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Para alguns, dar o papel de um transexual à atriz faz a comunidade trans se sentir invisível. Por outro lado, o ator Tarso Brant argumenta que entregar o personagem a uma celebridade renomada como ela é positivo para a causa

No início da semana passada, a atriz Scarlett Johansson recebeu uma enxurrada de críticas após o anúncio de que ela interpretará um personagem transexual no cinema. O filme em questão será dirigido por Rupert Sanders – o mesmo que a escalou para “Ghost in the Shell”, longa inspirado em quadrinhos japoneses que também rendeu críticas pelo fato de a protagonista não ser oriental como originalmente é –, e a notícia aqueceu a discussão sobre a falta de espaço para mulheres e homens trans no cinema e na televisão .

A escolha de Scarlett Johansson para o papel de um personagem trans rendeu muitas críticas à atriz e aqueceu o debate sobre a falta de espaço para mulheres e homens trans na indústria cinematográfica e na televisão
Divulgação
A escolha de Scarlett Johansson para o papel de um personagem trans rendeu muitas críticas à atriz e aqueceu o debate sobre a falta de espaço para mulheres e homens trans na indústria cinematográfica e na televisão

Além dos internautas, pessoas do mundo do cinema e da televisão, como as atrizes trans Jamie Clayton e Trace Lysette também se manifestaram sobre o assunto. Para ambas, a situação não representaria um problema caso atores e atrizes trans tivessem o mesmo espaço para interpretar personagens cisgênero (pessoas que se enquadram no gênero que lhes é designado) que os cis têm para fazer papéis de pessoas transexuais. Em entrevista ao iGay , homens trans – tanto do público quanto do ramo – contam como se sentem com a situação.

Representatividade é a palavra-chave

Para Diego (à esqueda) e Teodoro (à direita), a escolha de atores trans para esse tipo de personagem é importante tanto para ajudar pessoas a se descobrirem quanto para mostrar a elas que podem ser o que quiserem
Arquivo pessoal
Para Diego (à esqueda) e Teodoro (à direita), a escolha de atores trans para esse tipo de personagem é importante tanto para ajudar pessoas a se descobrirem quanto para mostrar a elas que podem ser o que quiserem

Mesmo criança, Diego de Paula já sentia que não se enquadrava nos ideais de feminilidade que as pessoas costumam ter de mulheres, mas foi só durante a adolescência que o rapaz entendeu que esse sentimento tinha uma explicação.

Acostumado a se expressar de forma completamente diferente das três irmãs mais velhas e sem saber por que isso acontecia, ele conta que a realização veio ao assistir João Nery – primeiro homem trans brasileiro a realizar a cirurgia de redesignação de gênero – falando sobre transexualidade.

É muito mais fácil você se ver quando você sabe que quem está ali é igual a você"

“Foi nesse dia que tive uma epifania e descobri que eu não era só diferente de todo mundo. Ver um homem trans falando das experiências dele me fez entender que aquilo existia de verdade.

Se fosse só teoria, só algum psicólogo falando sobre um caso ou só um artigo sobre isso, muito provavelmente eu não teria me identificado tanto quanto ao vê-lo falando. A cada palavra que ele dizia, eu pensava: ‘Meu Deus, mas isso sou eu! Ele está falando de mim, da minha vida!’”, explica o rapaz.

Para ele, situações como a de atrizes e atores cisgênero interpretando mulheres e homens trans no cinema privam pessoas que estão na fase de descoberta – como ele estava quando assistiu à entrevista – de oportunidades para entender a si mesmas.

“Assim como foi importante para mim ter visto o João Nery falando da experiência dele, é muito importante também ver algum ator ou atriz falando, fazendo aquele papel com a verdade dele. É muito mais fácil você se ver quando você sabe que quem está ali é igual a você”, afirma.

