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Após anos pedindo que Deus 'curasse' sua homossexualidade, Justin Tindall se assumiu gay e hoje faz parte de projeto que reúne 60 mil vídeos com depoimentos positivos para LGBTs

A convivência diária com o bullying pode criar feridas profundas ou até levar o jovem a tirar a própria vida. Para evitar novas tragédias precoces na comunidade LGBT, o grupo americano "It Gets Better Project" (projeto Tudo Vai Melhorar, em tradução livre) apostou na troca de experiências virtuais entre quem já superou a homofobia e a atual vítima dela. E nos mais de 60 mil vídeos publicados de diversas partes do globo, a mensagem é uníssona: não desista, o mundo está melhorando. 

Justin Tindall, líder da iniciativa 'It Gets Better Project'
Arquivo pessoal
Justin Tindall, líder da iniciativa 'It Gets Better Project'

Foi esse discurso de esperança que mudou a vida do então missionário e humanitarista Justin Tindall, que nasceu em uma tradicional comunidade mórmon no Estado do Arizona, nos EUA. Após anos lutando contra a própria orientação sexual - inclusive pedindo a cura para Deus -, hoje Tindall dá palestras, compartilhando sua superação e como a troca de experiências podem salvar jovens gays, que lutam diariamente pela aprovação da sociedade.  

"Estudos têm mostrado que dividir as próprias histórias com os jovens e mostrar como as coisas melhoraram podem ajudá-los a lidar com os próprios desafios. E se a minha história tem o poder de fazer isso por alguém, vale a pena contá-la", disse o ativista em entrevista ao iG , que está viajando por 13 países em uma expedição do projeto na Austrália, Áustria, Brasil, Chile, Espanha, Suíça, Israel e outros. Para o grupo, que atua desde 2010, as histórias reais podem modelar o futuro. 

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Como cresceu em uma comunidade religiosa, Tindall demorou para aceitar o que acontecia com o seu corpo e interpretar os seus gostos femininos. O apelido "ele/ela" (he/she, em inglês) que ganhou de sua tia Cyndi na infância revelou que sua luta interior, na verdade, já estava exposta a todos os familiares. "Eu era novo e não entendia o significado daquilo, mas as risadas dos meus primos mostravam que não era um bom nome para ser chamado". Quando perguntou ao pai se era um bom filho, ouviu: "Bom, você não era o que eu esperava". 

Eu não conseguia passar pelos corredores sem ter meus livros jogados ao chão ou ter meu rosto prensado contra os armários. Era uma tortura e ninguém me ajudava (Justin Tindall)

Tindall sabia que a única forma de ser aceito pela família, pela comunidade mórmon e por Deus seria negar a homossexualidade. "O colégio era um pesadelo. Eu não conseguia passar pelos corredores sem ter meus livros jogados ao chão ou ter meu rosto prensado contra os armários. Era uma tortura e ninguém me ajudava", relembra. A saída então foi fingir. Ele engrossou a voz, mudou as roupas, passou a praticar esportes e até namorou garotas. "Eu controlava cada expressão, gesto, movimento dos olhos. Tudo para ter certeza que estava sendo masculino". 

O plano deu certo, segundo ele, e ao final do colegial ninguém questionava sua orientação sexual. Como todo menino mórmon que finaliza os estudos, Tindall se alistou então para um trabalho missionário de dois anos na Bolívia, que seria apenas o primeiro. Realizado, concluiu estudos sobre a América Latina e América Central e voltou para a região para novos trabalhos voluntários. "Encontrei amigos que vão desde mulheres indígenas que sofrem com a desigualdade entre os sexos e até transexuais haitianos, que são perseguidos por expor o seu gênero. As lutas são distintas, mas a necessidade humana de aceitação, compreensão e amor é a mesma", defende.

"Não estou sozinho" 

A mudança definitiva viria apenas quatro anos depois, em seu apartamento na República Dominicana, quando Tindall recebeu um vídeo do "Its Getter Better Project". "Conheci o projeto ainda no colégio, lembro que achei a iniciativa incrível, mas não me relacionava com aquilo. Mas ver estudantes da minha antiga universidade vivendo os dramas que eu enfrentei foi surreal. Passei boas horas chorando. Percebi que não estou sozinho". Segundo o ativista, os momentos de choro intenso representaram seu período de aceitação. 

"Eu tremia de alegria e de medo ao mesmo tempo, mas não parava de sorrir. Assim eu me aceitei". Ele então retornou aos EUA, se assumiu para familiares, encontrou um parceiro e hoje mora em Los Angeles, na Califórnia, onde trabalha na sede do projeto. "Quase tudo mudou para melhor. Ao me aceitar como um homem gay, abandonei minha identidade mórmon, o que até hoje é muito difícil para minha família". A falta de apoio da mãe ainda o incomoda. 

O presidente Barack Obama é um dos astros do projeto
Arquivo pessoal/Reprodução
O presidente Barack Obama é um dos astros do projeto

Apenas quatro funcionários são responsáveis pelo trabalho na ONG. Os vídeos circularam as redes com as participações dos políticos Barack Obama, presidente dos EUA, e Hillary Cliton, candidata à presidência do país, e as principais personalidades gays, como RuPaul, a trans Laverne Cox, atriz da série Orange is the New Black, Chris Colfer, do Glee, e apresentador e consultor de moda Tim Gunn, que compartilhou sua tentativa de suicídio aos 17 anos. "Você não pode enfrentar isso sozinho. As pessoas se preocupam com você. Eu estou nesse grupo", disse Gunn em vídeo emocionado. 

"Hoje eu amo todo pedacinho da minha identidade. E ainda sou pago para ajudar jovens LGBT a experimentar essa alegria. Mas não alcançaria essa plenitude sem as histórias de outros como eu. Vivemos em um mundo que está cada dia mais tolerante. Só precisamos falar mais alto [do que os que não aceitam a diversidade]", conclui.

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