Tamanho do texto

Renan Oliveira: "Eu, com minha pele, meu corpo e meu peso, sou bom demais para ele. Não é uma questão de querer rebaixar o outro e fazer ele se sentir inferior não"

Renan Oliveira:
Reprodução
Renan Oliveira: "Ele é bonito demais para você. Mas eu sou bom demais para ele"

Eu havia acabado de voltar de viagem. Meu retorno coincidiu com o feriado de sete de setembro e todos os meus amigos estavam ocupados com suas famílias e suas programações paulistanas cuidadosamente planejadas com semanas de antecedência.

Em busca de aventura para aliviar o tédio, puxei papo com um cara que eu havia tido um “match” no tinder. Já estávamos conversando esporadicamente há alguns meses. Sempre márcavamos algo, mas por forças maiores, não rolava. Até que no feriado nós finalmente saímos.

Eu confesso que já havia dado bolo nele algumas vezes por tê-lo achado bonito demais, mas dessa vez eu resolvi não me importar com o fato e fui encontrá-lo, afinal, se ele queria sair comigo certamente eu tinha algo de interessante.

Eu nunca me senti tão mal com alguém, mas não era culpa dele: era minha insegurança

Marcamos na catraca do metrô Santa Cecília. Chegando lá, encontro o que eu já imaginava: um homem na casa dos seus quase 40, pele bronzeada, loiro, olhos azuis e corpo definido. Ponderei por um instante em ir embora.

Eu, com meus 19, sofro com um corpo cheio de machucados devido a um problema de pele que me obriga a fazer uso constante de corticóides, o que acarretou em um sobrepeso e uma gordura localizada que realmente me incomoda. E como nós jovens gays bem sabemos, muitas vezes o meio gay é ditado pela norma padrão do homem musculoso, sarado, magro e viril. E eu estou bem longe de ser qualquer uma dessas coisas.

Fomos para um barzinho. Ele pediu vodca e h2o limão e eu pedi um suco de maracujá. Papo vai, papo vem, descubro que o bonitão é viajado, inteligente, culto e charmoso. Internamente eu já mentalizava que ele era um possível cafajeste, mas eu quis me arriscar. O lado bom de ter tido algumas (várias, como todo gay) decepções amorosas é que com o decorrer do tempo você se torna menos apto a sofrer com essas decepções. Você para de criar expectativas.

Fomos para o apartamento dele: era minúsculo. Tinha uma sala que também servia de quarto, uma cozinha e um banheiro (com banheira! Achei chic). A decoração era minimalista: não havia TV nem quadros, apenas um sofá branco, uma luminária, uma cama de casal box e estantes. Tantas quanto podiam caber no cômodo, cheias de livros de todos os gêneros possíveis (aliás, era tão eclético que eu particularmente duvido que ele tenha lido metade). As roupas também ficavam guardadas em uma das estantes.

Continuamos conversando. Ele insistia na vodca com limão e eu permanecia nos sucos naturais. Ele se aproximava, me tocava, me abraçava. Ele era sedutor e bom de mais para ser verdade, eu era inseguro e tinha medo de estar ali. Eu voltei para a defensiva.

Algum tempo depois estávamos nus na cama box dele. Como eu havia imaginado, ele tinha um corpo lindo: músculos definidos, nenhuma marca na pele. Eu, completamente machucado e sem nenhuma parte do corpo torneada.

Eu nunca me senti tão mal com alguém, mas não era culpa dele: era minha insegurança.

No dia seguinte nós dois saímos novamente. Uma amiga dele inventou uma festa surpresa para uma outra amiga dela (que ele também não conhecia) em um bar karaokê chamado Coconut. Lá, eu continuava insistindo nos sucos de maracujá e ele variando entre vodca com tônica e vodca com limão. Como no dia anterior, ele mantinha a mesma postura em público: me abraçava, me beijava, ficava próximo à mim.

Em determinado momento chegaram alguns outros caras gays no lugar e eu não pude deixar de notar que eles olhavam para ele, apontavam e faziam comentários para depois, entre risinhos nervosos e cochichos, ficarem com uma expressão de indignação ao ver aquele cara me beijando.

