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Membro da comunidade, Cássio Rodrigo fala em um bate papo exclusivo com o colunista do iG Heitor Werneck sobre a cultura no movimento LGBT

Em sua primeira entrevista para o iGay, o coordenador de Políticas para Diversidade Sexual da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania (SJDC), Cássio Rodrigo, fala sobre a importância da união da comunidade e com o movimento LGBT .

Nesta segunda parte, ele fala sobre movimento LGBT , políticas culturais e experiências como a criação do Esquadrão das Drags, das fábricas de cultura e do Museu da Diversidade Sexual.

Cássio Rodrigo é muito presente no movimento LGBT
Arquivo pessoal
Cássio Rodrigo é muito presente no movimento LGBT


Heitor Werneck: De quando você entrou na Prefeitura, em 1991, até hoje, que avanços você observou  em termos de incentivos para a comunidade LGBT?

Cássio Rodrigo: Bom, eu acho que um dos maiores avanços foi na questão das travestis e mulheres transexuais, especialmente no que se refere ao respeito ao nome social e à identidade de gênero. Atualmente, o Supremo Tribunal Federal (STF) está julgando a possibilidade de alteração do nome no registro civil sem a realização de cirurgia de mudança de sexo. Antes isso seria impensável, elas eram “invisíveis”.

Heitor Werneck: E a política cultural em cima disso? Em termos de atividades públicas para expor a questão de gênero?

Cássio: Em termos de políticas culturais, um dos maiores avanços foi o edital do Programa de Ação Cultural (ProAC) de fomento à cultura LGBT. Esse edital teve início em 2010 e até hoje fomenta uma série de projetos culturais LGBT – livros, filmes, peças de teatro, shows...

Outra importante ação foi a criação do Museu da Diversidade Sexual, o terceiro do mundo e primeiro da América Latina, e que completa cinco anos em 2017, com projetos educativos, como visitas monitoradas para as escolas.

Heitor Werneck: Isso é Estadual. E em termos municipais?

Cássio: Quando eu estava na Prefeitura, eu fomentava a cultura LGBT. Infelizmente, muitos projetos não tiveram continuidade, como a Virada Cultural LGBT , que realizávamos no 25 de janeiro, Aniversário de São Paulo, em pleno Vale do Anhangabaú. Havia teatro, filmes, música, stand up, tudo gratuito... Infelizmente, isso se perdeu. Tínhamos também um edital exclusivo para filmes (documentários) sobre a questão da identidade de gênero. Houve obras abordando só homens trans, outra sobre mulheres transexuais e travestis... Isso garantiu um acervo para a Prefeitura e deu voz à população LGBT . Eu já estava no Estado, na Secretaria de Cultura, quando me uni ao Franco Reinaldo, que era o coordenador municipal, em 2012, e pensamos em um projeto de intervenção no Largo do Arouche, que depois nomeamos de Esquadrão das Drags, e até hoje elas atuam na prevenção de doenças sexualmente transmissíveis.

Sobre o Esquadrão, eu já trabalhava com a Dindry Buck e com a Sissi, duas drags das quais eu gosto muito. Tudo começou quando o Franco (Reinaldo, foi coordenador municipal de diversidade sexual e agora é diretor do Museu da Diversidade Sexual) me disse que os moradores da região do Arouche estavam se queixando da presença da população LGBT nos arredores. Nós chamamos a Dindry para fazer uma ação de conscientização voltada à população LGBT. Pensamos em formar um grupo com pelo menos quatro drags que conscientizassem aqueles jovens LGBT para o uso cidadão do espaço público. A Dindry indicou, além da Sissi, que eu já conhecia, mais duas garotas que tinham o mesmo perfil.

A ação consistia no seguinte: elas iriam, vestidas de drags, panfletar uma cartilha para os jovens e varrer a praça, deixar tudo limpo e organizado. Observando as quatro em ação, eu e Franco tivemos a ideia de dar o nome do Esquadrão – o grupo existe até hoje. Elas fizeram intervenções no Museu de Arte Moderna, no Parque do Ibirapuera... Elas têm um apelo junto à juventude. Elas conseguem falar dessa questão de cidadania... Todo ano, na Feira da Parada, elas promovem oficinas, em que ensinam as pessoas a se maquiarem, a montarem uma “personagem”, e ao mesmo tempo elas dão a oficina de prevenção à DST, incluindo a AIDS. Enquanto estão lá, pintando o olho, a boca, elas falam dessas questões...

