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Contra "cura gay", psicólogo afirma que os profissionais devem auxiliar o paciente a se aceitar, e não oferecer um tratamento sem evidência científica

Desde meados de setembro, o assunto "cura gay" tem dominado conversas entre amigos e vem aparecendo na mídia. Em uma decisão controversa, o juiz Waldemar Cláudio de Carvalho autorizou que psicólogos oferecessem um tratamento de “reversão sexual” - a tal "cura gay". A autorização acata o pedido de uma ação movida por um grupo de profissionais da área de psicologia que defendem o direito de oferecer um tratamento para curar a homossexualidade. Mas de acordo com o psicólogo Klecius Borges, não há embasamento científico que prove que seja possível mudar a orientação sexual de uma pessoa.

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Psicólogo afirma que não há embasamento científico para a “cura gay”
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Psicólogo afirma que não há embasamento científico para a “cura gay”

Para Klecius, não é ético que psicólogos ofereçam a " cura gay ", já que a orientação sexual não pode ser mudada. “O que se pode alterar é o comportamento sexual, ou seja a prática da atividade sexual”, explica. Isso significa que a pessoa passa a se comportar de outra forma, diferente da qual ela se identifica para se encaixar, seja dentro de sua família que não a aceita como ela é, seja na religião que diz que a homossexualidade é pecado.

Com a decisão do juiz Waldemar, Klecius afirma que se criará a ideia de que diferentes orientações de desejo e identidades sexuais são patologias, quando na verdade elas são uma expressão natural e espontânea da sexualidade humana. “Isso pode autorizar atitudes e comportamentos repressores de várias ordens, aumentando a discriminação contra as minorias sexuais”, diz Klecius. Desde 1990, a homossexualidade deixou de ser considerada doença pela Organização Mundial da Saúde (OMS).

Apesar de o tratamento para curar a homossexualidade não ser obrigatório, Klecius acredita que isso não impedirá que certas pessoas sejam obrigadas a serem atendidas por profissionais. “Pais, ou quaisquer outros aparelhos repressores, tais como instituições religiosas ou sociais, podem passar se sentir autorizadas a pressionar os indivíduos no sentido de mudarem sua orientação sexual”, explica o psicólogo.

Esta medida pode causar graves transtornos psicológicos para quem é obrigado a passar pelo tratamento, como depressão, sintomas de ansiedade e até mesmo tentativas de suicídio.

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Opinião do Conselho Federal de Psicologia (CFP)

Também contra a decisão do juiz, o Conselho Federal de Psicologia (CFP) entrou com recurso para impedir que profissionais da área ofereçam esse tratamento. De acordo com nota divulgada pelo Conselho, a decisão liminar abre a “perigosa” possibilidade de uso de terapias de (re)orientação sexual. “A ação foi movida por um grupo de psicólogos (as) defensores dessa prática e representa uma violação dos direitos humanos e não tem qualquer embasamento científico".

A  Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) também está apoiando o CFP no processo, em que ingressou como amicus curiae (amigo da corte), como uma entidade externa à ação que vai ao tribunal levar outros esclarecimentos essenciais sobre o tema.

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E se eu quiser ajuda para mudar minha orientação sexual?

Como não há evidência científica de que é possível mudar a orientação sexual, Klecius afirma que os psicólogos não devem oferecer esse tratamento de “cura gay”, e, sim, aulixiar o paciente a se aceitar. “O papel do psicólogo é ajudar o indivíduo a compreender sua sexualidade e a desenvolver mecanismos para lidar com ela, de acordo com seus desejos, valores e anseios”, explica.  “O psicólogo não pode e não deve interferir nas escolhas do indivíduo e muito menos oferecer ou prometer  resultados que ferem o paradigma científico”.

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