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"Quanto mais visível a gente for, mais difícil será de as pessoas ignorarem as nossas pautas", diz Fernanda Soares, do "Canal das Bee", sobre visibilidade

dia 29 de agosto marca o Dia da Visibilidade Lésbica, data estabelecida no Brasil por ativistas em homenagem ao 1° Seminário Nacional de Lésbicas e Bissexuais (Senale), que ocorreu no mesmo dia em 1996. Em uma sociedade heteronormativa, a data é importante para lembrar os questionamentos e reivindicações específicas do grupo.

O dia 29 de agosto marca o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, estabelecida por ativistas em homenagem ao 1° Senale
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O dia 29 de agosto marca o Dia Nacional da Visibilidade Lésbica, estabelecida por ativistas em homenagem ao 1° Senale


“Lembrar do Dia da Visibilidade Lésbica é importante em todos os anos, meses e dias. Quanto mais visível a gente for, mais difícil será de as pessoas ignorarem as nossas pautas e as nossas vivências”, afirma Fernanda Soares, mulher lésbica e integrante do “Canal das Bee”, canal no YouTube que aborda diversos temas relacionados à comunidade LGBT .

A influenciadora acredita que abordar essa questão se torna ainda mais essencial em 2018, ano de eleições. “Estamos procurando candidatos e candidatas que estejam do nosso lado, seja como aliado ou como LGBT”, define.

A professora e jornalista Candida Almeida, que também é lésbica, alerta ainda para a necessidade de mudança no cenário político. “Com o Congresso que temos hoje, precisamos urgentemente de um número maior de políticos que não tenham preconceito e que possam levar adiante nossos direitos.”

De acordo com Candida, é muito triste precisar de um aval de um juiz para casar com uma pessoa do mesmo sexo ou precisar de um aval para registrar o filho no nome de duas mulheres. “Quando a gente pensa no Dia da Visibilidade Lésbica, o importante é discutir nossos direitos e nossas representações”, diz.

Para a professora, a diversidade precisa ser entendida como algo natural, mas, enquanto não é vista dessa forma por todo mundo, é necessário “mostrar a cara” e ter representação na mídia. Ela explica que essa representação acaba servindo também de exemplo para jovens que estão se descobrindo.

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Se assumir também é pauta do Dia da Visibilidade Lésbica

Fernanda (à esquerda) e Candida (à direita) afirmam que não havia visibilidade lésbica quando se assumiram
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Fernanda (à esquerda) e Candida (à direita) afirmam que não havia visibilidade lésbica quando se assumiram


O processo de Fernanda de assumir sua orientação sexual foi mais demorado. Ela conta que tinha 25 anos e ainda estava esperando um “príncipe encantado”, mesmo nunca tendo se interessado por homens. “Uma amiga minha perguntou: ‘Será que você não está procurando no lugar errado?’ Foi então que me abri para a possibilidade de ficar com uma mulher, e, quando aconteceu o primeiro beijo, tudo fez sentido”, explica.

A influenciadora revela que já conhecia mulheres lésbicas na época, então a aceitação foi fácil para ela mesma e no círculo de amigos. No entanto, ela só conseguiu se assumir um ano depois para a família e esclarece o motivo disso: “A falta de representatividade na minha adolescência fez com que esse assunto nunca fosse pauta dentro de casa”.

“Hoje, a realidade é um pouco melhor, com celebridades saindo do armário. Assim, família e amigos heterossexuais começam a ter uma visão mais ampla sobre o que é ser LGBT”, explica e evidencia por que é necessário tratar sobre representatividade e visibilidade lésbica.

A história de Candida é semelhante em diversos aspectos. Ela nasceu nos anos 80 e foi viver e experimentar sua sexualidade nos anos 90. Na época, ainda não havia internet e muito menos uma verdadeira referência midiática para a comunidade lésbica. “Não tinha onde pesquisar, tudo era muito velado, as pessoas não se manifestavam publicamente”, conta. “Para uma adolescente, era muito difícil esse acesso à informação.”

A professora diz que sempre entendeu sua sexualidade de forma muito natural, apesar de toda a pressão da sociedade. Ela revela que chegou a se forçar a ficar com homens, “em situações constrangedoras”, para tentar se encaixar em um padrão.

“Nunca me abri totalmente na adolescência, por não querer arriscar aquilo que estava sentindo e, ao mesmo tempo, por tratar a sexualidade de forma natural”, explica. Candida, então, optava por “plantar a semente” na cabeça de amigos e familiares e se posicionar aos poucos, argumentando a favor da diversidade.

Assim, nas poucas em que o assunto aparecia na televisão, por exemplo, ela se posicionava. Para ela, mais do que representatividade de um todo, trata-se da representatividade de um indivíduo. “O que eu represento a mim mesma? O que represento para o mundo?”, questiona.

De acordo com ela, antigamente era mais difícil encontrar representações de mulheres lésbicas, e hoje é possível ver a questão ser discutida por um público mais amplo, seja em novelas televisivas ou nas redes sociais.

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Qual é a importância da visibilidade lésbica?

Uma polêmica recente tratando sobre visibilidade lésbica foi o caso da atriz Ruby Rose, no papel de Batwoman
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Uma polêmica recente tratando sobre visibilidade lésbica foi o caso da atriz Ruby Rose, no papel de Batwoman


Uma polêmica recente, tratando indiretamente a questão da visibilidade lésbica, foi o caso de Ruby Rose, escalada para interpretar a super-heroína lésbica Batwoman. Diante da má repercussão, com usuários afirmando que ela não é lésbica, a atriz acabou deletando sua conta no Twitter, revelando “ser assumida desde os 12 anos de idade”.

A discussão trouxe à tona a questão dos estereótipos definidos para lésbicas, e tanto Fernanda quanto Candida concordam que não deveria existir tal estereótipo. “Ela vai ser uma das primeiras heroínas lésbicas, e acho incrível estar vivendo num momento em que teremos uma personagem sapatão. Acho que isso traz visibilidade, sim”, afirma Fernanda sobre a discussão.

Segundo ambas, outra questão que incomoda e precisa ser abordado na discussão é o machismo. “O machismo afeta todas as relações de quem vive dentro de uma sociedade patriarcal, seja fora ou dentro da comunidade LGBT, desde lésbicas misóginas que assumem o ‘papel do homem’ até gays misóginos que passam por cima das pautas das mulheres”, comenta Fernanda.

Elas pontuam também a questão da sexualização das lésbicas, que pode ser vista principalmente em filmes pornográfico. “Muitas cenas de sexo lésbico são dirigidas e produzidas para homens heterossexuais”, diz Fernanda.

“Nós, lésbicas, sofremos pela ideia do fetiche, nós somos objeto de desejos dos homens. É triste pensar que nós servimos aos desejos deles. Cansei de ganhar cantada de amigos, propostas indescritíveis e, no mínimo, nojentas, que revelam o machismo”, afirma Candida.

Mas a professora ressalta que a relação entre duas mulheres é beneficial para elas e é muito mais relevante do que qualquer sentimento masculino. “Estar com outra mulher dá a oportunidade de nos conhecermos muito mais, de conhecer nosso corpo. Corpo esse que é tão determinado pelo entendimento do homem”, explica. “Para mim, ser lésbica é ser humana", finaliza, deixando a mensagem para o Dia da Visibilidade Lésbica .

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