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Heitor Werneck: Foi você que promoveu esse diálogo, certo?

Cássio: Sim, eu sempre acreditei que os resultados seriam melhores se os projetos fossem feitos em conjunto. Infelizmente, na gestão passada, muitos projetos conjuntos foram negligenciados.

Heitor Werneck: E como surgiu o Museu da Diversidade Sexual?

Cássio: A ideia do Museu surgiu quando Franco foi coordenador municipal de diversidade sexual. Na época, ele tentou firmar uma parceria com o pessoal da USP – só que não deu certo. Quando eu fui para a Secretaria da Cultura, nós retomamos a ideia, junto com o Paulo Mortari e com a Fernanda Bandeira de Mello, que eram do Gabinete. Eu fiz a minuta de criação do Museu, que passou pelo Jurídico, chegou ao Gabinete do Governador e foi criado por meio de Decreto, em 12 de maio de 2012, sendo inicialmente ligado à Assessoria de Gêneros e Etnias.

Esse Museu é um espaço para preservar a memória. Cada LGBT que morria tinha sua história apagada. Um exemplo foi a Claudia Wonder – alguns documentos, discos que ela gravou, figurinos de shows foram resgatados por amigos, em seu apartamento, logo depois que ela morreu, pois no que dependesse da família, aquilo viraria lixo. O mesmo se deu quando a Phedra de Córdoba morreu, recentemente. Em seu apartamento, estava a história dela.  Hoje, esse acervo está com o Ivam Cabral, da SP Escola de Teatro. Então, este museu é um espaço que recepciona esses acervos, para que a comunidade LGBT do futuro conheça quem esteve lutando pelos direitos de todos.

Heitor Werneck: Fale um pouco das fábricas de cultura.

Cássio: Esse foi um projeto inovador porque, além de esses aparelhos realmente estarem em regiões extremamente periféricas e carentes, da cidade de São Paulo, também foi concebido com foco em um público jovem. E, nesse sentido, a gente sempre trabalhou com as organizações sociais de cultura. A ideia era pegar datas comemorativas, como o 17 de maio (Combate à LGBTfobia) e o 20 de Novembro (Dia da Consciência Negra), para colocar em pauta questões como o preconceito e a inclusão.

Meus parceiros nessas ações eram a Secretaria da Justiça, que ia para divulgar a Lei nº 10.948, de 05/11/2001 (que dispõe sobre as penalidades a serem aplicadas à prática de discriminação em razão de orientação sexual) e a OAB, que ia prestar atendimento às vítimas de discriminação diretamente nessas regiões.

Heitor Werneck: Você percebe que, quando muda o partido que faz a gestão do município, por exemplo, o novo gestor abandona as ações anteriores?

Cássio: Sim, isso acontece. Quando você tem partidos diferentes administrando espaços, você pode ter problemas de comunicação. Então, se você tem um partido na Prefeitura e outro no Estado, pode haver dificuldades em razão da briga de egos e da disputa eleitoral. Se bem que o eleitor é pouco comunicado sobre essas políticas. Observe que os partidos só ressaltam as obras materiais, e é pouco mostrado o que foi feito em termos de cultura e direitos humanos, por exemplo. Então acho que é muito mais uma questão de ego, realmente. As pessoas não entendem que a política tem que ser pública. Ela não é minha, ou sua; ela pertence à população. A boa política pública tem que ser copiada à exaustão, levada a todas as esferas. E os erros cometidos devem ser observados também, para não se repetirem.

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Heitor Werneck: Qual o papel das ONGs nessa sua experiência como gestor, seja na criação de leis ou na concepção de políticas públicas?

