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A arte drag queen é complexa e tem um grande poder de transformação, com roupas e maquiagens; saiba como é passar pela experiência pela primeira vez

Eu sempre admirei a arte drag . Transformar-se em um indivíduo completamente diferente em seu exterior sempre foi fascinante para mim. Após começar a me reconhecer como parte da comunidade LGBT , passei a conhecer mais o mundo drag queen e tornou-se um sonho fazer a minha própria montação. Sendo assim, decidi, como repórter, ter a experiência pela primeira vez para relatar como tudo acontece – e bem no mês do orgulho LGBT.

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Com cores e brilhos, após ser transformado como uma drag queen, meu olhar sobre o ser humano passa a ser repensado
Saulo Tafarelo
Com cores e brilhos, após ser transformado como uma drag queen, meu olhar sobre o ser humano passa a ser repensado

Conhecendo Paulette Pink, drag queen consagrada e conhecida no Brasil e em países da Europa, e também sendo fã velado da cor de rosa, surgiu a oportunidade de me montar com alguém que sabe bem o que está fazendo, ao contrário de mim, que tenho conhecimento nulo de maquiagem e costura.

O local escolhido para a transformação foi o próprio apartamento de Paulette, no bairro da Bela Vista, em São Paulo. Antes mesmo de chegar, meu coração já palpitava de ansiedade e nervosismo pelo resultado. Cheguei com o fotógrafo lá pelas 17h – mal sabia que sairia às 21h. O apartamento é simples, porém muito autêntico, e Paulette nos recebeu de porta aberta e em toda plenitude de seu personagem rosa-pink, cantando e fazendo piada.

Com um mural artístico e decorações autênticas, o apartamento de Paulette era um lugar perfeito para a transformação
Saulo Tafarelo
Com um mural artístico e decorações autênticas, o apartamento de Paulette era um lugar perfeito para a transformação


Paulette é conhecida por sua personalidade forte, como mulher cor-de-rosa, mas também por caracterizar outra personalidade: Cher, diva atemporal. Ela já realizou diversos procedimentos cirúrgicos para se assemelhar mais com a cantora, que se tornou uma inspiração, o que fica estampado em seu apartamento através de um mural pintado a mão pela artista com a imagem de Cher. 

As roupas rosa-pink jogadas no sofá e o espelho com luzes típicas de camarim de artista já indicavam o que me esperava ali.

Paulette havia me pedido anteriormente para que eu mandasse as medidas do meu corpo, para que ela checasse em seu armário alguma peça que coubesse em mim. Afinal, meus números eram bem maiores que o dela, mas acredito que a arte drag também é sobre trabalhar com o que temos.

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O ritual de montação


Feitos os cumprimentos, ela logo nos introduziu a seu ritual de montação, oferecendo um café – algo que se repetiria ao longo da sessão. O pequeno notebook no canto da bancada da cozinha já tocava músicas da diva Cher, alternando com alguns sucessos do gênero disco dos anos 80.

Logo, ela arrumou uma cadeira para que eu me acomodasse diante do espelho extravagante e, assim, começassemos o processo de transformação. Ter raspado minha barba e bigode realmente fez uma diferença logo na primeira etapa, em que ela aplicou uma solução gelada que – peço perdão por não saber exatamente todos os itens de maquiagem – é o que eu acredito que seja a base. Sem piedade, Paulette escondeu boa parte da cor natural do meu rosto e os pelos tímidos que começavam a crescer no queixo.

Em seguida, ela começou a tapar minhas sobrancelhas, utilizando uma cola roxa e grudenta. Alguns instantes são necessários para secar, e, depois, mais base para cobrir os pelos da sobrancelha e deixar meu rosto absolutamente assustador, quase como um boneco de cera.

Foi curto o espaço de tempo em que pensei comigo mesmo a importância das minhas sobrancelhas, pois Paulette logo desenhou com um lápis rosa – obviamente – sobrancelhas mais arqueadas e mais características. Ainda ganhei um banho facial de glitter, com a aplicação de brilho nos novos traços imponentes do rosto.

