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Para as mães que não sabem como lidar com o filho LGBT, a relação entre Tatiana e Lucília é um grande exemplo de convivência e aceitação familiar

Tatiana Ferraz, jornalista e professora na Faculdade Cásper Líbero, é mãe de uma menina “sapa”, apelido engraçado e carinhoso que ela usa com sua filha lésbica , Lucília. A história inspiradora da relação entre uma "mãe muito hétero" e uma "filha muito sapa" é marcada por aceitação e amor desde o início e, hoje, serve como exemplo para mães e pais que têm dificuldades em lidar com a sexualidade dos filhos.

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As mães ainda encontram dificuldade em lidar com a sexualidade do filho LGBT,o que não acontece com Tatiana e Lucília
Reprodução/Facebook/Tatiana Ferraz
As mães ainda encontram dificuldade em lidar com a sexualidade do filho LGBT,o que não acontece com Tatiana e Lucília


Ao contrário de muitas mães , Tatiana pode afirmar que ela e a filha são bastante próximas uma da outra. “A gente é muito amiga, de fazer compras juntas e perguntar se uma foto de perfil está boa”, comenta ela, brincando que, por não sentir nenhuma atração por pessoas do sexo feminino, o único tópico que as duas não aprofundam no papo é o das "crushes" da jovem.

Lucília revela sempre ter compartilhado do mesmo sentimento que a mãe e procurado desenvolver uma relação aberta com ela. Como contava tudo para Tatiana, ela afirma que não precisou de muita preparação ou de um "momento de virada" para revelar sua sexualidade à ela, algo que fez de forma natural em uma conversa cotidiana.

Mãe sempre sabe?

Toda essa história começou quando Lucília, aos 13 anos, disse para a mãe que tinha se apaixonado por uma garota. “Na época, achei que ela estava confusa, pois também manifestava interesse por meninos”, conta Tatiana. Nessa época, a menina se assumiu como bissexual, já que, até então, era assim que ela se identificava.

“Confesso que perdi um pouco o chão pensando que ela ia sofrer”, revela a jornalista. Para fazer a "ficha cair" para si mesma, ela logo contou para o marido, que não se importou com o fato de a filha gostar de meninas desde que ela fosse feliz. Desde então, a situação só ficou mais tranquila , e a relação entre eles não mudou, mesmo depois de, posteriormente, Lucília se assumir como lésbica.

Quando o assunto é a ligação entre as mães e seus filhos, muita gente diz que “mãe sempre sabe”, Sobre isso, Tatiana discorda e diz que “não dá para desconfiar [da sexualidade] de todos os filhos desde sempre”. Ela diz que, apesar de não ter se chocado com a revelação da filha, ainda foi um acontecimento inesperado porque ela não via "sinais" disso na maneira que a jovem se comportava. “A Lu sempre foi muito extrovertida, muito ‘moleca’, nunca foi ‘masculinizada’”, comenta.

Relatos servem de ajuda a outras mães

Tatiana conta que não desconfiava da sexualidade da filha antes de ela ter se assumido:
Reprodução/Facebook/Tatiana Ferraz
Tatiana conta que não desconfiava da sexualidade da filha antes de ela ter se assumido: "ela sempre foi muito 'moleca'"



A jornalista admite que adora compartilhar fotos e publicações nas redes sociais, mas, por medo de expor demais, costuma conversar com a filha sobre o que pretende escrever na web. Ela fala sobre o cotidiano das duas e aborda até questões mais pessoais, como suas expectativas de ter uma nora, por exemplo.

Pelos comentários que recebe, Tatiana começou a perceber que, ao falar sobre o relacionamento saudável que tem com Lucília, ela pode ajudar mães e filhos que estão passando por situações difíceis acerca da aceitação. De acordo com ela, outras mulheres a procuram para pedir dicas de como lidar com a situação de ter filhos LGBT. Para os filhos, por sua vez, ela acredita poder servir como exemplo de mãe.

Seu maior recado para uma mãe que está sofrendo para lidar e compreender o filho LGBT é lembrar que “sexualidade não define personalidade". “Se é homem ou mulher com quem a minha filha quer ficar, não importa, eu quero que ela seja feliz”, constata.

Sobre o preconceito, a jornalista declara que “as mães que têm preconceito estão perdendo convivência com os filhos e vão se arrepender”. Apesar de se preocupar com a filha como a maior parte das mães faria e de não querer que ela sofra preconceito, Tatiana tenta não ficar paranóica com a questão. Além disso, ela espera que a situação, apesar de difícil, proporcione amadurecimento para a menina.

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Como enfrentar o preconceito?

Para Tatiana e Lucília enfrentarem o preconceito, foi necessária muita
Reprodução/Facebook/Tatiana Ferraz
Para Tatiana e Lucília enfrentarem o preconceito, foi necessária muita "paciência" com outros membros da família


Tatiana, conta ainda que cresceu em uma época completamente diferente e com outros estigmas sociais. “Acho que todas as pessoas da minha geração cresceram com preconceito. Meninas ‘masculinizadas’ e meninos ‘afeminados’ eram julgados na escola, mas principalmente pela personalidade deles”, comenta.

Antes de Lucília, a professora conta que nunca havia lidade com uma pessoa LGBT assumido na família, já que “as pessoas se assumiam menos”. Apesar disso e da sociedade preconceituosa da época, ela afirma que, no geral, acredita ter crescido em um ambiente "diferentão". “Meu pai fazia comentários sem maldade [por exemplo]”, comenta.

Quando Lucília admitiu ser lésbica, Tatiana afirma que assumiu uma posição de neutralidade em prol da felicidade da filha, sem se importar com o que o restante da família pensaria. Ela comenta que, atualmente, os familiares dizem não ver problemas e não tratam a menina de forma diferente, mas não perguntam se ela tem algum relacionamento, algo que provavelmente fariam se ela fosse hétero. Na visão dela, as pessoas ainda têm medo de conversar com a jovem sobre isso.

Devo me assumir para a minha mãe?

A melhor opção, para Lucília, é assumir a sexualidade e explicar com clareza que isso não afeta sua personalidade
Reprodução/Facebook/Tatiana Ferraz
A melhor opção, para Lucília, é assumir a sexualidade e explicar com clareza que isso não afeta sua personalidade


A estudante acredita que sua família é uma grande exceção para o que a comunidade LGBT vive. Mesmo assim, Lucília considera como melhor opção revelar, sim, a sexualidade para a família, pois, na maior parte das vezes, é preciso conviver com ela. “Claro, não vai ser fácil [para eles] receber a notícia, mas o importante é deixar claro o quanto isso não muda a sua personalidade e o que você é”, afirma.

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Ainda que tenha passado por uma situação tranquila quando assumiu a sexualidade para os familiares, Lucília aconselha outras pessoas a não se deixarem abater por possíveis dificuldades. “Nem todas as pessoas têm informação suficiente. Independente das mães , pais, família e todo o resto, não deixe de ser quem você é e não deixe de amar quem você ama, senão não vai agradar a você mesmo. Amor não pode ser um problema”, conclui a jovem.