Cássio: O terceiro setor tem um papel, muitas vezes, mais fiscalizador do que executor da política pública. Além disso, ele pode chegar onde o poder público não consegue ir. Mas a maioria das organizações trabalha em projetos específicos, sem pensar em um alcance macro. Observe que, recentemente, o Ministério da Cultura não foi dissolvido graças à mobilização da classe artística, e não propriamente das ONGs. Havia militantes individuais e artistas independentes.

Heitor Werneck: Agora, comunidade LGBT e cultura. Esses ProACs, essas leis... como a coletividade pode ter acesso a esses caminhos se o público LGBT muitas vezes desconhece sua existência?

Cássio: Nós tivemos, via ProAC, livros, peças de teatro. O que a gente busca é contemplar todas as letrinhas – lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais, gays, etc. Também buscamos variar os formatos: documentários, revistas virtuais, livros, shows, filmes, exposições. Também apoiamos as paradas e semanas da diversidade pelo Estado de São Paulo scafora. Então, o ProAC LGBT é muito plural. E a participação é aberta: desde o início, sempre se buscou divulgá-lo ao máximo, inclusive por meio de oficinas que ensinam a participar do ProAC. Eu falava de cinco editais: indígena, negro, LGBT, hip hop e cultura popular.

A oficina era prática e levada ao litoral, ao interior, a inúmeras localidades.

Heitor Werneck: Dessa sua gestão na área de cultura, qual é a realização que você traz como sendo seu maior orgulho?

Cássio: Tem dois e nenhum deles é LGBT. O primeiro foi o meu trabalho com as pessoas com deficiência. Assumi Gêneros e Etnias com a missão de fazer a inclusão da pessoa com deficiência na área da cultura e saí de lá deixando um selo de acessibilidade comunicacional. Então, nos editais, colocamos que é desejável que os produtos culturais sejam acessíveis comunicacionalmente. Então, se eu vou fazer um livro, que tenha também a versão em audiolivro, para atender ao público com deficiência visual. Se eu vou fazer uma peça de teatro, que eu tenha algumas sessões com intérprete de libras etc.

O outro orgulho faz o recorte da cultura negra. Não havia um edital específico, pois subentendia-se que essa parcela estava contemplada em outras – por exemplo, na cultura popular, no hip hop. A mim, aquilo soava claramente como um racismo institucional. Então, em 2012, conseguimos instituir um edital ProAC voltado especificamente ao fomento da cultura negra. Essas políticas foram deixadas por mim como “filhos”. E, como produtos, deixei os quatro documentários falando das culturas cigana e negra. Hoje, os ciganos não têm para onde correr. O único espaço de que eles dispõem é a Assessoria de Gêneros e Etnias. Valeu a pena deixar esse legado, o “Kit Etnias”, no qual falamos dos calons, com suas dificuldades com os vizinhos, com o Poder Público, com a marginalização. Veja abaixo os vídeos do “Kit Etnias”:

Ciganos - A roda: vida, tradição, transformação, fé!




Capoeira: a cultura da ginga



Candomblé – Bori: o culto da tradição



Samba: roda, raiz, canção, exaltação, cultura

Heitor Werneck: Existe uma cultura LGBT?

Cássio: Os movimentos têm origens diferentes. Por exemplo, o movimento negro tem raízes culturais como o candomblé, a capoeira, o samba. O candomblé tem até uma língua própria. No caso do movimento LGBT, a nossa cultura é diferente. Mesmo que você resgate Berlim da década de 1940, que foi quando o movimento LGBT teve maior expressão cultural (tudo destruído pelos nazistas), você percebe que sempre estivemos mais ligados à contemporaneidade do que às tradições.

Hoje o movimento LGBT muito ligados às redes sociais, à música tecno etc. Mas, e lá atrás. Bem, no início do cinema, por exemplo, era lá que estavam os LGBTs, porque aquilo era a novidade; o mesmo quando houve o advento da televisão – era ali que estavam os LGBTs. Então nós sempre estivemos mais ligados à modernidade. Mas temos muito a resgatar. Oscar Wilde, por exemplo. Quando ele fala no “amor que não ousa dizer seu nome”, ele faz um discurso muito próximo da nossa realidade atual. Da intolerância pela qual passamos hoje em dia!

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