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Peça fundamental na profissionalização do mercado LGBT, empresário fala ao iGay dos nove anos da The Week, casa noturna paulistana famosa internacionalmente

No ferozmente competitivo mercado da noite paulistana, onde casas noturnas fecham com a mesma rapidez em que abrem, ele é um dos ‘sobreviventes’ mais competentes. Especialmente por investir no público LGBT quando isso ainda não era moda, nem muito menos era visto como viável. O empresário paulista André Almada , 40, está desde 2004 no comando da The Week, uma balada gay paulistana de fama internacional que acaba de completar nove anos de vida.

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“Foi o negócio certo, no momento certo e para o público certo. Apesar de ter surgido num espaço improvisado, um galpão grande que não era nada parecido com o que havia no mercado na época. Mas o som e a iluminação eram bons, o que atraiu um grande público”, explica Almada, reconhecendo a sorte de abrir a The Week num período em que o movimento LGBT ganhou força e a Parada Gay de São Paulo se agigantou.

No começo dos anos 2000, Almada deixou o ramo hoteleiro onde trabalhava para atuar na assessoria do Morumbi Fashion, hoje conhecido como São Paulo Fashion Week (SPFW). Paralelamente, a convite dos amigos do universo da moda, ele passou a comandar uma noite na casa Ultra Louge. Na sequência disso, passou a ter uma festa própria, a Toy, realizada no clube Piranha.

“Eu tinha receio de aceitar as propostas de fazer festas nas boates. Apesar de conhecer muita gente, eu não tinha experiência com baladas. Mas eu decidi arriscar mesmo assim, e acabou dando certo”, revela Almada, que decidiu então largar o trabalho no Morumbi Fashion para concentrar o foco na atuação como promoter.

É inadmissível você ir a um lugar para se sentir à vontade e acabar sofrendo preconceito do próprio funcionário da casa

Com capital próprio, ao lado do sócio Klaus Ebone , que era então seu namorado, Almada abriu a The Week no bairro da Lapa em 2004. A improvisação do começo deu lugar a uma profissionalização que estabeleceu um novo parâmetro no mercado das casas LGBT, que tinham até então ares clandestinos. “Antigamente, ninguém queria ser visto entrando em balada gay, havia muito preconceito. Hoje, quem vai, fica um bom tempo na porta justamente para ser visto num lugar que é considerado bacana”, pondera o empresário.

Essa profissionalização também significou um preparo melhor dos profissionais que trabalham nas casas gays. “No começo, muitas pessoas foram demitidas por não saber respeitar esse público pelo o que ele é”, revela o empresário. “É inadmissível você ir a um lugar para se sentir à vontade e acabar sofrendo preconceito do próprio funcionário da casa”, completa Almada.

A The Week está perto de completar 10 anos de pura ferveção
Divulgação
A The Week está perto de completar 10 anos de pura ferveção


O padrão The Week - pista de dança ampla somada à área externa com piscina também grande - fez tanto sucesso que o empreendimento gerou duas filiais, no Rio e em Florianópolis. Atualmente, ambas estão fechadas para reforma. A da capital fluminense deve ser reinaugurada antes da Copa do Mundo, em 2014, ano em que a casa completa 10 anos de existência. Outra ainda não tem previsão. 

Almada atribuiu o sucesso de casas LGBT como a sua a liberdade que elas dão às pessoas. “Numa balada gay, você não precisa fingir ser quem não é, sendo gay ou hétero. Pode se soltar e se divertir sem medo de sofrer preconceito“, opina o empresário, que recebe em média 2,5 mil pessoas por fim de semana na unidade paulistana da The Week.

Além das unidades da The Week, Almada é proprietário do clube Grand Metrópole, no centro paulistano. No início do ano, o empresário vendeu a luxuosa casa noturna The Society. “Não tenho vergonha nenhuma de dizer que vendi porque precisava me capitalizar. Precisava ter mais recursos para as reformas das unidades do Rio e de Florianópolis”, admite.

Numa balada gay, você não precisa fingir ser quem não é, sendo gay ou hétero. Pode se soltar e se divertir sem medo de sofrer preconceito

Filhos e casamento

Como homossexual, o empresário celebra a recente aprovação do casamento gay pela Justiça brasileira. No entanto, ele não se entusiasma com a possibilidade. “Eu acho importante resguardar os direitos dos parceiros. Todo casal que constrói junto uma vida e um patrimônio deve ter seus direitos respeitados caso aconteça alguma coisa com um dos parceiros. Mas pessoalmente, a cerimônia não tem nada a ver comigo. Se fosse para casar, faria isso rapidamente num cartório”, observa Almada, que está solteiro.

Todo mundo, seja gay ou hétero, tem de ter o direito de dar um beijo na boca ou abraçar o namorado publicamente sem ser agredido. A lei precisa existir para coibir pessoas que tentem impedir esse direito

Almada vê como fundamental a aprovação de uma lei que criminalize a homofobia. “Todo mundo, seja gay ou hétero, tem de ter o direito de dar um beijo na boca ou abraçar o namorado publicamente sem ser agredido. A lei precisa existir para coibir pessoas que tentem impedir esse direito”.

Num futuro ainda não definido, Almada pretende ser pai. “Eu penso num processo de inseminação artificial como o Rick Martin fez, mas também penso em adotar. Como todo mundo, eu tenho vontade de deixar um legado. Passar tudo que a vida e meus pais me ensinaram para meu filho", conclui. 

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