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Sair do armário é um passo difícil, mas não se está sozinho ao tomá-lo. E suas consequências não são apenas no âmbito individual, mas também no coletivo

O processo de sair do armário é, muitas vezes, retratado como uma ação individual, cujas consequências se limitam à vivência pessoal de quem o faz. Em razão disso, é comum o discurso, especialmente por parte de celebridades, de descaso em relação a se assumir gay, lésbica ou bissexual publicamente. É como se o fato de a sexualidade ser algo pessoal conflitasse com o entendimento de que ser LGBT é algo político.

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Reprodução
"Não estou 'saindo do armário', porque nunca estive dentro de um", disse o ator

Entretanto, os efeitos de se assumir gay, lésbica ou bi perante o mundo têm grande valor para a comunidade LGBT como um todo, além de ser um processo extremamente importante de auto-aceitação e reconhecimento, segundo os membros dessa comunidade.

O assunto voltou a ganhar força com as notícias em torno do ator Leonardo Vieira , que após ser visto beijando outro homem, disse em uma carta aberta que não precisava comentar a sua sexualidade abertamente, já que familia e amigos sempre souberam que ele é gay. 

Sobre essa questão, conversamos com uma mulher e um homem militantes da causa para entender a dimensão do ato de sair do armário para a luta LGBT.

Se assumir gay, lésbica ou bissexual é um processo árduo, mas não há quem queira voltar atrás
Flickr/Eurritimia
Se assumir gay, lésbica ou bissexual é um processo árduo, mas não há quem queira voltar atrás

"A escolha de se assumir é a de não esconder quem você é dentro de um mundo que nega a sua existência; é um passinho pequeno dentro do sistema em que vivemos, mas faz diferença na vida de muita gente". É o que afirma Tais Baldívia, de 24 anos, arquiteta lésbica e feminista.

Com firmeza, ela declara que se assumir lésbica é importante tanto para a luta das mulheres como para a luta LGBT: "Não há um momento em que eu ou outras mulheres não-heterossexuais falemos sobre a legitimidade da nossa sexualidade que não atinja alguma mulher que não está conseguindo passar por esse processo sozinha e vê no nosso discurso um acalento".

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Bruno de Lima, estudante de 20 anos, concorda com o posicionamento de que para o coletivo é muito importante se assumir gay, lésbica ou bissexual. ”Sair do armário é automaticamente se juntar à luta, mostrar que existimos, que somos numerosos e que resistimos, acima de tudo", reitera, afirmando que esconder a própria sexualidade só beneficia os opressores.

Ele lembra, porém, que não se pode cobrar de alguém a saída do armário, ao passo que a subjetividade e a vivência de cada um devem ser levados em consideração. "Não posso culpar alguém de 50 anos que vive dentro do armário. Família, emprego, amigos, tudo isso reprime, mesmo que inconscientemente", afirma. "O tempo de cada um deve ser respeitado, mas a pertinência deste processo não pode ser ignorada".

Este é um passo importante a ser dado, vez que "afirmar qualquer sexualidade que não corresponde à estritamente heterossexual questiona, ainda que individualmente, a cultura compulsória da heterossexualidade”, defende Taís. É o caminho a ser trilhado para que, eventualmente, sair do armário não seja mais obrigatório, pois a sexualidade de cada um é, como lembra Bruno, algo natural.

A necessidade de assumir publicamente ser homossexual ou bissexual é, muitas vezes, não compreensível para pessoas heterossexuais. Tais explica: “afirmar-se de outra sexualidade que não a heterossexual é importante a partir do momento em que há um pensamento majoritário na sociedade de que nós somos promíscuos, pecaminosos, errados, que estamos em uma fase, que na verdade isso é uma doença, ou até que simplesmente não existimos. A pessoa heterossexual nunca passou e nunca passará por retaliações sociais por conta de sua sexualidade, e portanto não precisa resistir a isso”.

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São muitos os obstáculos que têm de ser ultrapassados para se assumir gay, lésbica ou bissexual, mas viver sem a necessidade de se esconder e, além disso, ter a promessa de que esse é um ato para que as próximas gerações não sofram com esses mesmos percalços compensa as dores que sair do armário causa. "Se assumir publicamente LGBT é o maior ato de luta que um LGBT pode fazer; é o mais difícil e o mais importante", afirma Bruno.

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