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Em "O Outro Lado do Paraíso", Samuel vive um relacionamento homoafetivo, mas passa por dilemas sobre sua sexualidade e tem "recaídas" pela mulher

A novela “ O Outro Lado do Paraíso ” continua dando o que falar quando se trata de seu núcleo LGBT. A personagem Adinéia (Ana Lúcia Torres) descobriu que seu filho, Samuel (Eriberto Leão), é LGBT em meados da trama, mesmo após ele tentar esconder sua orientação sexual com um casamento de fachada. O filho acabou assumindo seu caso com outro homem, mas, após alguns episódios, percebe que ainda tem interesse pela ex-mulher. A pergunta que fica é: Samuel é um homem gay?

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TV Globo/Divulgação
Em "O Outro Lado do Paraíso", Samuel, interpretado por Eriberto Leão, enfrenta dilemas sobre ser um homem gay


Existem várias explicações possíveis para o que está acontecendo, partindo do ponto de vista de um homem gay na vida real. Pedro é um universitário de 19 anos que já experimentou se relacionar com mulheres e está aberto a outras experiências no futuro. Enquanto isso, Thiago, também universitário de 19 anos, nunca experimentou ficar com uma garota e diz que provavelmente “só beijaria”.

Mas apesar de terem mentalidades diferentes, ambos concordam que o que está acontecendo na novela só poderá ser explicado com certeza com o passar dos capítulos. “Ele está em um conflito, seja qual for sua sexualidade”, explica Thiago. Ainda assim, é possível imaginar o que Samuel está vivendo:

Bissexualidade e poliamor

“Pelo que parece, esse pode ser um caso de bissexualidade”, declara Pedro. A explicação mais objetiva para o cenário é o de Samuel sentir atração por ambos os sexos, tanto por Cido (Rafael Zulu) quanto por Suzy (Ellen Roche).

De acordo com o universitário, se esse for o caso, ele julga ser uma atitude interessante por parte da Globo, de mostrar uma realidade além do típico homem gay, até com a possibilidade de um poliamor, quando há a relação entre três ou mais pessoas.

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Thiago propõe ainda que, se for o caso, isso seria “mais cômodo” para Samuel — e até para o diretor da novela diante da televisão brasileira: ficar com uma mulher, para não sofrer com o preconceito e até com a rejeição da mãe.

Novas experiências

Outra explicação é a de que o personagem esteja usando as experiências sexuais para se encontrar melhor como pessoa e entender como funciona seu desejo sexual. 

Como um homem gay que também experimenta o sexo oposto, Pedro é direto ao afirmar que “experimentar não muda sexualidade". Pelo contrário, "pode até confirmar mais". Ele já ficou com mulheres e afirma ser aberto a ter outras experiências na cama com elas se houver interesse recíproco, por que não?

O universitário explica que se considera gay, assim como Thiago, por ficar com meninas apenas por diversão e curiosidade em novas experiências, sentindo atração de verdade, tanto sentimental quanto sexual, somente por homens.

“Cura gay”

A outra possibilidade, menos favorável, é o caso de a novela ser levada a uma possível “cura gay”, na qual Samuel poderia voltar a ficar com Suzy, ignorando sua sexualidade a princípio. Se a novela acabar de tal forma, será “um grande desserviço com toda a comunidade e o movimento LGBT”, declara Pedro. “Seria colocar Samuel no armário e não se preocupar com ele”.

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Já de acordo com Thiago, seria válido mostrar este retrato de um homem gay por ser ainda algo que boa parte da comunidade LGBT vive, dentro do armário e sem poder expressar a própria sexualidade.

O que uma especialista tem a dizer?

Adinéia até deixou que seu filho LGBT levasse para a casa o seu parceiro, mas, no fundo, ainda não conseguiu aceitar
TV Globo/ Divulgação
Adinéia até deixou que seu filho LGBT levasse para a casa o seu parceiro, mas, no fundo, ainda não conseguiu aceitar


Em entrevista ao iGay, Joyce da Paz, especialista em sexologia e pós-graduanda em sexualidade humana, esclarece que um dos maiores conflitos em si é a obsessão, se possível dizer de tal forma, pela nomenclatura sexual.

“Ficamos muito apegados ao nome e perdemos o direito de ser livre”, afirma. Ou seja, a preocupação em rotular a sexualidade, segundo a especialista, acaba limitando as experiências que o indivíduo pode ter, além de confundir seus pensamentos. “O indivíduo se perde e não sabe se nomear.”

No caso da novela “O Outro Lado do Paraíso”, Joyce explica que Samuel “morre de medo de se enquadrar em ser gay ou bissexual”, por isso não assume a atração por outro homem com tanta facilidade. Ela diz que a novela apresenta algo que ainda acontece, mas que pode abrir a mente de pessoas que estão passando pela “mesma confusão”.

“Samuel aprendeu a direcionar a sexualidade para mulher, por causa do que aprendeu durante toda sua vida”, afirma. Segundo a especialista, “a confusão na mente dele é totalmente causada pela família”, não só pelo medo de rejeição da mãe, mas também, e principalmente, porque está vivendo com Suzy, que acabou de ter sua filha, e Cido.

O fator mais determinante para a confusão pela qual está passando está sendo o nascimento de sua filha, de acordo com Joyce. “Antes da gestação, ele estava totalmente confiante do que queria, agora vem o pensamento de ‘o que eu vou explicar para a minha filha?’, que o deixa confuso e mais confuso ainda a cada ‘recaída’”, declara ela.

Joyce faz questão de deixar claro que não concorda com o uso do termo “recaída”, porque, para ela, são apenas experiências sexuais. “Não é uma recaída, é um desejo dele.” Para ela, se ele sentiu atração por uma mulher, não tem absolutamente nada de errado com isso, mesmo para o caso de ele se identificar como gay. Ela acredita até que pode ser isso, essa “recaída” que faça com que ele se encontre e entenda seus interesses sexuais.

Por fim, ela afirma que, para todo o caso, um homem gay  e a comunidade LGBT em geral são mais abertos a ter essas experiências do que pessoas heterossexuais, por tentar entender o outro e por interpretar a informação de forma diferente. Ou seja, aberta a novas experiências e a uma nova visão de mundo. 

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