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Segundo a especialista, quem se relaciona com pessoas do mesmo sexo tem mais dificuldade em perceber que as coisas saíram do controle, e as relações abusivas no meio LGBT são diferentes que os no meio hétero; entenda

É comum a noção de que gays, lésbicas e bissexuais são pessoas mais "desconstruídas", e que, por isso, têm relações mais leves e sadios. Essa noção faz com que muita gente se espante quando topa com casos de relacionamentos abusivos dentro da comunidade LGBT, mas, segundo a psicóloga Ana Carolina Ferreira, ter uma relação tóxica pode, sim, acontecer tanto com quem namora pessoas do mesmo sexo quanto quem se relaciona com o sexo oposto.

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Relacionamentos abusivos são uma realidade para LGBTs e se manifestam de outra forma entre pessoas do mesmo sexo
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Relacionamentos abusivos são uma realidade para LGBTs e se manifestam de outra forma entre pessoas do mesmo sexo


Em entrevista ao iGay , a psicóloga explica os pontos específicos acerca dos relacionamentos abusivos no meio LGBT e mostra por que é preciso ter mais cuidado e consciência sobre o assunto. Segundo Ana, um dos pontos é justamente o fato de que, em um relacionamento entre indivíduos do mesmo sexo, as pessoas tanto dentro quanto fora da relação têm mais dificuldade em enxergar e perceber a situação.

De acordo com a profissional, relacionamentos abusivos se baseiam no princípio de que há um dominador e um dominado na relação. “Em uma relação entre homem e mulher, é mais fácil perceber se existe um dominante por se tratar de sexos diferentes, desiguais”, afirma ela. Logo, em um relacionamento entre indivíduos do mesmo sexo, iguais, é difícil perceber que um deles pode estar controlando o outro.

De acordo com Ana, outro fator que precisa ser considerado é o preconceito. Ela afirma que, em razão dessa violência exercida pela sociedade sobre os casais homoafetivos, essas pessoas têm menos liberdade para experimentar do que os casais heterossexuais, algo que já traz consequências psicólógicas e atrapalha a vivência delas de forma nada saudável.

Partindo dessa realidade, a psicóloga analisa que, além de haver a dificuldade de perceber que o relacionamento é abusivo, essa pessoa também terá dificuldades em realizar uma denúncia na delegacia, já que, nessa situação, ela corre o risco de sofrer discriminação. Para Ana, isso pode fazer com que a vítima siga encarando os abusos em silêncio e até esconda a própria sexualidade a fim de evitar situações assim. 

Segundo a psicóloga, "estar no armário" também é uma questão a ser discutida, principalmente quando uma das partes do relacionamento tem sua sexualidade assumida para a sociedade e a outra não. Ela explica que, em uma situação assim, é possível que ambas desenvolvam um comportamento abusivo, algo que pode se manifesta em cenários como o de um dos lados não sendo apresentado para familiares e amigos do parceiro ou parceira enquanto o outro faz chantagens.

Para Ana, essa realidade é algo que faz ambos sofrerem. Ela explica que, em casos assim, o caminho a seguir é o de pensar se a relação pode continuar daquela forma e se o outro realmente pode "sair do armário", propondo uma conversa, em primeiro lugar, e, se necessário, procurando acompanhamento psicológico, afinal é preciso lidar primeiro com a sexualidade.

A psicóloga reforça que não existe um determinante que justifique o comportamento abusivo desenvolvido por uma pessoa, mas, especialmente na comunidade LGBT, é possível que traumas acumulados em outras relações sexuais e afetivas podem se tornar fonte de comportamentos assim.

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Casos de relacionamentos abusivos na comunidade LGBT

O ciúmes e a chantagem podem ser manifestações de que a saúde do relacionamento está sendo negativamente afetada
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O ciúmes e a chantagem podem ser manifestações de que a saúde do relacionamento está sendo negativamente afetada

Todos os aspectos ponderados pela psicóloga podem ser observados em casos de relacionamentos abusivos narrados por vítimas ao iGay. O primeiro deles é o de Bruna*, cuja relação que tinha com a ex-namorada começou quando ambas eram muito jovens e não tinhamassumido a sexualidade para o mundo. Elas não queriam contar para ninguém, nem amigos e muito menos familiares, fazendo com que elas namorassem escondidas durante um ano e meio.

Segundo Bruna, isso desencadeou conflitos porque, quando uma delas resolvia, por exemplo, sair com amigos, era como se estivesse "abandonando o relacionamento". Nesse contexto, elas eram "obrigadas" a escolher entre ficar juntas ou ver os amigos, algo que passou a gerar brigas repletas de xingamentos quando uma das duas decidia sair sem a outra.

Ela só foi perceber que o relacionamento era abusivo após o término, quando ela já estava cursando ensino superior. Na faculdade, Bruna entrou em contato com o conceito de relacionamentos abusivos e se envolveu em relações mais saudáveis, mas conta que, até hoje carrega cicatrizes. Ainda assim, ambas conservam uma amizade até hoje.

