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Sempre animada, Paulette Pink conta como sua personagem nasceu, como ela a ajudou a se descobrir mulher e sobre os caminhos que está trilhando

Glamorosa, forrada de brilho, radiante e impecável nos mínimos detalhes, Paulette Pink não perde a pose – nem a piada – diante de dificuldade alguma. Após estudar teatro e artes plásticas, a drag queen se tornou um ícone entre as outras personagens brasileiras, processo que a colocou no caminho que trilha até hoje e a fez se descobrir mulher.

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Além de interpretar a drag queen, Paulette Pink usa suas habilidades como artista plástica para criar figurinos e uniformes
Divulgação
Além de interpretar a drag queen, Paulette Pink usa suas habilidades como artista plástica para criar figurinos e uniformes

Filha de pais religiosos, Paula (a mulher transexual por trás da drag queen ) nasceu e cresceu em Santa Adélia, uma cidade no interior de São Paulo. Durante a infância, não foram poucas as situações que poderiam ter tirado o brilho dela para sempre. “Sempre fui artista. Desde criança, já pintava, imitava a Mara Maravilha na escola... Mas também já sofria bullying, já apanhava”, conta ela, enfatizando que sempre bateu de frente com esse tipo de questão e que, com o tempo, impôs o respeito que merecia aos colegas de escola e aos vizinhos na pequena cidade.

Paulette conta que, já na infância, sabia que não era como os outros meninos. “Eu queria fazer roupinhas de menina com a minha mãe, que era costureira, e já tinha vontade de estar com as meninas na escola. Os meninos me isolavam, os pais diziam para ‘não andarem com o filho do Bentinho’”, lembra. Segundo ela, a família sempre soube que havia algo de diferente nela, e sempre tentavam arrumar formas de reprimir seus anseios. “Eu era uma borboleta e eles tinham medo de eu querer abrir as asinhas e voar, sair do casulo, aí tentavam me segurar com a religião”, afirma Paulette.

No início dos anos 90, Paulette resolveu que era hora de buscar uma carreira que refletisse suas aptidões artísticas e deixar a pequena Santa Adélia, assim como a casa que a aprisionava. Foi então que ela se mudou para São Paulo e passou a cursar, ao mesmo tempo, artes plásticas na Unesp (Universidade Estadual Paulista) e teatro na USP (Universidade de São Paulo).

Ela afirma, porém, que as coisas não foram fáceis após deixar a casa dos pais. Ao chegar em São Paulo, Paulette viveu em uma favela durante algum tempo até que um professor da faculdade a convidou para trabalhar com ele. “Fazíamos pinturas de profundidade. Ele notou meu talento e me chamou para pintar para ele e foi assim que consegui sair de lá e aluguei uma kitnet”, conta.

Se descobrindo mulher

Foi nessa época que a vida de Paulette teve uma reviravolta que definiria seu futuro. Convidada por alguns amigos, ela abraçou a aventura de se vestir de mulher para uma festa. Comprou um maiô e, como na época era difícil encontrar calçados femininos que fossem do tamanho de seus pés, arrumou um par de patins para usar no evento. “Eu estava parecendo um demônio”, brinca.

Naquela noite, os convidados da festa foram apresentados a um rascunho de Paulette Pink. “Foi uma festa cheia de imprensa. Na hora que cheguei, de patins, foi uma loucura, saí em todos os jornais. Vieram perguntar qual era o meu nome, e eu dizia que era ‘Paulette Power’, mas uma pessoa disse que, por eu estar toda de rosa, deveria me chamar Paulette Pink. As pessoas então começaram a me ligar e me chamar assim”, conta.

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Além de ter gostado da sugestão de nome, Paulette também se apoiou em princípios da Pop Art e do artista Andy Warhol, famoso por seu trabalho envolvendo a repetição da imagem de latas de sopa da marca Campbell’s. “Andy Warhol dizia que a repetição gerava prazer. Era Paulette Pink para todo lado, então usei esse lema e adotei o nome”, conta.

Após a aparição, que atraiu olhos curiosos por toda parte, Paulette começou a ser chamada para fazer performances em shows e, logo, a personagem explodiu na mídia. Ao mesmo tempo, ela participava de um projeto chamado “Enturmando”, que buscava sociabilizar crianças carentes utilizando a arte como instrumento, mas afirma que não estava satisfeita com aquilo. “A gente dava carinho e amor para elas, aí elas viam cenas violentas em casa e voltavam mais violentas ainda. Como não conseguia mudar o mundo dessa forma, resolvi mudar o mundo fazendo as pessoas rirem”, conta.

A partir desse momento, Paulette passou a viver dos shows que fazia e, logo, sua carreira como a exuberante drag queen começou. Além das apresentações em casas de shows, festas e eventos em geral, ela passou a ser convidada pare participar de programas de televisão – como o “ Beija Sapo ”, com Daniella Cicarelli e o famoso quadro “ Táxi do Gugu ” –, e campanhas publicitárias – para a General Motors, por exemplo. Esse, porém, não foi apenas o nascimento de Paulette Pink, a personagem, também foi o nascimento de Paula Sabbatini. Segundo ela, o personagem a dominou e ela começou a se sentir melhor consigo mesma quando estava caracterizada.

