Tamanho do texto

Suposta habilidade para descobrir se alguém é gay ou não pode disseminar ainda mais preconceito e estereótipos

Quem nunca olhou para outra pessoa na rua e afirmou, com toda a certeza, que ela era gay? O "gaydar" ou "radar gay"- termo utilizado para a suposta habilidade de perceber se uma pessoa é hetero ou gay apenas pela aparência dela - já ficou famoso entre os LGBTs e também entre os heterossexuais. No entanto, ele pode ser muito mais prejudicial do que você imagina.

'Gaydar' é prejudicial e pode ser só uma maneira de disfarçar a estereotipação, aponta pesquisa
Divulgação
'Gaydar' é prejudicial e pode ser só uma maneira de disfarçar a estereotipação, aponta pesquisa

Um grupo de pesquisadores da Universidade de Wisconsin, nos EUA, resolveu testar a eficácia e as consequências do "gaydar", em um estudo publicado no Journal of Sex Research.

De acordo com William Cox, cientista do Departamento de Psicologia da universidade e líder da pesquisa, o radar gay não é preciso e, na verdade, é uma forma prejudicial de estereotipação.

"A maioria das pessoas sabe que estereotipar é inapropriado. Mas se você não chamar de 'estereotipação', se você der um outro nome e camuflá-la como 'gaydar', ela parece ser muito mais aceita pessoalmente e socialmente", diz Cox.

Um dos fatores que joga a eficácia do "gaydar" por água abaixo é o fato de que apenas uma pequena parcela da população é gay - cerca de 5%, segundo o estudo.

"Imagine que 100% dos homens gays vistam camisa rosa o tempo todo, e que apenas 10% dos homens heteros façam o mesmo. Ainda que todos os gays vistam camisa rosa, existem duas vezes mais homens heteros vestindo também", conclui o pesquisador. Sendo assim, alguém que considerasse que usar camisa rosa é uma dica para assumir que uma pessoa é gay estaria errada em aproxidamente 66% das vezes.

Para chegar à conclusão de que o "gaydar" não passa de uma estereotipação disfarçada de uma habilidade inexistente, a equipe de Cox dividiu os voluntários em três grupos. Para o primeiro deles, os pesquisadores disseram que o "gaydar" realmente existe e é eficaz; para o segundo, disseram que o "gaydar" é uma estereotipação; e para o terceiro grupo eles não disseram nada.

Os voluntários, então, tiveram de opinar sobre a sexualidade de diferentes homens. O primeiro grupo, que acreditava que o "gaydar" realmente funcionava, estereotipou com mais frequência do que os outros, chegando a assumir que alguns homens eram gays baseados apenas em estereótipos como gostar de fazer compras.

"Se você diz às pessoas que elas têm um 'gaydar', isso acaba legitimizando o uso de esteriótipo", observa Cox. Para ele, isso é extremamente prejudicial, pois os estereótipos limitam as oportunidades que está sendo estereotipado, estreitando a maneira como pensamos sobre eles e promovendo o preconceito, a discriminação e até mesmo a agressão.

Em 2014, o mesmo grupo de pesquisadores realizou um estudo sobre agressões motivadas por preconceito. Nele, os voluntários tinham o poder de escolher dar choque, ou não, em uma determinada pessoa que estaria na sala ao lado. Quando os pesquisadores falavam que a pessoa na outra sala era gay, os voluntários davam bem menos choques do que quando falavam estereótipos como "ele gosta da cor rosa".

"Existia um grupo de pessoas que era bastante preconceituoso, mas eles não queriam que os outros soubessem disso", conta Cox.

"Eles então expressavam o preconceito somente quando podiam se safar disso."

O pesquisador espera que o estudo derrube o mito do gaydar e exponha a falsa habilidade como algo mais prejudicial do que as pessoas imaginam.

"Reconhecer quando um estereótipo é ativado pode ajudar você a superá-lo e ter certeza de que ele não afetará suas ações", conclui.

Veja também a lista dos 100 gays famosos mais gatos do mundo:


    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.