Reprodução
"Se alguém se interessar por mim, essa pessoa está ciente de todos esses pontos, e se ela estiver realmente afim, esses pontos não significam absolutamente nada para ela"

No decorrer da “festa surpresa”, a irmã da aniversariante veio conversar com nós. Começou com os comentários clichês de sempre: “mas vocês nem parecem gays”, “não gosto de gay bixinha, acho desnecessário”, “não sei para que ficar com um cara que parece mulher se você gosta de homem”, e foi destilando. Um comentário pior que o outro. Então, ela se vira para mim e diz:

“Olha, você tem muita sorte de estar acompanhado por ele”

E apontou para o sósia do Brad Pitt que estava do meu lado.

Eu nunca havia me sentido tão mal, inseguro ou “não bom demais” como naquele instante. Naquele momento eu entendi que caras bonitões não saem com caras comuns iguais a mim. Era um evento raro, uma exceção milagrosa na vida gay. Estar acompanhado por aquele cara era uma dádiva e eu deveria agradecer muito pela sorte que eu tive. Segundo eles, eu deveria agradecer muito por ele me fazer companhia e me deixar ficar do lado dele.

Olha, você tem muita sorte de estar acompanhado por ele”

Eu fiquei extremamente infeliz nos dias seguintes. Eu nunca havia odiado tanto meu corpo, minha aparência e minha pele, o que é bem estranho, pois normalmente eu gosto de mim mesmo. Eu nunca fui de ligar para músculos, peso, pele ou afins. Tanto em mim quanto nos outros. Porém, repentinamente ele havia virado o meu parâmetro de ideal, o que eu iria exigir de mim mesmo.

Nunca a presença de alguém havia me feito tão mal de forma indireta.

Nas semanas seguintes, ocorreu o que eu já imaginava que iria acontecer: tentei marcar alguns programas, ele sempre recusando e dando desculpas. Quase não nos falávamos e quando ele marcou algo, desmarcou no dia. Primeiro eu pensei que era culpa minha e do meu corpo. Que eu não era bom ou bonito o bastante para sairmos novamente. Depois eu entendi que ele é só mais um desses tantos outros, e nesse mesmo instante minha insegurança passou. A questão não era mais que ele era bonitão demais para mim ou que eu não era merecedor da companhia dele.

Nunca a presença de alguém havia me feito tão mal de forma indireta

O ponto chave começou a ser que eu era bom demais para ele. Não que ele seja um babaca ou algo do tipo: ele é só um cara normal que quer sexo casual e que, de forma indireta, me deixou inseguro e reflexivo acerca de uma série de coisas.

Eu finalmente entendi que não tem nada de errado com meu corpo, rosto ou pele (bem, talvez um pouco com a pele). Se alguém se interessar por mim, essa pessoa está ciente de todos esses pontos, e se ela estiver realmente afim, esses pontos não significam absolutamente nada para ela. Provavelmente não significavam nada para ele, afinal, mesmo para sexo casual é preciso se atrair minimamente por alguém.

Eu, com minha pele, meu corpo e meu peso, sou bom demais para ele. Não é uma questão de querer rebaixar o outro e fazer ele se sentir inferior não.

É uma questão de amor próprio.

Renan traz informação, militância, entretenimento e estilo de vida semanalmente por aqui;

Renan Oliveira é o novo colunista do iGay
Arquivo pessoal
Renan Oliveira é o novo colunista do iGay

O paulistano Renan Oliveira, 19 anos, começou a produzir conteúdo na internet para se conectar com o mundo e foi capturado pelo iGay para mostrar seu ponto de vista bem-humorado semanalmente por aqui. Futuro estudante de cinema, a maior inspiração na telona é o cineasta Xavier Dolan (sim, o que fez "Hello" da Adele). Já no Youtube, gosta do Luba e da Jout Jout. Pisciano sonhador, ainda acredita em "Telephone" part 2 (aquele clipe da Lady Gaga com a Beyoncé, saca?). Quer mais? Assista ao canal Renan e as Focas .


VEJA TODAS AS NOTÍCIAS DO IGAY

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.