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"Drag é arte e qualquer pessoa pode fazer, independentemente de gênero, idade e cor", afirma o drag king Don Valentim sobre a arte que está se popularizando na comunidade LGBT e ganhando reconhecimento da mídia

Conquistando cada vez mais espaço na mídia, as drag queens levantam questionamentos e quebram padrões. Em sua maioria sendo homens “vestidos de mulheres”, os artistas da comunidade LGBT trazem outra visão para a discussão sobre o que é gênero . Mas, para entender essa discussão, é preciso entender primeiro o que é drag .

Drag queens e kings contam sua história de vida ao iGay e também explicam como a arte está se popularizando
Reprodução/Instagram/The Drag Series/Fernando Cysneiros
Drag queens e kings contam sua história de vida ao iGay e também explicam como a arte está se popularizando


Drag é a arte de ser livre, ser quem você quiser. É assumir um personagem, assumir outro gênero — ou não necessariamente —, em busca de representar uma arte com a qual você se identifica. É assim que Divina Raio-Laser, uma das drag queens mais conhecidas no cenário atual, define a arte drag. Durante o dia, Divina atende pelo nome Yheuriet Kalil, publicitário, ator e palestrante.

A história do personagem de Kalil, além de curiosa, é uma exceção à maioria. O ator conta que a Divina surgiu como um papel da peça de teatro “Babel Genet”. Interpretando-a, ele se identificou e nunca mais deixou de ser divina. “Eu digo que o normal da drag é ir da rua para o palco, mas para mim foi justamente o contrário. Fui do palco para a rua, vivi o personagem e depois o levei pra noite”, diz.

Sendo uma exceção, o exemplo do publicitário mostra que não há regras para o fazer drag. Também em entrevista ao iGay , Lorelay Fox, drag queen mais conhecida por seu canal no YouTube “Para Tudo” e por fazer parte da bancada de jurados no programa “Superbonita” do canal “GNT”, reforça essa ideia. Para Lorelay, também conhecida como Danilo Dabague, drag é uma desconstrução.

“Não tem regra, não precisa ser um homem maquiado”, afirma. De acordo com a influenciadora digital, um homem estar “vestido de mulher” não faz uma drag, e, sim, o encantamento causado nas pessoas. “Pode ser personagem andrógino, masculino. A estética não tem regra mesmo.”

A princípio, a palavra drag foi originada pelo poeta William Shakespeare, sendo uma sigla para a expressão em inglês “dressed as girl” (“vestido como garota”, em tradução livre). No entanto, a arte drag expandiu-se e popularizou-se atualmente, e qualquer pessoa é livre para interpretar o personagem que quiser.

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A diversidade do cenário das drag queens

Don Valentim (à esquerda) e Samantha Banks (à direita) são exemplos de como o cenário de drag queens e kings é diverso
Reprodução/Instagram
Don Valentim (à esquerda) e Samantha Banks (à direita) são exemplos de como o cenário de drag queens e kings é diverso


De acordo com Divina Raio-Laser, estamos vivendo uma época muito suscetível à arte drag. Com tutoriais de maquiagem no YouTube, qualquer um pode experimentar e tentar fazer sua própria montação. Mas a diversidade do cenário drag surgiu há tempos, muito antes do YouTube.

Para quem ainda não sabe, drag não se reduz apenas a drag queens. Uma parte relevante, que não recebe atenção da mídia, são os drag kings. Don Valentim, drag king, explica que ser king é uma expressão artística, assim como ser queen. No entanto, os kings não recebem a mesma atenção que elas.

Drag é arte, e qualquer pessoa pode fazer, independentemente de gênero, idade e cor. ”

“É muito raro você ver algum drag king entre as drag queens. Drag kings não estão na mídia, acho que as pessoas que não estão no meio drag nem sabem que eles existem”, afirma.

Quando começou a fazer drag, Don tinha um estilo mais circense, mas sente que seus gostos foram ficando mais fluidos. Para ele, uma das partes mais importantes de ser drag king são os questionamentos, os provocamentos dessa arte no espectador, uma forma de gerar discussão.

Como mulher, por trás de seu alter ego, Iara de Valentim comenta que mulheres fazendo drag são uma forma de discussão, já que é um tabu até mesmo dentro da própria comunidade — principalmente as que são drag queens. “Fico feliz de ver que a arte drag está se popularizando entre as mulheres”, diz.

Outro aspecto a ser levado em consideração quando se trata de diversidade no cenário drag é o de raça. Samantha Banks, uma drag queen negra, afirma que a relação da própria comunidade LGBT com as artistas negras é quase inexistente, já que faltam oportunidades de representação e de ocupação dos espaços.

“Entre as dificuldades enfrentadas por drag queens negras está a falta de aceitação do público”, afirma. Segundo Samantha, elas vivem um estigma idêntico ao que qualquer negro vive na sociedade, ou seja, acabam sendo estereotipadas.

