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Viviany ficou conhecida mundialmente após aparecer "crucificada" durante a Parada SP de 2015, mas a militância só surgiu após anos tentando se aceitar

“Quando eu fiz as cirurgias no rosto, não queria mostrar para ninguém. Queria ver o resultado sem ninguém por perto. Nesse dia, estava sozinha em casa, onde tinha um salão com vários espelhos. Fui até lá e tirei as bandagens para me olhar de frente como mulher transexual. Eu olhei. Não me achei.”

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Ao olhar para trás e ver todo o sofrimento que passou, a transexual Viviany não se arrepende das coisas que viveu
Arquivo pessoal
Ao olhar para trás e ver todo o sofrimento que passou, a transexual Viviany não se arrepende das coisas que viveu

O depoimento acima foi dado pela transexual Viviany Beleboni, que ficou conhecida pela sua performance na Parada SP de 2015, em que apareceu em uma cruz. A transição de gênero pela qual passou foi um processo delicado e muito diferente da maioria das pessoas trans, que, antes de fazer a mudança, costumam não se reconhecer ao olhar para o espelho.

Viviany afirma em entrevista ao iGay que nunca se sentiu feminina. Antes da transição, ela era um homem gay que acabou sendo expulso de casa pela sua orientação sexual e por fazer shows como drag queen. Para piorar o problema, não tinha nenhuma base educacional para conseguir um emprego, já que sofria bullying na escola e não tinha o apoio nem mesmo dos professores e diretores.

“Acabei indo para a prostituição porque não tinha outra coisa para fazer além disso. Eu ia mal nos estudos, apanhava na escola, acabava discutindo sempre com colegas e professores. Fiquei sem amigos ou família.”

Na época, Viviany acabou indo morar em uma casa com várias mulheres transexuais, mas foi o início de um novo problema. “Era um mundo completamente diferente para mim. Todo dia elas falavam que eu era um gay e que não tinha talento. Eu não tinha cabeça na época e poucas amigas”, revela.

Transição de gênero

A verdade é que Viviany não se sentia aprisionada em seu próprio corpo, como muitas pessoas trans se sentem antes da mudança de gênero. Ela primeiro mudou seu corpo para, depois, mudar a cabeça. “As pessoas falavam que eu não ia conseguir, que eu era feia, então coloquei bumbum, peito e, aí, fiz o rosto.”

Hoje, Viviany se aceita como é, mas sabe que sua história é complexa e o oposto de outras trans
Viviany Beleboni
Hoje, Viviany se aceita como é, mas sabe que sua história é complexa e o oposto de outras trans

Ela nunca quis se tornar uma mulher trans , mas fez isso para conseguir ser aceita por pelo menos algum grupo. Mais do que isso, ela precisava provar para si mesma e para os outros que conseguiria ser aceita.

“Fiquei mais de uma semana chorando após todas as cirurgias. Não conseguia me achar na frente do espelho. Foi difícil botar na cabeça que eu tinha me tornado uma mulher trans.”

Hoje, Viviany se aceita como é, mas sabe que sua história é muito complexa e o oposto da maioria das pessoas transexuais. “Eu sou uma mutante. Sou homem, mulher, transexual. Sou um ser humano.”

Ao olhar para trás e ver todo o sofrimento que passou, não se arrepende das coisas que viveu. Ela credita que nada na vida é por acaso e entende que precisava passar por tudo isso para alcançar um objetivo maior.

Preconceito

Só existe uma coisa que faz Viviany não querer ser uma mulher trans: o preconceito. A transfobia faz os transexuais não conseguirem emprego, uma relação duradoura com outra pessoas, terem medo de sair da própria casa para andar na rua, entre outras situações. “O ódio da população, o deboche, as risadas... é preciso respirar fundo para evitar.”

Como forma de estampar todos esses problemas, Viviany fez uma performance usando uma cruz durante a Parada SP de 2015. O caso chamou atenção de todo o mundo, principalmente de grupos religiosos. Ela conta que foi xingada em várias línguas após aquele episódio.

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“Apesar de tudo, muita coisa mudou desde então. Antes, esse problema não era discutido em escolas, não era falado na televisão, mas foi falado em todo o mundo. Durante uma semana inteira só o que se falou foi da minha perfomance.”

Conquistas

Um ano depois da polêmica envolvendo Viviany, ela se tornou a primeira mulher trans a participar de um comercial que passaria em horário nobre na TV aberta. A produção fez parte da campanha da Caixa Econômica Federal para as Olimpíadas 2016. Desde de sua performance, ela também percebeu que mais pessoas estão discutindo o tema e até mesmo fazendo TCCs (Trabalhos de Conclusão de Curso) relacionadas à transexualidade.

Este ano, a novela das 21h da Rede Globo, “A Força do Querer”, também trata do tema . A personagem Ivana, interpretada pela atriz Carol Duarte, vai se revelar um homem trans ao longo da trama, e os telespectadores poderão entender o que se passa na cabeça de uma pessoa que nasce em um corpo do qual não se identifica.

Viviany conversou com a autora da novela enquanto a personagem estava sendo criada e está gostando da forma como o tema está sendo abordado. Ela revela que a autora vai fazer um “nó” na cabeça de muita gente tratando das diferenças entre orientação sexual e gênero e os termos transexual e travesti .

Ivana está se mostrando uma mulher que não se identifica com seu corpo e órgão femininos, mas começa a entender que não sente atração por mulheres, mas, sim, por homens. Há também a personagem do ator Silvero Pereira, uma travesti que foi agredida pelo próprio irmão.

“Cada um tem uma visão diferente, mas eu vejo travesti como aquela pessoa que aceita o próprio corpo como ele é. Ela se vê como mulher, mas não vê problemas em continuar com o órgão masculino. Já a transexual não. Ela se vê como mulher, não consegue se olhar no espelho e ver seu órgão masculino – ou vice versa no caso de homens trans.”

Parada SP 2017

Viviany vai estar novamente na Parada SP este ano, mostrando que é preciso amor e união em todos os grupos do mundo
Arquivo pessoal
Viviany vai estar novamente na Parada SP este ano, mostrando que é preciso amor e união em todos os grupos do mundo

Viviany não poderia deixar de falar sobre o que está preparando a parada deste ano – mesmo ainda sendo um segredo. Ela revela poucos detalhes, mas a sua performance deste ano vai pedir união e paz no meio LGBT e no mundo, além de homenagear as vítimas do atentado contra uma boate gay em Orlando , nos Estados Unidos, no ano passado.

“A Parada SP é uma festa e um ato político. Depende de cada um. Não tem como dizer o que é certo e o que é errado. Algumas pessoas vão para fazer festa e outras para militar”, completa a transexual que, com certeza, se encaixa como uma das militantes do evento.

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