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Psicóloga transexual conta como é a experiência de expor a própria identidade aos clientes e ajudá-los de maneira única; leia mais

Entender pessoas trans, crossdressers e suas motivações, auxiliando em seu processo de aceitação e transição, é o que move a psicóloga Fê Maidel.

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Psicóloga trans conta como é a experiência de expor a própria identidade aos clientes e ajudá-los de maneira única; leia mais
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Psicóloga trans conta como é a experiência de expor a própria identidade aos clientes e ajudá-los de maneira única; leia mais

Ela própria é uma pessoa trans , que, além de atuar no auxílio psicológico relacionado à identidade de gênero, acumula uma série de experiências profissionais como cineasta, artista plástica, cenógrafa, figurinista, estilista, maquiadora, web designer, atriz amadora... “Toda essa formação influencia meu trabalho hoje, tanto na clínica como em trabalhos com grupos”, ela conta. Confira, a seguir, o ótimo bate-papo que tive com ela:

O que é ser um crossdresser?

Para mim, é oscilar entre maneiras distintas de se expressar, adotando ora as expressões rotuladas como “masculinas”, ora as “femininas”. Dentro da “cartilha” do masculino, deve-se ser constante, sóbrio, prático, e qualquer forma de expressão diferente começa a receber o rótulo de “dândi”, “bichinha” etc. Mas o crossdresser, mais que as outras formas de expressão trans, carregam em si a intermitência, a oscilação e o desejo de expressar mais formas de ser do que aquelas contidas nas caixinhas de gênero.

O crossdresser pode, além de vestir-se como alguém do sexo oposto, também modificar o seu corpo? Por exemplo, colocar silicone ou modificar seu órgão sexual?

A definição de crossdresser é, como afirmei antes, oscilar, “ir e vir”, vestir-se (dress) de forma cruzada (cross). Acho pouco provável que um crossdresser se disponha a modificar seu corpo sem que tenha assumido uma constância maior, mas nada é determinado nesse assunto, tudo é passível de ser construído.

Como é, para você, atender com sua identidade trans? E como seus clientes recebem essa ideia?

Alguns de meus primeiros clientes me conheciam por essa identidade. O fato de ir contando aos clientes sobre minha própria transição, e podendo me expressar como me prefiro, tornou minha atuação mais precisa, aguçada. E o que mais reforçou essa postura foi a receptividade deles, que teve importância fundamental. Hoje atendo todos os meus clientes em minha apresentação feminina.

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Fale sobre o atendimento de questões ligadas à diversidade

A expressão da diversidade, apesar de sempre ter existido, é uma importante faceta de nossa sociedade atual. As pessoas têm descoberto que, ao manifestar sua individualidade, são diferentes umas das outras, e uma das diferenças que surgem e são mais marcantes recaem sobre as questões de gênero e sexualidade. Mas, diferente do passado, as pessoas hoje querem se conhecer, explorar, trocar experiências, e passaram a criticar os rótulos impostos pela “normalidade”. Entender a demanda de cada cliente, explorar o seu significado e os sentimentos que cada um nutre a respeito, bem como a profundidade de cada indivíduo, é a base de meu atendimento.

Há diferenças entre seus clientes trans e os outros?

Em essência, não. Cada pessoa tem sua demanda, única, individual, e por isso, não há diferenças entre os clientes. Todos são únicos e trazem sua necessidade única para a terapia.

No entanto, os clientes que trazem questões relacionadas a gênero contam com a atuação que descrevi como “aguçada, precisa”. Mas não necessariamente relacionada exclusivamente à temática transexual. Pessoas que passaram por separação, que sofrem cirurgia de extração de algum órgão devido ao câncer, que estão repensando sua carreira etc., trazem questões bastante importantes, que podemos ajudar com nosso trabalho. Mas quem tem a questão trans como demanda principal encontra, de cara, alguém que tem explorado o tema há mais de uma década.

Como lida com questões como hormonização, redesignação e “cura gay” em sua clínica?

As questões que envolvem medicação ou procedimentos invasivos devem ser acompanhadas por médicos especializados. No caso de processos de terapia hormonal, antes de qualquer ação, indicamos a urgência em consultar um endócrino de confiança, e caso haja necessidade, de realizar acompanhamento psiquiátrico. Ao propor mudanças tão profundas, a pessoa pode gerar instabilidades enormes em seu equilíbrio, e é necessário avaliar e acompanhar com grande cuidado cada passo.

Quanto à “cura gay”, acredito que aqueles que propagam essa ideia estão defendendo mais sua própria ideologia do que a saúde da pessoa envolvida. Além de banido da prática da psicologia, é um procedimento antiético e desumano.

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Além do atendimento em consultório, que outras atividades você exerce em psicologia?

Tenho prestado serviço voluntário à população trans em situação de vulnerabilidade, junto ao CRD (Centro de Referência da Diversidade). Atuo em uma dinâmica intitulada “Como Sou, Como Me Vejo”, em que as participantes são convidadas a expressar como se veem e de que maneira se comunicam com o mundo. Também presto consultoria a empresas e grupos de trabalho.

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