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Primeira turma se forma em curso profissionalizante oferecido pela Secretaria de Direitos Humanos da Bahia para inserir as travestis e transex no mercado de trabalho. Dados indicam que 90% das transexuais do Brasil se prostituem para garantir o sustento

Assim como a imensa maioria das travestis e transexuais do país, Marina Garlen, de 47 anos, tem um histórico de vida marcado pela luta e pelo preconceito. Aos 16 anos saiu de casa, no interior da Bahia, para ganhar o mundo. Pouco tempo depois foi para a Europa, onde morou 17 anos entre Itália e Portugal. Durante esse período, trabalhou como cabeleireira e chegou a se prostituir para garantir seu sustento. Também já ganhou a vida com shows de transformismo. Hoje ela não quer nada além de um emprego fixo, com hora marcada e carteira assinada.

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“Meu sonho é conseguir um trabalho como qualquer pessoa. Uma vaga de secretária ou auxiliar administrativa. Sou louca para ir trabalhar bem arrumada, toda maquiada e vestir aquele tailleur babado”, idealiza.

Alcançar esse objetivo aparentemente banal, porém, não é tarefa fácil. De acordo com dados da Articulação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), cerca de 90% das travestis tem nos programas sexuais sua atividade profissional. O número reflete claramente a dificuldade que elas têm para sua inserção formal no mercado de trabalho.

Meu sonho é conseguir uma vaga de secretária ou auxiliar administrativa. Sou louca para ir trabalhar bem arrumada, toda maquiada e vestir aquele tailleur babado." (Marina Garlen)

Ciente disso e disposta a mudar a estatística, Marina tem feito a sua parte. Voltou para a escola há um ano, está prestes a concluir o ensino médio e estuda para fazer o Exame Nacional de Ensino Médio (Enem). Paralelo a isso, terminou há uma semana um curso profissionalizante de auxiliar administrativo, oferecido gratuitamente pela Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos da Bahia para travestis e transexuais. “O curso foi maravilhoso e é um incentivo a mais para eu buscar novas oportunidades”, festeja.

Marina Garlen chegou a se prostituir para garantir o seu sustento
Arquivo pessoal
Marina Garlen chegou a se prostituir para garantir o seu sustento

Junto com Marina, outras 28 alunas receberam na semana passada o certificado de conclusão do curso, numa solenidade realizada no auditório do prédio governamental, em Salvador. Entre elas, está a estudante Cophélia Rousseff. Aos 20 anos, Cophélia terminou o ensino médio em 2012 e começou este semestre a faculdade de Direito. Devido ao seu desempenho no curso profissionalizante, a jovem garantiu ainda um estágio na área jurídica da Secretaria. “Vou trabalhar acompanhando os processos e escrevendo pareceres”, conta, entusiasmada.

"Ele disse que não queria filho de salto alto e me botou para fora"

Exatamente como Marina, Cophélia também saiu de casa cedo. Quando tinha 16 anos, foi expulsa pelo pai, que não aceitava sua condição sexual. “Ele disse que não queria filho travesti nem usando salto alto e me botou para fora”, recorda. Mas os problemas familiares não a desanimaram. “Pelo contrário, eu pegava os conflitos e transformava em força para correr atrás dos meus objetivos”, afirma ela, que pensa em no futuro promover trabalhos de inclusão voltados para a comunidade LGBT. “Quando terminar a faculdade, pretendo ajudar pessoas que passaram pela mesma dificuldade que eu”.

De acordo com o antropólogo e fundador do Grupo Gay da Bahia, Luiz Mott, as travestis e transexuais têm dificuldades de se firmar no mercado de trabalho formal por vários motivos, sendo os principais deles a discriminação e a baixa escolaridade.

“Este é o grupo social mais discriminado, porque nem em casa eles encontram apoio, o que os obriga a cair na marginalidade. A baixa escolaridade e a aparência exagerada devido às transformações no corpo prejudicam a inserção das travestis em qualquer trabalho”, pontua.

De acordo com ele, é comum a evasão escolar por conta do preconceito, e a partir daí elas vão para as ruas, sem chances de estudar e conseguir fazer uma faculdade. “É preciso um esforço maior do governo para tentar mudar este cenário”, observa.

Cophélia e Marina concordam que o preconceito ainda é o maior entrave para que pessoas como elas consigam trabalhar. “A sociedade quando vê uma travesti ainda foca muito na imagem de prostituição. Mas não é isso. Nós somos capazes de exercer as mais variadas funções”, ressalta Marina. “A dificuldade é grande, pois ainda tem muita gente que olha torto”, completa Cophélia.

Lista de espera

Inverter esta visão ainda é algo distante, mas o primeiro passo já foi dado. É no que acredita Paulett Furacão, de 27 anos. Coordenadora do Núcleo LGBT da Secretaria, Paulett foi a primeira transexual a assumir um cargo na esfera estadual do governo baiano. Ela é uma das idealizadoras do projeto de profissionalização e diz que a ideia é “oferecer um caminho digno para que as alunas construam uma carreira sólida”. “Estamos desenvolvendo um processo de integração que tem um recorte para o mercado de trabalho. O próximo passo é estimular empresas a apostar nas profissionais que estamos formando aqui”, justifica.

O próximo passo é estimular empresas a apostar nas profissionais que estamos formando aqui." (Paulett Furacão, coordenadora do núcleo LGBT da Secretaria)

As próximas duas turmas, com aulas que começam em outubro, já estão fechadas. A duração do curso, com 30 vagas, é de dois meses. Paulett conta que a aceitação ao curso tem surpreendido. As turmas de outubro tiveram as inscrições encerradas com lista de espera de até 80 pessoas.

O sucesso da iniciativa deve fazer com que sejam abertas novas matrículas, sem aumentar o número de alunos por turma. Ainda não há, entretanto, previsão de data para novas inscrições.

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Além de auxiliar administrativo, haverá também curso na área de hotelaria, visando os eventos da Copa de 2014. “É uma grande satisfação oferecer dignidade para que estas pessoas possam trabalhar e frequentar os lugares com mais tranquilidade”, destaca.

O superintendente de Apoio e Defesa aos Direitos Humanos da Secretaria, Ailton Ferreira, afirmou que essa é a primeira etapa para a promoção da cidadania LGBT. “Nós não inventamos nada, estamos apenas cumprindo nossa obrigação, como gestores públicos, de colaborar na implantação de ações e projetos que promovem o acesso à cidadania para as minorias”.

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