“É muito raro ver admiração do público por uma drag negra polida e bonita”, explica. Ela comenta que essa realidade é um reflexo da construção eurocêntrica de beleza. “A maior dificuldade é realmente o público, que ainda é muito preconceituoso.”

Falando mais sobre o cenário, Samantha, que define drag como uma arte libertadora, nomeia suas principais inspirações. Autodefinida como “black diva” (“diva negra”, em tradução livre) e com um estilo colorido, ela se inspira em cantoras como Alcione, Aretha Franklin e Beyoncé, mas também em outras drags icônicas e propulsoras, como Silvetty Montilla e Rupaul.

A popularização de drag queens

As drag queens estão se popularizando e ganhando cada vez mais reconhecimento da mídia e das redes sociais
Divulgação
As drag queens estão se popularizando e ganhando cada vez mais reconhecimento da mídia e das redes sociais


Quem tem um conhecimento minimamente aprofundado da arte drag conhece a norte-americana Rupaul Charles, talvez a drag queen mais famosa e aclamada ao redor do mundo. Sempre na mídia, Rupaul tem uma carreira musical consolidada e também seu próprio reality show de drag queens, programa conhecido internacionalmente.

De acordo com Lorelay Fox, a drag queen americana foi fundamental para que mais pessoas entendessem o que é essa arte. “Você começa a gostar de uma arte quando tem repertório dela. Com Rupaul, as pessoas entenderam o conceito”, afirma.

Essa análise vale tanto para pessoas fora do meio como também — e principalmente — pessoas da própria comunidade LGBT. “A gente não sofre hoje as agressões que sofríamos antes”, comenta Lorelay, sobre o processo de “validação” da arte.

Com seu canal no YouTube, Lorelay Fox é uma das drag queens brasileiras mais conhecidas
Fernando Cysneiros/The Drag Series
Com seu canal no YouTube, Lorelay Fox é uma das drag queens brasileiras mais conhecidas

Ela conta que, quando começou a fazer drag, tinha que ficar escondida em Sorocaba, sua cidade natal. “O pessoal xingava e atirava ovo na gente”, relata. Lorelay fez a primeira montação após ser convencida por um amigo, que também queria fazer. Começou e nunca parou. Hoje, com seu canal no YouTube e uma boa visibilidade na mídia, considera-se uma “drag comunicadora”.

“Vi a necessidade de comunicar temas relevantes, como aceitação e preconceito, e meu canal ganhou a vertente de empoderamento LGBT”, descreve. Para ela, algumas das partes delicadas de ser criadora de conteúdo é ter responsabilidade e saber que é referência em uma época na qual as drags estão ganhando visibilidade em diversas mídias e também nas redes sociais.

“O público de fora da comunidade, que só conhece a Pabllo [Vittar], estão começando a ter referências novas. Estão adquirindo repertório e começando a perceber que as drags não são só aquelas engraçadas que aparecem na televisão”, diz. Um exemplo disso é o reality show brasileiro “Drag Me As a Queen”, do canal “E!”, que conta com as apresentadoras Ikaro Kadoshi, Rita Von Hunty e Penelopy Jean.

A própria Samantha Banks é outro exemplo dessa realidade, já tendo participado de um seriado norte-americano. Ela fez parte do elenco de “Sense8” nas gravações que aconteceram em São Paulo, durante a Parada do Orgulho LGBT. “Acho que a arte está só começando a fazer parte da cultura, ainda há muito a ser explorado”, comenta.

Lorelay acrescenta que as pessoas estão entendendo que "drag é arte mesmo". "E é uma expressão pela qual podemos comunicar o que quisermos. Drag é um alto-falante para mim e para muitas outras. É uma plataforma artística para levantar a voz.”

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“Call Me Mother”: a influência de Rupaul para as drag queens

Uma das drag queens mais conhecidas ao redor do mundo, Rupaul teve grande influência na cena drag pelo mundo
Divulgação/Imdb/Rupaul's Drag Race
Uma das drag queens mais conhecidas ao redor do mundo, Rupaul teve grande influência na cena drag pelo mundo


Não é à toa que Rupaul tem uma música intitulada “Call Me Mother” (“me chame de mãe”, em tradução livre), fazendo referência a todas as drags que já aprenderam com ela e que a consideram uma mãe drag. Mais de 100 drag queens já passaram por seu programa, concorrendo pela coroa e um prêmio em dinheiro, além de todo o reconhecimento.

Mostrando todo o glamour das roupas e maquiagens, mas também o lado humano e as histórias de vida das participantes, o programa tornou-se popular. Deixou de exibir na emissora “Logo” e ganhou espaço na programação da “VH1”, que tem um público mais amplo.

