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Transgênero denuncia assassinato de amiga e expõe a situação de marginalidade e invisibilidade das travestis brasileiras

Em 2010, a travesti Luisa Marilac ficou conhecida nacionalmente com o divertido vídeo “Bons drinques” , no qual aparecia esbaldando-se numa piscina de uma casa na Espanha, debochando inclusive de quem achava que ela estava na pior. Sucesso no Youtube, a gravação contabiliza atualmente mais de 3,1 milhões de visualizações.

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No último dia 12 de agosto, a travesti voltou à internet em um vídeo que não tinha nada de engraçado. Na gravação, ela denuncia o assassinato brutal da amiga Tália, encontrada morta em sua própria casa, em Guarulhos (SP), com vários golpes de faca no tórax e no pescoço. Além de lamentar a morte, Marilac constata uma triste verdade: “Como sempre, um travesti é morto no Brasil e ninguém fala ou faz nada”.

Vídeo: Luisa Marilac denuncia assassinato de amiga travesti: 

A marginalização dessa população apontada por Marilac é confirmada pelos dados de 2012 do Relatório Sobre Violência Homofóbica, publicado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH). De acordo com o órgão, dos 511 crimes de homofobia registrados no Brasil no ano passado, incluindo 310 homicídios, mais de 50% foram cometidos contra as travestis.

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Levantado a partir de notícias publicadas por órgãos de imprensa, o relatório da SDH diz que 51,68% dos 511 crimes atingiram travestis. Os homens gays vêm em seguida no levantamento, com 36,79%. As lésbicas agredidas são 9,78%, e os heterossexuais, 1,17%. Por fim, os bissexuais, com 0,39%.

O texto do relatório não esconde a condição de párias, invisíveis na sociedade, que as travestis enfrentam no Brasil: “A proporção de vítimas transexuais e travestis denota a crescente invisibilização (sic) de um dos segmentos populacionais mais vulneráveis às violências e homicídios da sociedade brasileira”.

Infelizmente, a morte de Tália tem grandes chances de não ter o seu culpado encontrado. Segundo estudo do Grupo Gay da Bahia, uma das entidades mais importantes na defesa dos direitos LGBT, 70% dos crimes de homofobia não são solucionados no Brasil.

Não há como esconder o fato de ser uma travesti. Isso as expõe mais ao preconceito e a violência (Heloísa Gama Alves)

O crime contra Tália, cujo nome de batismo é Renato Batista Mendes, está sendo investigado pelo 1º DHPP (Departamento de Homicídios e de Proteção à Pessoa) de Guarulhos. Segundo a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, a travesti de 31 anos foi encontrada morta com ferimentos provocados por um objeto cortante em sua residência, no bairro guarulhense de Picanço, no dia 2 de agosto de 2013. O delito foi registrado como homicídio.

Como nada foi roubado, há fortes indícios de que se trata de um crime de ódio. A secretaria diz que as investigações estão avançadas e que apesar de ter um suspeito, prefere não entrar em detalhes para não atrapalhar a apuração do caso.

Fora da escola e sem trabalho

Para Heloísa Gama Alves , advogada e coordenadora de Políticas para a Diversidade Sexual do Estado de São Paulo, os crimes contra travestis e transexuais acontecem, muitas vezes, em razão de uma sexualidade evidente. “Não há como esconder o fato de ser uma travesti. Isso as expõe mais ao preconceito e a violência”, analisa Alves.

Além do bullying homofóbico, grande causador de evasão escolar, temos a grande incidência da rejeição familiar, temperada com violência física e moral. Isso retira delas a estrutura básica que qualquer outro cidadão possui (Carlos Tufvesson)

A incompreensão da sexualidade e também da identidade de gênero das travestis acaba por afastá-las da escola, já que é difícil conviver em um ambiente, quase sempre, preconceituoso e despreparado para acolhê-las. No mercado de trabalho, a situação não é diferente. “Além do bullying homofóbico, grande causador de evasão escolar, temos a grande incidência da rejeição familiar, temperada com violência física e moral. Isso retira delas a estrutura básica que qualquer outro cidadão possui“, avalia Carlos Tufvesson , coordenador especial da Diversidade Sexual da Prefeitura do Rio de Janeiro.

Esta equação perversa tem um resultado comum, observa Tufvesson. “A discriminação social as afasta das coisas que são absolutamente indispensáveis à subsistência, como moradia e alimentação. Como quase ninguém as emprega, não resta alternativa, senão a prostituição, para a maioria”. Tanto Tália quanto Marilac tiveram que recorrer a esse caminho.

Incipientes, os esforços governamentais ainda não conseguiram apresentar resultados efetivos e quantitativos. “Apesar das politicas públicas, a inclusão está engatinhando, o transgênero começa a ser pautado só agora”, reconhece Alves.

Ódio e crueldade 

No vídeo acima, Marilac relata a crueldade com que a amiga Tália foi morta. “Cortaram a garganta para ela não gritar. Ela foi furada como se fura um frango, depois a castraram”, relata a travesti.

O agressor quer deixar a marca do seu ódio, deixar bem claro que foi esse o motivo, que foi discriminação e preconceito. Na maioria das vezes, são usadas armas brancas, com muita maldade e crueldade. (Heloisa Gama Alves)

“O agressor quer deixar a marca do seu ódio, deixar bem claro que foi esse o motivo, que foi discriminação e preconceito. Na maioria das vezes, são usadas armas brancas, com muita maldade e crueldade. Pode ser por questão sexual, passional, ou até porque o agressor não aceita ter uma atração sexual por travesti ou transexual”, explica Alves, apontando ainda o pensamento dos responsáveis por esses crimes. “Quando o agressor é encontrado, o que é raro, ele se justifica dizendo que foi porque a travesti quis cobrar mais do que o combinado. Ele faz questão de esterilizar”.

O medo que as travestis têm de denunciar os crimes e falta de preparo da polícia para atender os casos são os principais fatores contribuintes para a não resolução dos crimes, na opinião de Alves.

Procurada pela reportagem do iGay para comentar a situação das travestis no Brasil, a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República não se pronunciou até a publicação desta reportagem. A assessoria do órgão apenas informou que o Disque 100, um serviço gratuito de telefone, recebe denúncias diariamente, 24 horas por dia. O denunciante tem garantido o seu anonimato.

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