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No Dia da Visibilidade Lésbica, conversamos com a advogada e ativista Rute Alonso sobre visibilidade, direitos e lutas das mulheres lésbicas

“Quando eu me descobri lésbica ? Eu acho que nunca fui nada diferente disso”. Esta é Rute Alonso da Silva. Formada em Direito, Rute é sapatão e não vê menosprezo na alcunha. Atua como coordenadora de um Centro de Defesa e Convivência da Mulher, espaço que atende mulheres em situação de violência na Zona Leste de São Paulo.

A ativista lésbica e feminista dividiu com o iGay, no Dia da Visibilidade Lésbica , um pouco de sua trajetória, sua luta e seus posicionamentos políticos. E de cabeça erguida, Rute garante: "sapatão não é uma ofensa".

Rute Alonso, ativista lésbica e feminista
Reprodução/Youtube
Rute Alonso, ativista lésbica e feminista


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iGay: Quando você percebeu que sua sexualidade não correspondia com a sexualidade normativa (heterossexualidade)?

Rute: Perceber que eu sou diferente das outras amiguinhas e tudo isso eu remeto a quando eu tinha oito anos. Lógico que não era uma questão sexualizada, mas era uma percepção de que eu era diferente das outras pessoas. Eu via minhas amiguinhas com namoradinho na escola e, no meu caso, não. Eu não tinha essa vontade.


iGay: Se você se sentir confortável, gostaria que você contasse situações de violência , dentro e fora do ambiente familiar, que você viveu por causa de sua sexualidade ao longo de sua vida e foram fundamentais para construir seu posicionamento político.

Rute: Falo sim, bora lá. Eu fui excluída da minha família por ser lésbica bem cedo e também expulsa da religião . Meus relacionamentos ainda não são vistos como relacionamentos de fato, mas relacionamentos secundários, um que não tá valendo. E fora o cotidiano, estar na rua e as pessoas se sentirem tranquilas para xingarem, "sapatão", tudo mais. Como se a maneira como corto meu cabelo, minha roupa, desse uma permissividade para que o outro me violente.

E dentro o ambiente familiar, lembro parentes vociferando a respeito da pena de morte e se virando para mim falando: “É, você cometeu um pecado, então, no caso, também tem que ser punida”. Algumas coisinhas assim que vão marcando nosso dia-a-dia, nossa existência e nossa subjetividade.

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iGay: Infelizmente, marcam bastante. E sobre sua vida, mais amplamente, o que te formou enquanto ativista feminista e lésbica?

Rute: Não dá para não passar por aquele ponto de que, com a questão da sexualidade, a gente tem um período de negação. E eu tinha um vínculo com a religião muito forte, mas chegou um momento que eu entendi que tinha alguma coisa errada também por ser mulher. Em casa mesmo, eu brigava com meu pai e falava: “Espere aí, você vai me respeitar agora que eu trabalho e coloco dinheiro em casa. Eu componho essa casa, por que eu não posso dar minha opinião, fazer parte da tomada de decisão?”. Ver o quanto do assédio na rua, o assédio dentro das espaços de trabalho, sempre sexualizante, [percebe-se que] tá errado.

Sapatão não é uma ofensa, é minha liberdade e exercício da minha sexualidade"

Foi então que me aproximei do feminismo, comecei a entender o que é essa articulação entre as mulheres e [o que é] pensar em uma igualdade em direitos, até passar a me relacionar com outras mulheres. E então, como é que é isso pra mim, o quanto que eu também tenho de pensar nas minhas atitudes para não reproduzir machismo, já que a gente é construída numa sociedade machista. Tento não reproduzir com minhas companheiras, nas minhas relações com outras mulheres também. E também não entender que ser lésbica é uma ofensa, sapatão não é uma ofensa, é minha liberdade e exercício da minha sexualidade.

Mas as pessoas ainda utilizam isso como um xingamento, como algo para depreciar. Então foi quando eu percebi que sozinha não dá pra fazer esse enfrentamento. A princípio, eu buscava respaldo com a companheira que tinha à época, mas também não era suficiente. Então eu me aproximei de um coletivo feminista, União de Mulheres , e eu comecei a entender ali o que é feminismo; porque existem essas desigualdades, que eu sinto empiricamente; qual é esse lugar da mulher na sociedade; e transformar um pouco dessa opressão em potência para a luta. 

Entendo que minha aceitação, a aceitação da minha sexualidade, vivenciar minha sexualidade de uma forma mais plena também permitiu eu me iniciar na luta. Eu não consigo ver uma inserção na luta sem que eu vivenciasse minha sexualidade de uma forma plena. É uma compreensão de que isso não é uma vergonha, um pecado , nem nada do gênero.

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iGay:  Esse é o Mês e Dia da Visibilidade Lésbica e sua fala sobre viver sua sexualidade de forma plena se trata bem sobre visibilidade. Qual é a importância dessa data, para você, tanto por um panorama pessoal como político e de luta?

Rute: Acho que eles acabam andando lado a lado. É super interessante eu ver no calendário a palavra lésbica, é mesmo uma visibilidade. Sendo uma palavra tão pouco querida, ainda há pessoas, até dentro do próprio meio LGBT, que veem como uma palavra agressiva. Quando a gente marca essas datas, [significa que] tem que ser dada alguma atenção especial em questão de acesso a direitos .

