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Após engravidar e amamentar sua filha, Cézar Sant'anna realizou a transição de gênero e, com sua história, é uma inspiração para pais cis e transgênero

O Dia dos Pais é uma data importante para relembrar os homens que fizeram parte da criação e do crescimento de um indivíduo. Seja pai, avô ou tio, seja homem cis ou homem trans, eles são lembrados por seu papel na educação dos filhos e merecem reconhecimento na data comemorativa.

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Antes de realizar a transição de gênero, o homem trans carregou a filha em sua barriga e amamentou a menina
Arquivo pessoal
Antes de realizar a transição de gênero, o homem trans carregou a filha em sua barriga e amamentou a menina


Em especial de Dia dos Pais, o iGay conversou com Cézar Sant’anna, um pai com uma história inspiradora de vida. Ele cresceu em uma família com três irmãos mais velhos. Aos 19 anos, começou a namorar um jovem, e eles tiveram uma filha juntos, que foi concebida na barriga de Sant’anna. Hoje, aos 30 anos de idade e após dar à luz sua filha, o estudante de Direito se identifica como um homem trans .

Contando sua história, ele afirma que, em seu nascimento, foram lhe atribuídos o gênero feminino e o nome Beatriz e que começou a sentir alguns incômodos relacionados à identidade de gênero logo na infância. Na época, não havia informação suficiente sobre o assunto, e, seguindo os padrões, ele começou a namorar um menino e teve uma filha.

Antes mesmo de a filha completar um ano de idade, o casal decidiu terminar o relacionamento. Sant’anna, então, começou a se questionar sobre qual seria sua orientação sexual e, assim, a ter relacionamentos com mulheres. Mesmo assim, ainda sentia que faltava alguma coisa em sua vida.

Cézar Sant'anna conta que teve um namorado, e eles tiveram uma filha juntos, antes de se identificar como homem trans
Arquivo pessoal
Cézar Sant'anna conta que teve um namorado, e eles tiveram uma filha juntos, antes de se identificar como homem trans


De acordo com o estudante, há três anos começou a se questionar mais sobre isso e sobre identidade de gênero, e descobriu que era possível fazer o processo de adequação de gênero. Ele procurou mais informações na internet e percebeu que aquela era a solução. “Foi um alívio quando descobri, mas, com a descoberta, vieram outros problemas: como eu ia explicar para a minha família? Para a minha filha?”, pontua Sant’anna.

Ele diz que se preocupava muito com a filha, Fernanda, que tinha nove anos na época, mas que tinha o pressentimento de que ela aceitaria sem problemas. “Ela teve um crescimento diverso, plural”, afirma Sant’anna, que já apresentava suas namoradas à filha desde o começo, sobre a criação da filha.

“Quando cheguei para minha filha para falar que tinha iniciado o tratamento, a reação dela foi muito tranquila. Ela disse: ‘Ah, entendi, você vai ter barba agora’”, conta. Surpreso com a reação da menina, Sant’anna questionou se ela realmente estava compreensiva com relação à situação, e a filha, então, respondeu: “Você me dá tudo o que eu preciso para ser feliz, mas você também precisa ser feliz”.

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Educação plural é fundamental

A educação da filha do homem trans é plural, já que ele apresentou suas namoradas e explicou a questão trans para ela
Arquivo pessoal
A educação da filha do homem trans é plural, já que ele apresentou suas namoradas e explicou a questão trans para ela


De acordo com o homem trans, a reação da menina se deve à educação plural dada a ela. “Todo o conhecimento que dei para a minha filha fez com que ela entendesse a minha situação”, diz. Sant’anna conta que apresentava à Fernanda celebridades como Thammy Gretchen, que é um homem trans, para explicar a questão da identidade de gênero.

Para Sant’anna, uma educação plural é fundamental atualmente, principalmente para fazer com que o preconceito deixe de ser uma realidade. “Você não pode criar o filho numa bolha. Você está criando essa criança para o mundo, que é um lugar diverso. Existem diferenças, e as diferenças precisam ser respeitadas”, explica.

Segundo o homem trans, existem vários tipos de pessoas, e não há o menor problema nisso, já que nada vai interferir no jeito verdadeiro da criança. “Ela tem o jeitinho dela. Eu pinto suas unhas, passo maquiagem em seu rosto, porque ela é assim. Eu nunca gostei disso, mas não vou influenciar a maneira como ela é”, fala.

Sant’anna afirma que, em seu papel como pai, o que ele faz é contribuir para a educação dela, para que se desenvolva de forma diversa e sem padrões ou estereótipos. Um exemplo dado é que, quando a menina quer uma boneca, brinquedo associado ao gênero feminino, ele aproveita para comprar também um carrinho, que é associado ao masculino.

De acordo com o pai, ele tem essa atitude para que a filha não tenha a construção de uma “princesa de conto de fadas”, e, sim, uma “princesa moderna”, sempre dando a liberdade para a menina, assim como ela deu para que ele realizasse a adequação de gênero sem se sentir incomodado.

O que mudou com a transição?

