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"Bissexuais são vistos como algo que 'não existe de verdade'", diz Clarice França, influenciadora bissexual, que contesta a invisibilidade da letra "B"

O dia 23 de setembro marca o Dia da Visibilidade Bissexual, ou o Dia da Celebração Bissexual. A data foi determinada por três ativistas norte-americanos e tem a intenção de chamar atenção ao tópico do preconceito e da marginalização dos bissexuais dentro da própria comunidade LGBT .

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O dia 23 de setembro é uma data marcada por ativistas norte-americanos como o Dia da Visibilidade Bissexual
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O dia 23 de setembro é uma data marcada por ativistas norte-americanos como o Dia da Visibilidade Bissexual


Em entrevista ao iGay , Clarice França, influenciadora bissexual do canal “Nebulla” no YouTube, explica os motivos pelos quais é importante lembrar do Dia da Visibilidade Bissexual . “Bissexuais são vistos como algo que ‘não existe de verdade’. As pessoas acham que ou você gosta de homem ou de mulher e acabam ignorando não só os bissexuais, mas também os outros gêneros que existem além dos dois”, afirma.

De acordo com ela, o preconceito contra bissexuais se manifesta de várias formas. “Ao contrário do que alguns pensam, preconceito não é só bater em alguém na rua, apesar de agressões físicas acontecerem, sim, inclusive na forma de estupro corretivo”, diz. “Agressão também é não ser aceito dentro de casa, pela própria família, é ter sua sexualidade vista como uma fase, algo que vai passar.”

Clarice acrescenta que os bissexuais são hipersexualizados, vistos como pessoas promíscuas, indecisas e até chamados de “vetores de ISTs”. Quando se trata de namoro monogâmico, eles são tidos como infiéis, diante da ideia de que nunca estarão “satisfeitos” com apenas um dos gêneros.

Com relação à bissexualidade feminina, a influenciadora define que a mulher bissexual é vista como um fetiche. “Mulheres em geral já são hipersexualizadas, mas a bissexual tem essa carga de ‘promiscuidade’”, explica. Assim, o fato de sentirem atração por ambos os sexos colabora para que tanto homens heterossexuais quanto mulheres lésbicas tenham possivelmente uma noção errada do envolvimento sexual e emocional com mulheres bissexuais.

Em se tratando de bissexualidade masculina, o problema já é outro. Stephan Martins, dono do canal “Ordem do Dado”, fala que sofre com a ideia inadequada de que homens bissexuais não são “homens o suficiente” nem para se comprometer com mulheres e nem para se assumir homossexual. “Nós quebramos o molde da masculinidade, podemos ser afeminados, masculinos, podemos ser o que quisermos”, contesta.

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Falar sobre se assumir é importante no Dia da Visibilidade Bissexual

Clarice França (à esquerda) e Stephan Martins (à direita) são influenciadores LGBT que falam sobre visibilidade bissexual
Reprodução/Youtube
Clarice França (à esquerda) e Stephan Martins (à direita) são influenciadores LGBT que falam sobre visibilidade bissexual


O processo de entender e assumir a sexualidade é ainda mais complicado para bissexuais, exatamente por causa do senso comum de que “ou você gosta de homem ou de mulher”. Clarice conta que começou a se perguntar sobre sua sexualidade aos 17 anos, mas só dois anos depois entendeu que era bissexual.

“Foi complicado, porque eu tinha aquele mito na cabeça de que você só pode se declarar bissexual se já tiver ficado com mais de um gênero na vida, o que é uma grande mentira”, afirma. “Eu fui me assumindo aos poucos, só esse ano que eu assumi para todo mundo.”

Para ela, a falta de representatividade e visibilidade bissexual acaba influenciando na hora de se assumir. A influenciadora conta que precisou explicar diversas vezes o que era sua sexualidade e que algumas pessoas tinham interpretações erradas. “Talvez, se a mídia apresentasse mais personagens bissexuais, isso não acontecesse”, comenta.

Já para Martins, o processo foi extremamente difícil. “Passei quatro anos da minha vida sem entender o que acontecia comigo, me forçando a sentir atração apenas por mulheres. Eu gostava de meninas, mas nunca era pleno. Vivia períodos em que sentia atração por homens e achava que era gay”, conta sobre a confusão de se entender bissexual.

Ele só foi entender sua sexualidade aos 24 anos, quando participou de uma roda de conversa em que vários homens falaram abertamente sobre serem bissexuais. “Para mim, foi essencial ver essa liberdade em ser bissexual”, relata.

O influenciador conta que decidiu se assumir em 2016, após as notícias do tiroteio da boate Pulse, em Orlando, nos Estados Unidos. “Senti que precisava falar e gravei um vídeo”, diz. Ele acrescenta que a reação das pessoas não foi tão boa justamente por causa da escassez de informações sobre bissexualidade.

Martins também explica que essa invisibilidade se deve em partes à terminologia utilizada. Ele conta que antigamente os termos “gay” e “lésbica” eram utilizados para qualquer pessoa que mantinha relações sexuais com uma pessoa do mesmo gênero, fosse homossexual ou bissexual. “O primeiro registro de fato da bissexualidade como luta surge nos anos 90, através do manifesto bissexual.”

O que é preciso para melhorar a visibilidade bissexual?

Freddie Mercury (esquerda) e David Bowie (direita) são exemplos do porquê é preciso melhorar a visibilidade bissexual
Reprodução/Imdb/Shutterstock
Freddie Mercury (esquerda) e David Bowie (direita) são exemplos do porquê é preciso melhorar a visibilidade bissexual


Clarice diz que a visibilidade bissexual sempre foi muito pouca e que isso afeta os próprios bissexuais, que não se identificam com o que é apresentado. “Hoje nós falamos mais sobre isso, mas ainda está longe de ser considerada uma representação justa e igualitária.”

Reforçando seu argumento, Martins pontua alguns ícones bissexuais antigos, como Freddie Mercury, David Bowie e Renato Russo, que eram “apagados” e julgados como homens gays. “Precisamos ser tratados como pessoas”, afirma sobre um dos pontos que precisa melhorar com relação à visibilidade bissexual.

“Nós somos invalidados, por exemplo, quando temos um relacionamento com uma pessoa do gênero oposto. Se eu, que sou casado com uma mulher, não falar que sou bissexual, a minha bissexualidade vai deixar de existir. E, se ninguém lembrar da gente, a gente vai cair no esquecimento”, afirma.

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Para denotar o impacto desse “esquecimento”, a influenciadora Clarice pontua os números relacionados à saúde mental dos bissexuais. Segundo um estudo publicado em 2015 na revista científica “Journal of Public Health”, as mulheres bissexuais, quando comparadas às mulheres lésbicas, têm 64% mais chance de enfrentar distúrbio alimentar e 37% mais chance de se automutilar.

Para ela, o que precisa ser feito para melhorar a visibilidade bissexual é um trabalho de conscientização. “Primeiro, as pessoas precisam entender que pessoas bissexuais existem, que não é uma fase e é tão válida quanto qualquer outra sexualidade. A partir disso, é preciso começar a quebrar os estereótipos, pontuar casos de preconceito como bifobia e deixar de apagar os bissexuais”, finaliza.

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