Sucesso Brasil a fora

Se engana quem pensa que Paulette Pink só fez sucesso no Brasil. Após começar a fazer shows e aparições midiáticas, passou a sentir a necessidade de se reinventar. “Não aguento fazer a mesma coisa sempre, aí comecei a fazer outros personagens e imitar a Cher”, explica. Após algumas cirurgias, a semelhança entre a drag queen e a cantora americana se tornou notável e ela foi descoberta por uma companhia de teatro alemã, a Pulverfass Cabaret. “Eles disseram que já tinham várias personagens e que queriam contratar uma drag ou uma trans que se parecesse com a Cher. Eu fui e acabei ficando por lá durante cinco meses”, explica.

Paulette também passou a se caracterizar como a cantora Cher. As semelhanças com a artista chamaram atenção de um grupo de teatro alemão com o qual ela se apresentou durante cinco meses na Alemanha
Acervo pessoal
Paulette também passou a se caracterizar como a cantora Cher. As semelhanças com a artista chamaram atenção de um grupo de teatro alemão com o qual ela se apresentou durante cinco meses na Alemanha



A respeito de pessoas que a inspiram, tanto na vida quanto na criação dos personagens, Paulette cita Carmen Miranda e Dercy Gonçalves . Ela afirma que sempre foi apaixonada pelo estilo de Carmen e que, apesar de frequentemente demonstrar preconceito contra pessoas LGBT, ela admira o jeito “desbocado” de Dercy.

Transexualidade

De acordo com ela, há muita diferença na forma com que as pessoas lidam com a transexualidade e coisas do gênero no Brasil e na Alemanha. “Tem peito e cabelo, é trans, é mulher. Nunca passei por situações de preconceito lá”, conta. Após cinco meses se apresentando fora do país de origem, Paulette retornou ao Brasil, mas por um motivo muito especial: finalmente havia sido autorizada a mudar seu nome de Paulo Sergio para Paula.

Durante uma passagem pelo Brasil, Cher pediu para conhecê-la e as duas jantaram juntas
Reprodução
Durante uma passagem pelo Brasil, Cher pediu para conhecê-la e as duas jantaram juntas


Aqui, o preconceito que começou na infância, continuava – e a arma de Paulette contra ele seguia sendo o humor. “Por muito tempo, quando as pessoas me chamavam de ‘ele’, me incomodava. Aí eu passei a brincar, perguntava se as pessoas estavam vendo um espírito, se tinha algum ‘ele’ ali comigo”, brinca.

Ela afirma também que foi difícil que os pais e outros parentes próximos aceitassem o caminho que ela havia escolhido. “Achavam que eu ia virar travesti , e a imagem que se tem de travestis é a de quem se prostitui. Essa era a preocupação da família”, afirma. Esse foi outro preconceito que ela conseguiu vencer; hoje, virou uma celebridade em Santa Adélia. “Mas minha mãe, quando percebe que virei o centro das atenções, começa a me chamar de Paulo”, conta.

Afinal, quem quer se preocupar com preconceito quando a própria Cher vem ao Brasil e te chama para um jantar? 

Transformistas x drag queens

Paulette afirma que tudo o que alcançou na vida, o fez com base em seu talento. Segundo ela, antes do surgimento da personagem, o conceito de drag queen era bastante diferente. “Antes de mim, havia os transformistas, ou seja, rapazes que se vestiam como um artista, Madonna, Liza Minnelli, etc., para se transformar em alguém que já existia. Eu criei minha própria personalidade, eu era a Paulette Pink. Para mim, ela era uma grande artista, glamorizada, gosta de bordados, brilho, figurinos que têm a ver com o briefing do evento”, explica.

Além de ter inovado no personagem, Paulette também inovou na forma de trabalhar; a drag conta que ela foi uma das primeiras a abrir espaço na mídia e tratar as apresentações como algo profissional, exigindo um cachê em troca. Para ela, a caracterização deve ser valorizada, e afirma que o processo é uma arte que resgata o glamour e a deusa interior daquela pessoa.

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Novidades e renascimento

Desde que começou a fazer shows, Paulette nunca parou. Até hoje, com 47 anos, faz aparições em festas e outros eventos, mas, além disso, também criou um negócio próprio. “Abri uma empresa há alguns anos, chamada ‘Cabelo, Maquiagem e Figurino’. Fazemos uniformes para empresas, mexo com visagismo, com a criação de personagens, maquiagens para eventos e figurinos de teatro, que amo!”, conta.

Até hoje, aos 47 anos, a drag queen ainda faz apresentações em eventos e está até trabalhando em uma música
Divulgação
Até hoje, aos 47 anos, a drag queen ainda faz apresentações em eventos e está até trabalhando em uma música

A drag queen não para por aí; segundo ela, sempre achou importante explorar todas as suas capacidades artísticas, e conta que está trabalhando em uma canção chamada “Hora de Brilhar”, primeiro projeto em que não utiliza humor. “Ela fala sobre como eu estou renascendo das cinzas como uma fênix”, finaliza.

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