De acordo com o homem trans, as mudanças que vieram junto da transição foram mínimas na relação com a filha
Arquivo pessoal
De acordo com o homem trans, as mudanças que vieram junto da transição foram mínimas na relação com a filha


O homem trans conta que sua transição teve impactos mínimos na relação com a filha, já que sempre foram muito unidos. Segundo o estudante, antes da transição, ele se lastimava e sentia indisposição para “lutar” as batalhas do cotidiano. Hoje, tem um sentimento diferente e é muito mais feliz. “Uma pessoa feliz faz outra pessoa feliz. Entre nós, a coisa só melhorou”, diz.

No âmbito social, o pai afirma que as pessoas com certeza mudaram o olhar sobre eles. “Sempre fiz as mesmas coisas. Sempre passeei, sempre dei bronca, expliquei o porquê da bronca, arrumei o cabelo dela”, conta.

No entanto, quando ele era visto como uma mãe solteira, as pessoas subjugavam e acreditavam que ele não estava fazendo mais do que a obrigação, de acordo com Sant’anna. Agora, sendo visto como um pai solteiro, as pessoas o admiram e dizem que ele é um “homão”.

O pai conta que sempre agradece o elogio, mas que não aceita. “Não, não sou um ‘homão’ porque eu sempre cuidei dela. Independente de ser cis ou trans, cuidar de um filho é cuidar e acabou. Por ser homem, não estou fazendo algo além da minha obrigação. Sou a mesma pessoa, faço as mesmas coisas que sempre fiz, com a mesma pessoa”, afirma.

O preconceito sofrido pelo homem trans

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"Só sofri preconceito de pessoas que não me conhecem", diz o homem trans sobre a repercussão da campanha do GGB


De acordo com o homem trans, não houve preconceito vindo da família , e a mãe e os irmãos precisaram apenas de um tempo para poder entender e aceitar. Sant’anna conta que, em geral, ele não sofre preconceito em espaços públicos por ter passabilidade, que é quando uma pessoa trans é vista como cis pelo padrão da sociedade.

No entanto, no Dia dos Pais do ano passado, Sant’anna participou do vídeo de uma campanha do Grupo Gay da Bahia, ONG voltada para direitos dos LGBT+, na qual ele aparece comemorando seu primeiro Dia dos Pais após realizar a transição. Segundo o estudante, o vídeo gerou uma repercussão na faculdade onde estuda, e muitos colegas se surpreenderam por não saberem que ele é um homem trans.

“Só sofri preconceito de pessoas que não me conhecem. As pessoas que me conhecem me respeitam”, afirma. Segundo ele, a recepção foi muito positiva das pessoas à sua volta, com comentários positivos sobre a admiração à coragem de Sant’anna. Ele diz que algumas pessoas trans até buscaram seu apoio, após a divulgação do vídeo.

No entanto, alguns comentários nas redes sociais foram negativos “Fiz questão de responder alguns comentários no deboche mesmo e falar que eu e minha filha estamos ótimos”, diz. “Independente de ser mãe ou pai, sou a pessoa mais importante na vida da minha filha”, comenta.

O que é ser pai?

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"Para mim, ser pai é ser o cara mais presente na vida de seu filho", diz o homem trans, que é inspiração para outros pais


“Ser pai, no meu caso, é magnífico, porque eu também sou mãe . Eu engravidei, eu senti ela mexendo dentro do meu corpo. Eu amamentei e cuidei da minha filha, tenho muito orgulho de dizer isso”, afirma Sant’anna. “Quando as pessoas veem um pai carinhoso com o seu filho, elas sentem uma certa estranheza. Para mim, ser pai é isso, ser o cara mais presente na vida de seu filho”, acrescenta o homem trans.

“Eu tinha uma ideia diferente do que é ser pai. Aquela ideia de que a mãe é o ‘céu’ e o pai é o ‘inferno’. No meu caso, eu sou os dois e acho que a dupla função deveria valer para todos”, complementa.

Sant’anna conta que, hoje, com a filha se tornando pré-adolescente, eles falam sobre menstruação, namoro e “crushes”, assim como eles conversavam sobre a transição do homem no início. “Daqui a pouco ela vai gostar de alguém, e, quando acontecer, espero que possa confiar em mim”, diz. “Para mim, ser pai é ter essa conversa aberta que a gente tem.”

O estudante diz que a intenção de preservar esse relacionamento com a filha é o de querer que ela tenha a admiração e a confiança dele. “Minha filha conta para todo mundo que o pai é trans e, quando alguém tem uma reação negativa, ela não liga porque acha o pai maravilhoso”, conta.

“Minha filha fala que tem dois pais, e não tem problema”, pontua. Sant’anna ainda explica que a filha passa as férias na casa do outro pai, que mora no Sul do País, e que a educação que deu para ela reflete em todos os momentos de sua vida. “Existem inúmeras maneiras de ser e ter uma família”, fala.

“Independentemente de homem trans ou cis, seja o melhor amigo do seu filho ou filha. Seja a primeira pessoa a estar lá, a dar instruções e a entender. Sou o maior fã da minha filha, tenho orgulho da segurança e da educação que ela tem”, finaliza.

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