo André.”

De acordo com a mãe, o casal optou por comprar sêmen da própria clínica. “Escolhemos três opções e pedimos para não sermos informadas qual era a opção escolhida. Pensamos que nossos filhos não vão ter pai, apenas duas mães, por isso não é necessário ter informações sobre ele”, afirma Marcela.

Dos seis óvulos fecundados in vitro, só dois embriões sobreviveram e foram introduzidos no útero de Melanie. Os médicos diziam que não havia chance de nascerem gêmeos, o que deixou as duas surpresas. “Choramos, ficamos felizes e também um pouco baqueadas, pois não imaginávamos”, conta. “Mas, desde aquele dia, nunca mais nos imaginamos com um filho só.”

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O preconceito e o lado bom de tudo

Lutando contra o preconceito, o casal lésbico afirma que tiveram, em geral, experiências positivas relacionadas à gravidez
Arquivo pessoal
Lutando contra o preconceito, o casal lésbico afirma que tiveram, em geral, experiências positivas relacionadas à gravidez


“Nosso maior medo com relação à clínica era o preconceito. Chegamos com receio de que houvesse um estranhamento, mas fomos muito bem recebidas e tratadas ao longo de todo o processo”, diz Marcela.

Os bebês gêmeos mamaram logo após o parto. Casal lésbico comemora sucesso no tratamento e nova etapa, agora com Bernardo e Iolanda
Arquivo pessoal
Os bebês gêmeos mamaram logo após o parto. Casal lésbico comemora sucesso no tratamento e nova etapa, agora com Bernardo e Iolanda

Ela conta que viveu poucas situações de preconceito por causa da gravidez. De acordo com ela, o preconceito veio em maior parte da classe médica, principalmente quando falava sobre compartilhar a amamentação com a parceira.

“A resposta dos profissionais era sempre a mesma: ‘A Medicina não apoia a amamentação cruzada’. Sempre respondia dizendo que não vou amamentar o bebê de outra mulher, vou amamentar meus filhos”, relata.

Em geral, Marcela e Melanie tiveram gratas surpresas ao contarem que esperavam os bebês. “Quando falávamos que estávamos grávidas, fomos muito acolhidas pelas pessoas”, diz. Além disso, as famílias das duas deram o maior apoio e estavam na maior ansiedade pela chegada dos gêmeos. “Estão muito encantados e feliz.”

Todos passam bem, e os bebês já estão em casa, aproveitando todos os momentos, inclusive a amamentação compartilhada entre as mães. “Às vezes a gente chora, outras a gente sorri, mas estamos vivendo isso juntas”, resume Marcela sobre a história do casal lésbico .

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