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Hoje, já existem marcas de roupa que se intitulam "sem gênero", como a Beira, que estará na SPFW, mas afinal, roupas são femininas ou masculinas?

A São Paulo Fashion Week 2018 ( SPFW ) teve início no último sábado (21), e com a chegada da semana de moda  surgem vários questionamentos relacionados a representatividade nas passarelas, seja racial, por exemplo, ou de gênero, que pode se manifestar através de uma modelo transgênero desfilando ou com roupas não seguindo os estereótipos. 

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A Beira marca presença no SPFW com a proposta de apresentar roupas sem gênero, para homens e mulheres
Reprodução/Instagram/beira___
A Beira marca presença no SPFW com a proposta de apresentar roupas sem gênero, para homens e mulheres



Com o intuito de aumentar a representatividade, a marca Beira, que tem o objetivo de produzir roupas sem gênero, para serem usadas tanto por homens quanto por mulheres, se apresenta nesta quarta-feira (25) na semana de moda. Mas será que a presença dela pode significar a mudança, a representatividade e a diversidade esperada pela comunidade trans não-binária que luta pelo fim dos estereótipos?

Para Xisto Marina, assistente de relacionamento em uma plataforma voltada para beleza e moda, que se considera não-binário e prefere ser tratado com pronomes masculinos, o problema não é tão simples de ser resolvido, como lançando uma marca de roupas como a Beira. “Ótimo que a marca se importa com pessoas não-binárias, mas o buraco é mais embaixo”, afirma.

Xisto argumenta que é necessário mais do que apenas “roupa sem gênero”, mas também de “um olhar sem gênero para a ação de se vestir”. “O que seria ‘roupa sem gênero’ para começo de conversa? Roupa já não tem gênero, é pano que a gente coloca em cima do corpo, seja para se cobrir, compor um look ou se proteger”, esclarece.

A modelo Lea T é transgênero e já desfilou no SPFW, mas Xisto questiona se a diversidade ocorre além das passarelas
Reprodução/Pinterest
A modelo Lea T é transgênero e já desfilou no SPFW, mas Xisto questiona se a diversidade ocorre além das passarelas


Em uma comparação, o assistente propõe que a ideia pode se equivaler aos brinquedos, “de menina” ou “de menino”. Xisto reforça que roupa é roupa, assim como brinquedo é brinquedo, independentemente de quem quer vestir ou brincar.

De acordo com o assistente, o que precisa mudar de verdade na moda é o olhar das pessoas com relação às roupas "para homens ou mulheres", algo que acaba perpetuando problemas que incomodam a todos, não só pessoas não-binárias.

“Tenho problemas para encontrar sapatos, por exemplo. Gosto de tênis e sapatos fechados, baixos, confortáveis com cores escuras. Eles existem, mas apenas na numeração ‘masculina’, acima do número 37. Quando peço 35, só recebo o que não me interessa: sapatos coloridos, desconfortáveis, cheios de flores, que não quero”, compara Xisto. Da mesma forma, um homem que calça menos que 37 poderá ter problemas para encontrar um tênis de seu gosto.

Xisto relata que até falou sobre o problema com outras mulheres, e não foi surpresa saber que várias passam pela situação de ter de usar sapatos desconfortáveis. Elas atém mesmo chegaram a pedir para o assistente dicas de lugares que vendem sapatos que pudessem contemplá-las. “A ideia de atribuir gênero a roupa é tão estúpida”, conclui.

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Sobre roupas “masculinas” ou “femininas”, a moda e o SPFW

Apesar de ter representatividade, a diversidade no São Paulo Fashion Week é duvidosa, do ponto de vista de Xisto
shutterstock
Apesar de ter representatividade, a diversidade no São Paulo Fashion Week é duvidosa, do ponto de vista de Xisto


Com relação ao olhar das pessoas sobre a moda e sobre as roupas “masculinas” ou “femininas”, Xisto afirma que depende do nicho que está sendo tratado. Ele acredita que na atual bolha LGBT em São Paulo as pessoas não se preocupam tanto com os gêneros designados para uma peça de roupa. Já se pensarmos na geração acima, a dos pais, um homem não compraria uma camiseta na seção feminina.

Em se tratando sobre a SPFW e sobre a maioria absoluta de marcas que apresentam roupas “masculinas” e “femininas”, Xisto acredita que não há diversidade nas passarelas, mas não só por questão de representatividade. “Eu te pergunto: a indústria e o mercado da moda são diversos? Quantas pessoas trans estão em posições estratégicas? São apenas estilistas homens, brancos, cisgênero e homossexuais.”

“Gostaria de poder olhar mais de perto e conversar com as marcas e lojas que estão falando sobre ‘roupa sem gênero’, entender como elas têm chegado nesse processo e se pretendem aprofundar a discussão a médio e longo prazo", conta ainda o assistente.

A vida de uma pessoa não binária

Xisto Marina não se identifica com gêneros binários e afirma que essa identidade influencia muito no seu cotidiano
Reprodução/Instagram/xistomarina
Xisto Marina não se identifica com gêneros binários e afirma que essa identidade influencia muito no seu cotidiano


“Obviamente minha identidade influencia meu cotidiano”, afirma Xisto. “Todo dia tenho que afirmar minha identidade trans em um mundo que ainda é bastante cisnormativo e binário.” Ele conta que tem a sorte de se cercar por pessoas abertas a entenderem, mas também tenta não fazer disso uma bolha e procura entrar em lugares onde sabe que será confuso entenderem.

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“Sobre vestimenta, tenho me interessado mais por compor looks. Penso na composição que me interessa e não em parecer isso ou aquilo. Boa parte do meu guarda roupa é garimpado da seção masculina, mas não porque eu queira me vestir ‘como homem’”, afirma a pessoa sem gênero  não-binária.

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