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Os ativistas aproveitaram a Copa do Mundo para vestir camisas de futebol das cores da bandeira LGBT e trazer visibilidade para a causa na Rússia

Em protesto disfarçado, ativistas LGBT levantaram a bandeira do orgulho na Rússia, país onde está acontecendo a Copa do Mundo , mas que é absolutamente intolerante com torcedores de futebol e com os próprios moradores que são queer. De forma criativa, eles vestiram camisetas de times de futebol que são da cor da bandeira LGBT e andaram pelas ruas da capital Moscou com o propósito de mudar a realidade na Rússia.

Em protesto com cores da bandeira LGBT, seis ativistas andaram pelas ruas de Moscou, na Rússia, país absolutamente intolerante com pessoas da comunidade LGBT, com o objetivo de dar visibilidade aos russos que enfrentam preconceito
Javier Tles/"The Hidden Flag"
Em protesto com cores da bandeira LGBT, seis ativistas andaram pelas ruas de Moscou, na Rússia, país absolutamente intolerante com pessoas da comunidade LGBT, com o objetivo de dar visibilidade aos russos que enfrentam preconceito


O protesto disfarçado aconteceu no dia 28 de junho, coincidindo com o Dia Mundial do Orgulho LGBT . Cada um dos ativistas vestiu a camiseta do time do seu país de origem, e juntos formaram a bandeira LGBT , com pessoas da Espanha (vermelho), Holanda (laranja), Brasil (amarelo), México (verde), Argentina (azul) e Colômbia (roxo). “Não queremos o mal de ninguém, queremos amar e ser amados”, diz Eloi Pierozan, gerente de marketing brasileiro que participou da manifestação, em entrevista ao iGay .

A campanha ganhou o nome “The Hidden Flag” (em português, "a bandeira escondida"), foi organizada pela FELGTB (Federação Estatal de Lésbicas, Gays, Transsexuais e Bissexuais), a maior organização na Espanha em prol dos direitos LGBT, e criada pela agência LOLA MullenLowe, a pedido da federação. “O objetivo foi de levantar a bandeira LGBT na Rússia, onde a legislação não é favorável para a comunidade LGBT”, afirma Pierozan.

De acordo com nota oficial da federação espanhola, o governo russo promulgou no ano de 2013 uma lei que criminaliza a promoção e distribuição de manifestações que apoiem relações sexuais “não tradicionais”, ou seja, uma lei anti propaganda LGBT. A campanha criativa surgiu com o objetivo de driblar e até desafiar a lei vigente no país. O brasileiro conta que a ideia foi de fazer o ato de forma pacífica, para mostrar que somos todos iguais.

Um estudo recente da organização russa Center for Independent Social Research notou que os crimes de ódio contra a comunidade LGBT duplicaram do ano de 2013 para 2017. “Ser LGBT abertamente na Rússia significa correr um grande risco, mas fazer isso diante de milhares de fãs durante a Copa do Mundo é o que realmente nos motivou”, diz Uge Sangil, presidente da FELGTB.

Os ativistas fizeram sessão de fotos em vários pontos da cidade de Moscou, na Rússia, como em pontos turísticos e no metrô local, vestindo as camisas de futebol que formam a bandeira do orgulho LGBT e passando despercebidos por todos
Javier Tles/"The Hidden Flag"
Os ativistas fizeram sessão de fotos em vários pontos da cidade de Moscou, na Rússia, como em pontos turísticos e no metrô local, vestindo as camisas de futebol que formam a bandeira do orgulho LGBT e passando despercebidos por todos


O projeto “The Hidden Flag” dá visibilidade a todas as pessoas que enfrentam discriminação e são silenciados diariamente na Rússia e em outras partes do mundo onde LGBTs são perseguidos, humilhados e marginalizados. De acordo com Pierozan, isso foi alcançado, e a mensagem se espalhou por diversos cantos do mundo, com as fotos da manifestação viralizando nas redes sociais.

Apesar dos alguns (poucos) comentários negativos na internet, ele revela que ficou muito feliz com a repercussão e que tem recebido mensagens de agradecimento não só de brasileiros, por representar o Brasil, mas também de russos da comunidade LGBT, por ter ido ao país e levantado a bandeira LGBT publicamente. A princípio, Pierozan diz que o ato foi pontual, mas que a federação e a agência pensam na possibilidade de outras ações criativas no futuro.

Segundo o gerente de marketing, a divulgação do ato na internet só aconteceu após todos os ativistas estarem seguros nos países onde moram, para que nenhum deles tivesse algum problema em território russo ou até mesmo na alfândega na hora de partir.

A FELGTB e a Fare, rede da Fifa (Federação Internacional de Futebol) contra a discriminação e o preconceito, recomendaram aos torcedores da comunidade LGBT para não se engajarem em protestos políticos e não demonstrarem afeto em lugares públicos , diante da grave situação na Rússia. No Brasil, também houve um pronunciamento sobre o assunto, e o Ministério de Relações Exteriores divulgou uma cartilha pensando na segurança dos torcedores brasileiros LGBT no país.

A história do ativista brasileiro e como foi participar do ato para ele

Para o gerente de marketing e ativista brasileiro, a experiência foi muito tranquilo, já que ninguém percebeu que era um ato em prol da comunidade LGBT, mas ele afirma que sentiu um pouco de tensão quando posaram ao lado de policiais
Javier Tles/"The Hidden Flag"
Para o gerente de marketing e ativista brasileiro, a experiência foi muito tranquilo, já que ninguém percebeu que era um ato em prol da comunidade LGBT, mas ele afirma que sentiu um pouco de tensão quando posaram ao lado de policiais


Pierozan conta que tem 32 anos de idade e descobriu que era gay aos 21. Ele vem de uma cidade pequena no Rio Grande do Sul, onde todos eram muito conservadores. Por causa do cargo que exerce profissionalmente, como gerente de marketing, precisou fazer viagens a trabalho. Ele mora há um ano na Holanda, e a família aceita sua orientação sexual atualmente.

Ele revela que participou da manifestação na Copa do Mundo na Rússia, mas, na verdade, não é fã de futebol, e foi mesmo pela causa nobre da campanha “The Hidden Project”. Quando foi convidado pela federação espanhola para participar do ato, ele logo aceitou, apesar de a mãe e o namorado terem ficado um pouco receosos, pelas questões de segurança dos LGBTs no país.

De acordo com o gerente de marketing, foram três dias de gravação e sessões de fotos pela cidade de Moscou, em lugares como o metrô e outros pontos turísticos, com o fotógrafo espanhol Javier Tles. “Lá foi muito tranquilo”, diz Pierozan. Ele conta que, já que ninguém sabia da intenção do ato, achavam que eram apenas seis amigos reunidos e até mesmo pediam para tirar fotos com eles, sem saber que a ideia era justamente compor as cores da bandeira LGBT.

Para ele, o único momento de um pouco de tensão foi quando os seis ativistas se posicionaram ao lado de policiais para fotos, mas tudo correu bem. O brasileiro considera que esse ato disfarçado com as cores da bandeira LGBT foi o protesto mais importante do qual ele participou, por causa do grande impacto do ato ao naturalizar um aspecto do ser humano em um lugar como a Rússia e no contexto da Copa do Mundo .

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