Os cílios postiços foram um  toque final para o jogo de luz, sombras e profundidade no meu rosto
Saulo Tafarelo
Os cílios postiços foram um toque final para o jogo de luz, sombras e profundidade no meu rosto

Depois disso, chegou a parte de trabalhar luz, sombra e profundidade, noções que minha drag queen mentora relata entender bem. Ela declarou ter muita experiência com pinturas, de rostos, de quadros, de murais e do que for resultado de sua imaginação.

Assim, ela realizou o contorno da minha mandíbula, das maçãs do meu rosto, do meu nariz, da minha testa e também sobre meus olhos, com delineadores, lápis e outros itens que não sei nomear. Para completar, os toques finais de cílios postiços e lábios volumosos são a cereja do bolo: finalmente parece que “ela” chegou.

Em todo esse processo, até então, eu já lacrimejei inúmeras vezes e meu rosto chegou a ficar irritado com coceira ainda mais. Foi uma experiência completamente atípica, desacostumado com a proximidade ao meu olho de substâncias e colas e também com tantos produtos na minha pele.

Paulette levou a peruca, também rosa-pink, com toda sua graciosidade, e eu estava totalmente pronto para esse momento, como se eu estivesse recebendo minha coroa. Com grampos, ela deu os últimos retoques no movimento dos fios da peruca, e eu finalmente entendi como que uma peruca com topete consegue ficar em pé.

Colocando meia-calça, espartilho, salto alto e o resto da roupa, conseguia apontar exatamente todos os lugares do meu corpo que estavam apertados e doloridos: os pés, o calcanhar, a barriga, a cintura, o tórax, e percebi também que minha cabeça estava sendo muito apertada pela faixa que segurava meu cabelo para que ganhasse meus fios cor-de-rosa. E que peso na cabeça também com essa peruca.

Pronta para os palcos

Diante do espelho com luzes de camarim de artista, eu conseguia sentir a potencialidade dentro de mim para os palcos
Saulo Tafarelo
Diante do espelho com luzes de camarim de artista, eu conseguia sentir a potencialidade dentro de mim para os palcos


A experiência como drag queen pela primeira vez pode ser descrita como uma terapia facial, com a aplicação de diversos itens de maquiagem no rosto, e, ao mesmo tempo, como uma sessão um tanto quanto dolorida, com os saltos altos e espartilhos. Ao todo, a experiência me fez enxergar a potencialidade dentro da minha pessoa, como eu posso brilhar – literalmente.

Percebo que, em toda essa transformação, é necessária muita paciência e também paixão pela arte que faz. Não é fácil ficar sentado cerca de duas horas para conseguir chegar ao personagem, passar por apertos e ter de se virar com o mais básico possível.

Consigo entender também que a arte drag não é uma arte perfeita, porque é uma arte humana. Lógico, cada artista tem o seu traço, sua preocupação e percepção de cores, mas nada é perfeito, já que uma das intenções é remontar a uma feminilidade exacerbada, que é muito humana.

O salto e a meia-calça eram doloridos, mas eram, ao mesmo tempo, inegavelmente estilosos
Saulo Tafarelo
O salto e a meia-calça eram doloridos, mas eram, ao mesmo tempo, inegavelmente estilosos

De resto, ficam os questionamentos sobre os traços que fazem uma pessoa e a problematização do que é gênero. Não precisou nem que eu colocasse a peruca para que eu sentisse a "urgência" de fazer um “carão” olhando para o espelho, sentindo minha beleza exterior como nunca antes. Subi nos saltos e, mesmo com movimentos desengonçados, mexia meu corpo e posava para a câmera quase como modelo, pronta também para os palcos.

Também era possível perceber e imaginar a força política da atividade, já que um homem "sério e dentro dos padrões" jamais vestiria um vestido e colocaria uma peruca cor-de-rosa. Como a própria Paulette diz, é preciso colocar a cara à tapa para simplesmente poder se expressar, exigindo muita coragem. Continuo sendo eu mesmo, só que agora tenho uma nova perspectiva sobre o meu ser.

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Toda essa experiência não seria possível sem Paulette Pink, drag queen , ótima mentora, mulher trans, que lutou e se manifestou em outros tempos para que nós pudéssemos hoje sair de mãos dadas sem enfrentar tanto preconceito na rua e para que eu pudesse sentir na pele como é ser drag queen. “Drag é revelar a arte que existe dentro de você”, afirma ela, fascinante.

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