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Em encontro em Brasília, pessoas que perderam filhos em crimes homofóbicos pedem avanço do projeto que tramita no Senado e conta com a rejeição de parlamentares religiosos

Ter um filho homossexual não é o único fator que uniu mães e pais pela igualdade. Infelizmente, crimes cruéis com clara motivação homofóbica levaram a vida de alguns de seus filhos e, desde então, a saudade que sentem se confunde com a luta pelo respeito dos direitos dos homossexuais.

Reunidos em Brasília no último fim de semana, essas mães e pais têm como prioridade apoiar a aprovação do projeto que tipifica o crime de homofobia, em tramitação no Senado.

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Outra proposta defendida pelo grupo é a que permite a mudança do prenome de transexuais, diretamente no cartório, sem a necessidade de recorrer à Justiça, em tramitação na Câmara. O encontro tem apoio da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República.

Julgamento

Uma das mães pela Igualdade é Marlene Xavier . Ela teve seu filho, Igor Xavier, assassinado aos 29 anos na cidade mineira de Montes Claros. A condenação dos assassinos só ocorreu 11 anos depois, no ano passado.

Os culpados, no entanto, ganharam o direito de recorrer em liberdade. “Nós lutamos por 11 anos por Justiça. Uma luta desigual, pois os assassinos são pessoas poderosas, tanto monetariamente quanto politicamente”, comentou Marlene.

Veja entrevista com Marlene Xavier: 

O caso do Igor Xavier foi a primeira condenação no Brasil que considerou a homofobia como motivação para o crime. Isso porque, na delegacia, ainda na fase de inquérito, os próprios culpados declararam ódio aos homossexuais.

Ela clama por mudanças na legislação brasileira que sejam capazes de mudar a impunidade e a invisibilidade dos crimes de homofobia. “A legislação brasileira é frágil. O Código Penal brasileiro é um desastre porque permite a impunidade. Com todos os adiamentos do julgamento do meu filho, nós fomos prejudicados porque as qualificadoras do crime foram prescrevendo”, argumentou.

Pai pela Igualdade

A história de Marlene é semelhante ao drama vivido por Avelino Fortuna , pai de Lucas Fortuna , assassinado no dia 18 de novembro do ano passado em Recife. “Ele foi espancado violentamente, arrastado nas pedras e jogado no mar ainda vivo” relata Avelino que também se juntou às Mães pela Igualdade.

“Não gostaria que nenhum pai passasse pelo que eu passei. Ter que reconhecer o corpo de um filho assassinado violentamente por intolerância pura e simples”, enfatizou.

Uma das principais defesas de Avelino é pela tolerância. “Ele não era o macho que toda sociedade esperava, mas como gay, foi o maior homem que eu conheci”, disse ao IG.

Avelino Fortuna fala sobre sua luta: 


Para Avelino, os verdadeiros assassinos de seu filho não foram presos. A polícia pernambucana chegou a prender dois acusados que também haviam praticado assaltos, próximo ao local do crime, mas não convenceu o pai sobre a motivação. “Porque assaltaram duas pessoas e só mataram o meu filho?”, questiona Avelino.

“Eu nunca fui da linha de frente, mas sempre apoiei, desde o momento que meu filho saiu do armário, como se diz, a gente sempre esteve junto com ele. A mãe dele mais na linha de frente e eu sempre apoiando. Depois do falecimento da mãe dele e, 10 meses depois, o assassinato dele, eu não me vi mais no direito de ficar de fora dessa luta”, justificou.

Família

O primeiro transexual homem operado no Brasil, João Nery , autor do livro "A Viagem Solitária" também participou do encontro. Acostumado a atender nas redes sociais muitas mães desesperadas com a segurança de seus filhos, Nery defende que o trabalho de combate à homofobia deve primordialmente envolver a família.

“Eu estou chamando a atenção para a necessidade de se trabalhar com as famílias porque é dentro da família que começa a homofobia, a ‘transfobia’, com a expulsão de seus filhos de casa. É claro que a escola também é um lugar que não só reproduz, como também produz homofobia e isso é seríssimo”, considerou João Nery.

Confira entrevista com João W. Nery:  


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