Para exemplificar essa ideia, ele cita a série “Sense8”, em que Nomi, uma das personagens principais, é interpretada pela atriz Jamie Clayton. “Quando eu descobri que ela era transexual, gostei cinco vezes mais da série. É algo com que você consegue se identificar, é a representatividade, e isso é muito importante”, afirma.

É como se o cinema me excluísse, teatro me excluísse, parece que não estão nem interessados em aprender. Dá a entender que é só você cortar o cabelo e colocar uma faixa no seu peito"

Para Teodoro Azevedo – que também sempre se sentiu desconfortável perante o que era esperado dele por ter nascido em um corpo considerado feminino, e que se descobriu trans na adolescência – ter mulheres e homens trans na televisão, no cinema e em outras posições de destaque vai além de auxiliar quem está confuso a entender a identidade de gênero.

"Nós merecemos ser vistos, temos nossas qualidades. A gente não é só trans, a gente é ator, é bombeiro, é policial, é professor, somos pessoas além da transexualidade. Acho que dar mais espaço para atores trans no cinema ajudaria elas a verem que elas não estão excluídas, que elas têm espaço no meio de trabalho, que elas têm como chegar ali, que são capazes”, comenta.

Sobre a escolha de Scarlett para o papel de um homem trans, Teodoro se diz decepcionado. “Eu me sinto muito invalidado. É como se o cinema me excluísse, teatro me excluísse, parece que não estão nem interessados em aprender. Dá a entender que é só você cortar o cabelo e colocar uma faixa no seu peito, ainda acho que passa uma visão errada. Parece uma lésbica masculinizada”, desabafa.

Diego concorda com Teodoro, diz que a situação faz parecer que o tema da transexualidade é apenas um produto a ser vendido e ainda critica a resposta de Scarlett às críticas, que foi dada por um representante da atriz ao site “Bustle”.

“Diga a eles para falarem com os atores Jeffrey Tambor, Jared Leto e Felicity Huffman”, disse o representante, se referido ao fato de que Scarlett não é a primeira a aceitar o papel de uma pessoa trans. Para Diego, porém, “não é porque outras pessoas fizeram que está certo”.

Visibilidade é importante independente de quem interpreta

Para o ator Tarso Brant, a existência de personagens trans é algo bastante positivo independente de quem os interpreta
Reprodução/Instagram: @Tarsobrant
Para o ator Tarso Brant, a existência de personagens trans é algo bastante positivo independente de quem os interpreta

Apesar das críticas que tomaram a internet, o ator Tarso Brant, que inspirou o personagem Ivan em “A Força do Querer” , acredita que tanto atores e atrizes trans quanto os cis são capazes de interpretar qualquer papel.

“Independente de ser cis ou não, o papel de um ator é criar um mundo, é fazer parte de um mundo que não é o dele. Todo ator faz isso, a gente se insere em um contexto e cria uma nova identidade”, explica ele, que, assim como Diego e Teo, também não se enquadrava ao gênero que lhe foi designado desde a infância.

Independente de ser trans ou não, todo mundo tem a mesma capacidade, o mesmo potencial"

O ator também conta que aprecia muito o trabalho de Scarlett e acredita que ela provavelmente foi escolhida por ter as características desejadas pelo diretor para o papel. Ele ainda vai além e afirma que a perspectiva de ver personagens que representam os homens trans no cinema já é, por si só, algo incrível. “É ótimo esse assunto ser discutido, ter visibilidade internacional e um personagem interpretado por uma atriz de peso com é a Scarlett Johansson... Cara, eu estou batendo palmas!”, comemora Tarso.

Apesar de ver o lado positivo da história, Tarso admite que mulheres e homens trans ainda não têm o mesmo espaço que pessoas cis na indústria cinematográfica, defende a abertura de oportunidades e expressa o desejo de que as pessoas busquem aprender mais sobre a transexualidade. “Espero que haja mais conhecimento. Existe preconceito , mas, se a pessoa tem preconceito, ela tem uma deficiência no conceito dela. Independente de ser trans ou não, todo mundo tem a mesma capacidade, o mesmo potencial”, conclui.