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Numa das maiores e mais carentes regiões de São Paulo, jovens homossexuais falam de sexualidade, namoro, família, bullying e homofobia

Depois do almoço, no início da tarde de uma terça-feira, jovens se reúnem numa sala da Casa do Adolescente, que fica na Avenida Almirante Delamare, uma das vias principais de Heliópolis, uma das maiores e mais carentes comunidades da cidade São Paulo, localizada na Zona Sudoeste. Meninas e meninos homossexuais, eles estão lá para discutir sexualidade, família, bullying e namoro, entre outros assuntos.

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Percebemos uma mudança na fala dos jovens que passam pelo grupo. Eles achavam que ser gay é uma escolha. Com o tempo, foram entendendo que é uma questão de amor, de paixão (Alzira Ciampolini)

Hoje com 19 anos, Giovanni entrou no grupo há três. “Eu tinha 16, vim para uma consulta médica e acabei conhecendo o grupo”, conta o jovem, que prefere não revelar o sobrenome. “Nós falamos sobre como foi a semana, como estamos nos sentindo, como estão as coisas em casa com a família, namoros, sexo”, lista ele, descrevendo o bate-papo comandado toda terça pela psicóloga Alzira Ciampolini .

“São sessões de psicoterapia em grupo. Só podem participar o psicólogo e os jovens”, define Ciampolini, que atua no grupo desde a sua criação, em outubro de 2009.

“Percebemos uma mudança na fala dos jovens que passam pelo grupo. Eles achavam que ser gay é uma escolha. Com o tempo, foram entendendo que é uma questão de amor, de paixão. Acaba aquela imagem que ser gay é igual a ser promíscuo, que tudo se resume ao sexo. Ressaltamos que a homossexualidade é um interesse afetivo sexual pelo mesmo sexo, com foco no afetivo”, prossegue a psicóloga. 

A transexual Samantha , que também prefere omitir o sobrenome, admite que entrou no grupo da diversidade com um pé atrás, atendendo um convite das recepcionistas da Casa do Adolescente. “Quando eu cheguei, usava uma touca para esconder parte do rosto, ficava de cara feia e pouco falava. Mas decidi ficar para ver no que ia dar”, relata ela, que tem 17 anos. “Agora, eu consigo me expressar, falar o que penso e quero para mim”.

Quando eu cheguei, usava uma touca para esconder parte do rosto, ficava de cara feia e pouco falava. Mas decidi ficar para ver no que ia dar (Samantha)

Na Casa do Adolescente, Samantha foi encaminhada ao grupo de jovens transexuais do Hospital das Clinicas da USP. Lá, a jovem está recebendo informações sobre adequação de gênero. Ela nasceu com o sexo masculino, mas se identifica com o feminino. “Sempre me vi como menina, nunca foi diferente”.

O centro em Heliópolis foi fundamental para que Samantha conseguisse ser chamada pelo nome que escolheu na escola onde cursa o Ensino Médio. “Houve uma resistência muito grande. Tive que entrar com um processo na justiça. O bom do grupo é que aqui a gente aprende sobre essas questões de nome social, dos nossos direitos”, ressalta a jovem, que, inspirada pelo trabalho de Ciampolini, também quer ser psicóloga para trabalhar com a população LGBT.

Samantha e Giovanni, jovens participantes do grupo de Diversidade da Casa do Adolescente de Heliópolis
Edu Cesar
Samantha e Giovanni, jovens participantes do grupo de Diversidade da Casa do Adolescente de Heliópolis

Circulando na Casa do Adolescente, acompanhados da reportagem do iGay , Samantha e Giovanni são tratados com carinhos pelos funcionários. Ele, que faz um curso técnico para se tornar cabeleireiro, mostra para as recepcionistas o resultado do tratamento para os cabelos que fez. “Olha só como estão os fios, tudo lisinho. Fiz uma hidratação”.

“Todos os funcionários são treinados para estabelecer uma relação e atender as necessidades dos jovens. Às vezes, o adolescente pode contar para faxineira ou para recepcionista o que ele não fala dentro do consultório”, aponta a psicóloga do grupo da diversidade.

Resposta para ontem

O grupo hoje tem sete participantes fixos, mas já chegou a ter 20. Ciampolin diz que a frequência é mesmo flutuante, especialmente pela característica ansiedade dos adolescentes. “O jovem é imediatista, precisa de uma resposta para ontem, é difícil manter um acompanhamento”, lamenta a psicóloga.

A Casa do Adolescente faz parte do Programa Saúde do Adolescente do Governo do Estado de São Paulo. Com mais de 20 anos de existência, ele conta hoje com uma equipe multidisciplinar de cerca de 40 profissionais nas suas 23 unidades. São pediatras, ginecologistas, psiquiatras, odontologistas, psicólogos, fonoaudiólogos, fisioterapeutas, enfermeiras, educadores e arte-educadores. Além do atendimento individual, os profissionais coordenam grupos de apoio sobre a sexualidade.

O trabalho com a população jovem LGBT só existe na unidade de Heliópolis, surgindo a partir de uma solicitação dos moradores. “Em 2009, percebemos a necessidade de um grupo focado em diversidade, um grupo que acolhesse o jovem sem preconceitos”, explica a ginecologista Albertina Duarte Takiuti , coordenadora Programa de Saúde Adolescente do Estado de São Paulo.

É preciso garantir que os transexuais, por exemplo, não se auto mediquem, não tomem hormônios sem acompanhamento médico, ficando expostos ao risco (Albertina Duarte Takiuti)

“É preciso garantir que os transexuais, por exemplo, não se auto mediquem, não tomem hormônios sem acompanhamento médico, ficando expostos ao risco. Ele foi implementado na unidade do Heliópolis por ser um lugar onde a população é mais carente de debate”, defende Takiuti.

Para participar da Casa do Adolescente de Heliópolis não é preciso ser morador do bairro em que ela está. Basta apenas apresentar um comprovante de residência, um documento com foto e a carteirinha do SUS. Também é preciso ter entre 10 e 19 anos. 

Existe também um serviço telefônico, o Disk Adolescente , que responde as dúvidas de segunda à sexta- feira, das 11h00 às 14h00, pelo numero (11) 3819-2022. Não é preciso se identificar.

Mais informações: www.juventude.sp.gov.br/casa-do-adolescente

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