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Apesar de falar sobre o assunto ser positivo, certos aspectos da transição de gênero são mostrados de forma distorcida na novela da Rede Globo

De acordo com dados de um levantamento periodicamente realizado pelo Grupo Gay da Bagia (GGB), a mais antiga associação de defesa dos direitos humanos de homossexuais no Brasil, nosso País é o que mais mata pessoas travestis e transexuais no mundo: só no ano passado, 144 crimes dessa natureza foram registrados. Em comparação, por exemplo, com os Estados Unidos, pessoas trans e travestis têm nove vezes mais chances de sofrer uma morte violenta. Em uma realidade como essa, que emana preconceito, é um desafio abordar temas como a transexualidade na televisão, mas na novela da Globo “ A Força do Querer ”, a questão veio à tona de forma detalhada.

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Divulgação/TV Globo
Com "A Força do Querer", é a primeira vez que a transexualidade é retratada com tantos detalhes na TV brasileira

Outras novelas da emissora já retrataram pessoas trans, travestis e drag queens, como como “As Filhas da Mãe” (2001) e “Explode Coração” (1995), mas a vida das personagens nunca foi mostrada de forma tão completa. Em “A Força do Querer”, Ivana, interpretada por Carol Duarte, sente, desde sempre, que não se relaciona com nenhum aspecto normalmente relacionado ao feminino e contraria as expectativas da mãe, desapontada com o fato de que a filha não demonstra feminilidade. Eventualmente, Ivana descobre a transexualidade , passa a se identificar como Ivan e a fazer um tratamento hormonal para ganhar traços mais masculinos.

Informação ou desserviço?

Falar sobre esse tema é importante, mas por tratar de questões delicadas como o tratamento para transição de gênero, é preciso ter cuidado. Afinal de contas, a abordagem escolhida pela novela ajuda ou atrapalha? Para Téodoro Azevedo, rapaz de 22 anos que se assumiu trans para a família aos 15 e vem fazendo o tratamento hormonal há cerca de cinco meses, um pouco dos dois.

Para Téo, alguns aspectos da transição de Ivan estão sendo mostrados de forma distorcida
Arquivo pessoal
Para Téo, alguns aspectos da transição de Ivan estão sendo mostrados de forma distorcida

Recentemente, quando os resultados do tratamento hormonal começaram a aparecer em Ivan, muitos pais que sempre tiveram dúvidas a respeito de alguns comportamentos dos filhos ficaram com a pulga atrás da orelha e os questionaram sobre a possibilidade de serem trans, e nem sempre é “a hora certa”.

Apesar de já ser assumido para a família, Téo lida com a não aceitação por parte da mãe desde que falou pela primeira vez com ela sobre a transexualidade. Ela, porém, não sabe que ele está fazendo a transição de gênero , mas a novela parece ter despertado a atenção dela para as mudanças no corpo do filho.

“Ela evita assistir à novela, mas eu sei que pegou uns comerciais aleatórios porque está mais de olho em mim. Sei que ela ouviu falar sobre, não é à toa que ela está mais de olho na penugem no meu rosto, ela provavelmente viu o Ivan na novela com uma penugem no rosto”, explica Téo.

Transformação relâmpago

Há cinco meses fazendo o tratamento hormonal, Téo conta que os primeiros resultados só começaram a aparecer há pouco tempo. “É um processo demorado, não é algo do dia para a noite. Até cinco meses, o seu corpo está mais é se acostumando a receber aquilo”, explica o jovem. Ele afirma que, hoje, tem uma quantidade maior de pelos no corpo, coisa que, para Ivan, aconteceu em pouquíssimo tempo. Téo ainda não reparou muita diferença na própria voz, enquanto a de Ivan logo começou a engrossar.

Mesmo que a novela não tenha como se estender apenas para retratar o processo como ele realmente é, é importante que as pessoas que pensam em passar pela transição saibam que, na vida real, as coisas são mais demoradas.

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Processo delicado

Na novela, Ivan já fazia acompanhamento psicológico desde antes de entender o que era a transexualidade. Confuso com o fato de não se sentir mulher, mas também não gostar de mulheres, o jovem só compreendeu o que era quando conheceu T., personagem trans interpretado por Tarso Brant (que inclusive inspirou Gloria Perez na hora que escrever a trama). A partir daí, Ivan pula direto para o tratamento, comprando os hormônios em uma academia e aplicando por conta própria, sem fazer qualquer tipo de acompanhamento médico.

Apesar de algumas personagens avisarem brevemente Ivan de que tudo precisava ser feito com a ajuda médica, Téo considera que esse assunto deveria ter sido abordado de outra forma. “Pelo SUS, são dois anos de espera passando por psiquiatra, psicólogo e uma fila imensa para conseguir tomar os hormônios, tudo muito burocrático. Tem gente que não aguenta esperar e acaba buscando com um personal. O Ivan é um cara rico, podia estar fazendo isso com um médico porque ele tem condições. Podiam mostrar ele buscando um tratamento, mostrar que isso não é bomba, porque parece que ele está se enchendo de bomba, de droga, e não é bem assim”, explica o rapaz.

Téo afirma que, apesar de haver quem busque o tratamento dessa forma, mostrar isso como uma opção que funciona pode ser prejudicial para quem ainda não pesquisou direito sobre o assunto. “Ainda têm muitas pessoas trans novas que veem a novela, que ainda não buscaram informações por medo ou por falta delas e acham que isso é uma opção, de pegar um dinheiro, ir na academia, comprar tal coisa, chegar em casa e aplicar. Consertando isso, acho que a novela vai melhorar, eu espero que, no futuro, mostrem o jeito certo”, afirma o jovem, enfatizando que aplicar os hormônios como as pessoas que tomam bomba normalmente aplicam pode ser extremamente prejudicial e que há uma periodicidade correta para as dosagens.

Conduta dos amigos

Segundo Téo, outra situação mostrada na novela que pode atrapalhar a vida de pessoas que lidam com a transexualidade é a forma com que alguns personagens se comportam com T.. Ele lembra que, em dado momento, o personagem vai a um bar e uma das amigas pede que ele mostre os documentos para alguém para provar que, ao nascer, costumava ser Teresa. “Isso dá liberdade de as pessoas te apresentarem ao mundo como transexual. Dá liberdade de as pessoas perguntarem teu nome de registro, aí você vai dizer que isso é invasivo e vão responder: ‘mas eu vi na novela que não tem nada a ver’”, explica.

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Lado positivo

Apesar das críticas, Téo conta que falar sobre o assunto é sempre bom e que ele se identificou com alguns momentos de Ivan, como a cena em que ele assume a transexualidade para a família. “O que eu mais gostei foi a forma que ele contou porque foi de uma forma toda errada e é realmente o que acontece. A gente já está tão desesperado, se corroendo há tantos anos por dentro que, quando a gente se descobre, acha um absurdo ainda ter de lidar com o preconceito da família, onde é para você ser acolhido. Na parte que ele conta, está muito explosivo, fala de um jeito sem pé nem cabeça, põe pra fora mesmo porque já está se torturando há anos”, relata o jovem, ressaltando que se identificou muito com o momento.

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