Em outra perspectiva, pensando mais no coletivo, é quando a gente tem um sujeito político, e a lésbica é um sujeito político, que a gente consegue reivindicar políticas públicas especificas. Quando a gente fala de acesso das lésbicas à saúde , e ter uma abordagem adequada da equipe de saúde, eu posso pensar em ações pontuais em datas comemorativas, mas que entram em um calendário, entram em uma programação. A luta sai do armário. Quando temos o Mês da Visibilidade Lésbica, a mulher sapatão saiu do armário.

O que não quer dizer que com isso a gente já tem direito, que com isso já tá tranquilo e favorável, não. A gente vê, ainda mais com esse governo golpista, quantos direitos nós temos cerceados, por homens e para homens. O pronunciamento do ministro da Saúde fala que os homens cuidam menos da saúde porque trabalham mais que as mulheres, então olha a cabeça do chefe de Estado. É muito importante e não dá para abrirmos mão de termos uma data, de fazermos ações nessa data e de sermos visíveis, porque a gente ainda é invisível.

Rute Alonso em 1° Encontro de Mulheres da Intersindical Central da Classe Trabalhadora
Divulgação/Facebook
Rute Alonso em 1° Encontro de Mulheres da Intersindical Central da Classe Trabalhadora


iGay:  Para você, quais as conquistas e o que ainda falta ser alcançado pelas mulheres lésbicas?

Rute: Bom, lésbicas ainda são vistas como algo que não é sério, muito porque não tem o falo na relação. Por isso, há várias coisas não se discute, como a prevenção de doenças sexualmente transmissíveis em relações sexuais entre mulheres . Para que alguém vai pensar em prevenção se nosso sexo é visto como brincadeira? E isso é só um exemplo.

De conquistas [tem] o fato de, por exemplo, acho que é a 14ª Caminhada das Mulheres Lésbicas esse ano. A gente tá na rua, a gente existe. Não é como quando a gente era criança, a loira do banheiro [risos]. A mulher lésbica está aí, ela pode ser professora, ela pode ocupar um cargo no executivo, ela pode ser a médica que me atende, a garota do banco, ela pode ser qualquer pessoa. Conquista é tornar visível. E além disso, temos políticas públicas voltadas para a saúde de pessoas LGBT, aprovação da união estável de pessoas do mesmo sexo, tudo derivado dessa visibilidade, ainda que engatinhando.

Mas os retrocessos que a gente está tendo agora com esse governo - como o fechamento da Secretaria de Políticas para Mulheres, que com isso temos uma restrição de recursos para resolver problemas de educação popular, para desenvolver programas de publicidade em relação a direitos - vão impactar diretamente na vida das mulheres e vida das mulheres lésbicas.


iGay: Para você, o quanto esse preconceito é uma questão cultural? 

Rute:  A partir do momento que eu não discuto, não aproximo e tiro desse cenário da aberração e do pecado, que ora a ciência, ora a igreja colocam, eu não vou conseguir modificar essa cultura. É uma cultura de, quando veem duas mulheres juntas, vão sempre colocar no fetiche de um cara, porque falta um pau ali na relação. Ou então ele entra, ou a gente desqualifica essa relação, acredita que é uma relação de segunda categoria. E vem as violências também. O estupro é uma forma de disciplinar esse corpo indisciplinado. Não são estranhos relatos de mulheres lésbicas que sofreram estupro corretivo. O quanto desse medo que a gente tem é por saber que os agressores serão muito mais agressivos, perdoe a redundância, identificando a mulher como lésbica

A mudança de cultura é algo que lutamos diariamente. A televisão ainda ajuda alguma coisa, mas, um passo que ela dá pra frente, ela mesma da quinze para trás. Quando eles produzem casais lésbicos, são sempre dentro do padrão. Nunca é um casal de lésbicas negras, casal de lésbicas gordas… Enfim, toda uma diversidade que não ta contemplada. Reforça que a mulher só pode ser lésbica se satisfaz a demanda do fetiche masculino.


iGay: Para finalizar, Rute, o que é, para você, essa visibilidade?

Rute: Visibilidade não é só a gente pensar nessa data ou numa caminhada, a visibilidade existe no cotidiano. Quando tomamos decisões como “vamos nos casar” ou decido andar com a minha namorada de mãos dadas, são coisas que colaboram para essa visibilidade. Não é só fazer um cartaz e levar para a rua, existem muitas outras formas de ser visível, e ser visível marcando a necessidade de ter direitos garantidos e tê-los protegidos também. Com alguns anos no role, eu comecei a atenuar meu discurso, no sentido de que ir para a rua e gritar, para mim, seria a forma máxima de expressão, mas não. Quando as companheiras decidem ter filhos e registrar a criança no nome das duas mulheres, por exemplo, essa é uma forma de visibilidade. Tudo isso somado é o que resulta no nosso enfrentamento diário a essa sociedade machista, lesbofóbica, transfóbica, classista, racista, e todos os outros istas ai que a gente luta contra, e é uma luta de todo dia. A luta da mulher sapatão é todo dia.

Visibilidade não é só a gente pensar nessa data ou numa caminhada, a visibilidade existe no cotidiano"


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