O outro caso é o de Isabella*, que conheceu a ex-namorada aos 16 anos em um aplicativo de namoro. Ela conta que, assim como no caso de Bruna, as duas eram muito novas e não tinham noção do que era abusivo. Além disso, porém, outro fator foi determinante na história de Isabella: enquanto ela já havia assumido a sexualidade para o mundo, sua ex ainda estava "no armário".

De acordo com a moça, a relação durou por cerca de cinco ou seis meses, já que, logo, uma começou a tentar exercer controle sobre a outra. “Logo no começo, aos poucos, começaram aquelas coisas de ‘não fale com tal pessoa’ ou ‘deixe de seguir tal pessoa’”, diz.

Na época, a mentalidade que elas tinham - e que muitas pessoas também têm - era a de que o ciúme seria uma representação do amor verdadeiro. Nesse contexto, nenhuma das duas reconheceu que a saúde do relacionamento estava sendo afetada e isso durou até as brigas ficarem insustentáveis.

Em dado momento, Isabella conta que os xingamentos eram tão agressivos que chegavam a envolver ofensas a familiares. Além disso, a moça afirma que também havia chantagem emocional quando o assunto era sexo, e tudo isso culminou no término do namoro. Após a experiência - que foi marcada por chantagem por parte da outra moça também na hora de terminar a relação - Isabella ficou marcada durante um tempo, sem vontade de fazer sexo.

Hoje, Isabella diz estar bem e acredita que é possível ver um lado positivo na situação. "Foi necessário ter passado por essa experiência. Não seria quem sou hoje na questão do espaço do outro, do respeito. Futuramente, se eu passasse por uma situação parecida, identificaria que é abusivo”, diz, reforçando que, todos os dias, tenta desconstruir mais e mais a questão do ciúme para assegurar relacionamentos mais saudáveis.

Tanto Bruna quanto Isabella acreditam que o namoro entre pessoas heterossexuais está sob a influência do machismo, algo que pode desencadear um comportamento abusivo, mas que os relacionamentos abusivos na comunidade LGBT também são influenciados por esse fator, mesmo que em menor escala. Para elas, o que acontece em boa parte das situações é que os casais LGBT tentam reproduzir um modelo hétero de relacionamento, já que esse é o exemplo que têm desde a infância.

*Os nomes reais foram omitidos a pedido das fontes

Quais podem ser os sinais e o que fazer se acontecer?

O acompanhamento psicológico, individual ou de casal, é uma das melhores opções para um relacionamento abusivo
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O acompanhamento psicológico, individual ou de casal, é uma das melhores opções para um relacionamento abusivo


De acordo com a psicóloga, para garantir a saúde de um relacionamento, é preciso observá-lo e ficar de olhos abertos para sinais de que ele não vai bem, como a presença de violência física, psicológica, financeira, e moral. Toda essa situação, segundo Ana, gira em torno da sensação de posse que uma pessoa tem sobre a outra.

Aqui, ela reforça a questão do ciúme, que, apesar de ser comum, tem limites. Quando uma pessoa priva a outra de sair, ter contato com determinados amigos, manipula e faz chantagem, algo não vai bem na relação. Outra situação a ser analisada é a mudança de humor repentina que torna comportamentos amorosos em agressivos bem rápido. De acordo com Ana, relacionamentos abusivos também podem se manifestar na humilhação do outro, a punição e a culpabilização da vítima.

Ao perceber sinais como esses, Ana afirma que o primeiro passo é se perceber como uma vítima, algo que, segundo ela, pode ser bastante difícil. Em seguida, é hora de tomar uma decisão. “É se perguntar ‘que relação desejo para mim?’, ‘o que desejo em uma relação?’”, exemplifica a psicóloga.

A partir de então, Ana explica que conversar com o parceiro ou parceira para que ambos entendam onde erraram e possam melhorar a situação é uma saída. Ela acrescenta ainda que, nesse momento, buscar pessoas fora da relação para conversar sobre o assunto também pode ajudar, já que, de fora, é possível enxergar aspectos que passam despercebidos quando se está envolvido na situação.

Para todos os casos, Ana Carolina também aconselha buscar acompanhamento psicológico para entender como aquilo está afetando a vida da pessoa e como chegar a uma solução para relacionamentos abusivos, principalmente para os LGBTs que têm medo de sofrer preconceito na hora de fazer a denúncia na delegacia.

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A mensagem final deixada pela psicóloga é a de priorizar a autopercepção, percebendo-se no papel de dono ou dona do próprio corpo para não deixar relacionamentos abusivos passarem de forma despercebida, como ela disse que é o que pode acontecer no meio LGBT, e tendo também uma relação saudável com o outro. “Todos têm o direito de ter uma relação saudável”, completa Ana.

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