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Ivan de Palma, conhecido como Ivanka Tramp, chamou atenção com vestido, salto alto e peruca bufante na colação de grau da Politécnica da USP

Na colação de grau da Escola Politécnica da USP, os olhares não estavam direcionados somente a filhos ou netos queridos em seu momento gratificante. O centro das atenções também era Ivan de Palma, em cima do salto alto e com a peruca bufante. O estudante de 24 anos decidiu ir à  formatura montado de drag queen.

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Em sua colação de grau, a drag queen Ivanka Tramp esbanjou glamour ao fechar sua graduação
Reprodução/Facebook/Ivan de Palma
Em sua colação de grau, a drag queen Ivanka Tramp esbanjou glamour ao fechar sua graduação "com chave de ouro"


Também conhecido como Ivanka Tramp, seu nome de drag queen , Ivan se formou em Engenharia Química e se identifica como homem gay cisgênero. Em entrevista ao iGay , ele conta que ajudou a formar o coletivo LGBT da Poli em 2012, a Frente PoliPride, que se tornou um elementos importante na luta pela equidade no ambiente da universidade. “Com chave de ouro”, ele decidiu se formar com muito glamour e impacto.

Para ele, ter se montado foi "com certeza uma atitude de protesto", em pleno ano de eleição. “Fui montado de drag queen à formatura porque achei que traria mais visibilidade à causa, retificaria estereótipos e faria com que muitos estudantes se sentissem mais confortáveis em suas próprias peles.”

O pisão da formatura e a reação das pessoas

Ivan reconhece que tirou inspiração da cultura gay que faz parte do seu cotidiano. Sua drag mother, pessoa experiente que ensina e repassa conhecimentos de ‘montação’ quase como uma mãe, foi Malonna. Ela tem uma oficina para drags iniciantes e montou o estudante no dia de sua formatura.

O recém-formado afirma que também tirou coragem para se montar no dia tão esperado graças um amigo que fez o mesmo na formatura do ITA, em 2016, e que foi duramente perseguido durante sua graduação.

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Em uma universidade conhecida de outros tempos por ser conservadora, Ivan subiu no salto e teve uma reação positiva das pessoas. “A experiência foi muito melhor do que eu pensava, todos me receberam muito bem. Foram apenas elogios vindos de alunos, pais, professores e funcionários”, comenta. Ele não quis se pronunciar a respeito da própria família.

Ivanka teve uma boa recepção dos pais e colegas, recebendo apenas elogios
Reprodução/Facebook/Ivan de Palma
Ivanka teve uma boa recepção dos pais e colegas, recebendo apenas elogios


No entanto, o caso ganhou repercussão e algumas opiniões negativas surgiram. Na página "Desabafa Poli" no Facebook, que compartilha opiniões enviadas anonimamente, uma postagem acusou Ivan de desrespeito por se “fantasiar de mulher” e por “reduzir a formatura a um bloco de carnaval”.

Ele diz que não foi surpresa esse tipo de comentário e os classificou até mesmo como sutil, já que “o pessoal conservador sabe que deixou de ser maioria e que suas vozes perderam força”.

Comunidade LGBT na Escola Politécnica

Nem sempre a faculdade foi um ambiente aberto pessoas de diferente orientações sexuais e gêneros, segundo o novo engenheiro. “Eu entrei em 2012, quando a Escola Politécnica não era um ambiente confortável para pessoas LGBT. Era tabu e causava desconforto”, afirma Ivan.

No ano seguinte, foi um dos responsáveis por fundar o coletivo de diversidade sexual e de gênero da Escola, o PoliPride. Aos poucos, o grupo ganhou caráter político e o objetivo de trazer a temática do respeito e da diversidade para a Poli. Ele relata que, por estar constantemente exposto, já sofreu discriminação e ouviu agressões em festas.

Para ele, “as coisas melhoraram muito” desde então. O coletivo passou a receber bastante atenção e reconhecimento, não só por parte da universidade, mas também de instituições externas. O ambiente se tornou muito mais agradável e o amor de diferentes formas pôde ser abraçado.

“A Poli é hoje um ambiente mais inclusivo”, comemora, mas manifesta preocupação: “é importante ressaltar ainda que, além das melhorias na Poli, é preciso chegar na periferia, onde estão as LGBTs que mais precisam de apoio”.

Ser gay e drag no Brasil

Apesar de alguns avanços e da reação positiva a uma drag na formatura da Poli, Ivan reforça que  o Brasil ainda precisa amadurecer em questões LGBT. “O país ainda é muito conservador no que diz respeito à questão da diversidade sexual e de gênero”, afirma Ivan. Brasil é o país que mais mata transgêneros do mundo, segundo dados do Grupo Gay da Bahia.

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Já o cenário drag queen sempre foi uma subcultura, mas vem sendo popularizado pela mídia e por realities show, como "Rupaul’s Drag Race". De acordo com Ivan, a série ganhou destaque aqui no Brasil, fazendo a cultura drag "ganhar novos adeptos".

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