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Fenômeno da TV americana, reality “RuPaul’s Drag Race” aumenta visibilidade de drag queens e shows lotam no Brasil

Ingressos esgotados semanas antes dos shows. Filas enormes para encontrar o artista durante segundos. Inspiração para jovens e adultos. Esses são alguns dos efeitos da presença de drag queens estrangeiras no Brasil. Mas elas não surgiram do nada.

Márcia Pantera, Bianca Del Rio e Tiago Liberato em apresentação em São Paulo
Divulgação/Priscilla
Márcia Pantera, Bianca Del Rio e Tiago Liberato em apresentação em São Paulo

Bianca Del Rio, Alaska Thunderfuck, Adore Delano e Willam Belli são algumas artistas gringas que já passaram pelo Brasil. Elas são ex-participantes do reality “RuPaul’s Drag Race”, que reúne, a cada temporada, cerca de 14 talentos na disputa pelo título de próxima drag superstar, além do prêmio de 100 mil dólares.

Ser drag é esmagar a teoria binária de gênero e jogar na cara da sociedade que existe um espectro infinito entre o feminino e o masculino.

“O programa trouxe mais visibilidade para o mundo drag e mostrou o que, na verdade, vai muito além do vestir-se como uma mulher”, afirma Mariana Piovezan, de 20 anos. Ela é fã do programa e já foi a diversos shows do gênero.

RuPaul é a drag queen que comanda a competição. Uma das performers mais conhecidas nos Estados Unidos, ja trabalhou como modelo, lançou CDs, livros, atua e serve de inspiração, tanto para as iniciantes quanto para as artistas mais experientes.

Drag queens nacionais

De intérpretes com anos de experiência a novos talentos, a cultura ganha força a cada show nas casas noturnas e eventos voltados ao público LGBT.

Weslei se apresenta como Maya Chapman há seis meses
Reprodução/Instagram
Weslei se apresenta como Maya Chapman há seis meses

Weslei Wernner, de 19 anos, começou a se montar há seis meses, depois de uma festa em Curitiba. Com o nome artístico Maya Chapman, ele se motiva a cada dia com as referências drags do programa de TV e com os talentos brasileiros.

“Tem sido uma peça fundamental no mundo LGBT, apaixonando não somente as pessoas deste meio, mas também todos que conhecem o trabalho”, diz Weslei.

Heteronormatismo e machismo

O mais experiente Murilo Araújo trabalha há dois como performer e ressalta a importância da cultura drag para a sociedade. “Nossa formação cultural é muito heteronormativa e machista. Quebrar esses paradigmas sociais é uma busca individual que nem todos estão dispostos a enfrentar”, afirma Murilo.

Ele diz ainda sofrer preconceito ao se montar. “Fazer drag desconstrói a ideia de gênero. Dá realmente um nó na cabeça das pessoas. E é essa a importância: repensar o que é humano, com humor, com entretenimento, com beleza, com carisma. É realmente um desafio e tanto!”, completa.

Faux queen: mulher que adota o estilo das drag 

A cultura drag queen é conhecida ao ser representada por homens, sendo eles gays ou não, montando-se como uma mulher. Porém, há também mulheres que se apresentam e se identificam com o trabalho, as faux queen.

“No começo, a família não entendeu o que era, tive que abordar minhas saídas como uma fantasia. Depois, expliquei e aí veio aquela pergunta: o que uma mulher cis*, heterossexual, quer dentro de uma festa tradicionalmente voltada para o público LGBT?”, revela Maddie Ruby.

Maddie Ruby, à direita, com Katya Zamolodchikova, participante da sétima temporada do Drag Race
Reprodução/Facebook
Maddie Ruby, à direita, com Katya Zamolodchikova, participante da sétima temporada do Drag Race

Ela diz que enfrenta preconceito dos próprios homens do meio artístico, que se questionam se mulher deve ou não fazer drag. “Muitos querem invalidar a mulher, silenciar nossa voz limitando a um único tipo de luta, que é do movimento LGBT”, completa Maddie.

RuPaul nas baladas

Os organizadores de festas LGBT entraram na onda e produzem mensalmente eventos temáticos, sempre com uma estrela mundial. “Somos fãs do reality e percebemos que havia uma gama enorme de fãs querendo que as queens viessem para cá”, diz Sérgio Oliveira, um dos organizadores da festa Priscilla.

Ele afirma que a intenção do show é aumentar a visibilidade da cultura drag e das artistas nacionais. “A festa não se limita a colocar uma performer americana no line-up, misturamos essa ideia inicial com a vontade de dar destaque para as artitas daqui e fazer com que a festa seja uma grande celebração dessa arte”, completa Sérgio. 

*cis = cisgênero é o termo utilizado para se referir às pessoas cujo gênero é o mesmo que o designado em seu nascimento.


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