“A drag saiu da periferia, dos clubes noturnos, e foi para vários outros lugares, como a televisão”, explica Divina Raio-Laser. A brasileira já fez parte de uma campanha de beleza e também é uma drag palestrante, discutindo sobre assuntos como diversidade e identidade de gênero em ambientes empresariais.

Norte-aemricana Rupaul espalhou a mensagem de empoderamento para drag queens pelo mundo
Divulgação/Imdb/Rupaul's Drag Race
Norte-aemricana Rupaul espalhou a mensagem de empoderamento para drag queens pelo mundo

Parte dessas conquistas é atribuída à mensagem de empoderamento do programa de Rupaul, que se disseminou pelo Brasil. No entanto, é preciso relembrar a cultura drag brasileira diante da enorme influência norte-americana.

“Rupaul ajudou o meio LGBT a desconstruir, só que, ao mesmo tempo, colocou um padrão nas drags brasileiras, um padrão que é norte-americano”, analisa Lorelay Fox.

A drag comunicadora conta que drags com estilo feminino já existiam no Brasil antes de Rupaul, mas, depois, elas emplacaram. Segundo ela, muitas drag queens acabam se inspirando e querendo ser como aquelas que passam pelo reality show, mas Lorelay acredita que os elementos da cultura drag brasileira devem ser preservados.

Um elemento muito marcante no cenário drag brasileiro é o bate-cabelo, mas Lorelay conta que drags mais novas não se interessam mais pela prática. “As próprias drags têm preconceito. Tenho medo de que essa cultura se perca, pois faz parte da nossa história”, revela.

Concordando e acrescentando à discussão, o drag king Don Valentim define: “Gostar da arte drag é muito diferente de ser fã de Rupaul”. Ou seja, acompanhar e gostar do estilo das participantes é diferente de conhecer e apoiar a cena drag local.

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A arte das drag queens mudou com o passar dos anos?

Em
Reprodução/Youtube
Em "Ninguém Segura", as drag queens Dolly Piercing (à esquerda) e Paulette Pink (à direita) seguem carreira musical


Todas essas mudanças foram possíveis por causa das drags que, no passado, não tiveram medo de se montar e enfrentar o preconceito. É o caso de Paulette Pink , que tem décadas de carreira como drag queen. “Hoje podemos ver a arte drag se popularizar por causa dos drag queens que, com o humor, conseguiram quebrar o estigma ao longo dos anos”, afirma.

Paulette acredita que ainda hoje existe um preconceito velado, principalmente com relação a mulheres e travestis fazendo drag. Sua amiga Dolly Piercing, também drag há anos, concorda com a análise. “O preconceito ainda existe. Não posso ir montada a certos lugares”, conta Dolly.

De acordo com elas, a primeira geração de drag no Brasil chamavam-se de transformistas, com a caracterização de celebridades — que é o caso de Paulette, imitadora da cantora Cher. Ainda existiam as “clubbers”, que performavam em clubes e boates, e, depois, chegou o nome drag queen.

Assim, foram ganhando mais visibilidade, principalmente na televisão, o que vale a pena ser reconhecido. Ambas concordam que há a valorização da arte em geral, com várias possibilidades de caminhos para cada artista seguir. Nesse contexto, foi possível que elas, assim como Pabllo Vittar, Gloria Groove, Aretuza Lovi e muitas outras, seguissem uma carreira musical.

Qual é a mensagem para drag queens iniciantes?

Com um concurso de drag queens, Divina Raio-Laser deixa a mensagem de motivação para as artistas começando
Reprodução/Instagram
Com um concurso de drag queens, Divina Raio-Laser deixa a mensagem de motivação para as artistas começando


A mensagem de Divina Raio-Laser, que apresenta e dirige um concurso de drag queens iniciantes, é: não tenha medo e se divirta. Ela conta que gosta de usar barba vez ou outra em suas montações, mas que não deixa de ser polida, que gosta de falar besteira, mas gosta de distribuir amor, já que tem uma figura de mãe drag em seu concurso “Drag Combat”.

“Eu falo que o sonho da Divina era ter útero, mas, como não tem, criou um concurso para ser mãe drag de diversas drags”, afirma. Ela ainda faz questão de motivar quem está começando. “Estamos vivendo a época mais fácil de se tornar uma drag, podemos fazer o que quisermos”, diz.

Segundo Divina, uma dica é começar a aprimorar as técnicas de maquiagem, com tutoriais no YouTube, e também ir para “a noite”, mostrar a cara, performar e divulgar a mensagem de respeito.

“Se você quer levar como profissão, precisa ter seriedade. Exige trabalho, treino e dedicação. Se você quer ser drag, tem que saber a história das que vieram antes e tentar aprender com todo mundo”, acrescenta Lorelay Fox. Ela reforça que é importante treinar maquiagem e dublagem, assim como ter um repertório artístico para refinar o estilo. “ Drag queens existem para encantar o público”, finaliza.

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