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Atriz, diretora e cantora portuguesa está lançando documentário sobre a ditadura militar, CD novo e faz temporada no teatro - indicada ao prêmio APCA de melhor atriz - como mãe de uma homossexual que anuncia que vai ter um filho pela barriga de sua companheira

Maria de Medeiros não se assustou com a produção gigante que preparamos para fotografá-la. Afinal, ela vive disso: está acostumada a trocar de roupa para vestir seus personagens, tantos que ela já perdeu a conta. “Outro dia gravei o programa da Marília Gabriela e ela falou em 60 filmes”, diz Maria, sem saber se confirma ou contesta esse número. “Não tenho a menor ideia de quantos foram.” DataiGay informa: são 100 filmes, segundo o IMDb. Dois dos mais conhecidos são “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, e “Henry & June”, que explora o triângulo amoroso que se formou entre a escritora Anäis Nin (papel de Maria), o também escritor Henry Miller e a mulher dele, June.

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Com a tranquilidade de uma profissional, aquela eterna disposição feminina para se produzir e um corpo mignon de medidas impecáveis, ela ia deixando os looks definirem sua atitude, e a maquiagem transformá-la para cada foto enquanto da mala do stylist saíam vestidões, vestidinhos e um body colado ao corpo, acessórios de todos os metais possíveis e sapatos que iam de um Dior de salto altíssimo a um coturno preto de cano alto Dr. Martens. (Assista no fim da página ao video com cenas de bastidores do ensaio)

A portuguesa Maria, que nasceu em Lisboa e vive entre Paris e Barcelona com o marido catalão e as duas filhas, Leonor (9) – que ela define como “muito brasileira”, já que joga futebol e gosta de música, especialmente de tocar piano – e Julia (15), que faz teatro, está no Brasil passando uma temporada que já se estende desde janeiro. “O Brasil tem um dinamismo fantástico, muita juventude. A Europa corre um pouco o risco de virar um gigantesco museu”, decreta. Recentemente, ela se chocou com as manifestações contra o casamento gay que ocorreram na França, e participou pessoalmente de uma manifestação contra a cura gay no Rio. Mas essa não foi muito eficaz. “Ela aconteceu perigosamente perto da praia de Ipanema. Estava um dia lindo, a praia cheia, a manifestação acabou na areia.”

PEÇA, CD E DOCUMENTÁRIO

Em movimentações paralelas, Maria exerce ao mesmo tempo três funções diferentes: de atriz, de diretora e de cantora, mostrando que efetivamente transitar de um personagem para outro é da sua natureza. Conta que cresceu em um ambiente familiar muito liberal – o pai é músico clássico, pianista, maestro e compositor; a mãe foi uma jornalista política que flertou com a carreira de atriz -, de modo que ninguém se espantou quando a filha decidiu por um futuro nas artes. “Se eu tivesse dito que queria ser contadora ou bancária, aí sim eles teriam ficado chocados.”

A manifestação contra a cura gay no Rio aconteceu perigosamente perto de Ipanema. Estava um dia lindo, a praia cheia, a manifestação acabou na areia."


A atriz está em cartaz no teatro no Tuca, com a peça “Aos Nossos Filhos”. A cantora está lançando o CD “Pássaros Feridos”, que tem na capa uma ilustração sua. E a diretora cuida do lançamento do documentário “Repare Bem”, que recupera a história de Denise Crispim e de sua filha Eduarda, que estão, 40 anos depois do fim da ditadura militar no Brasil, sendo beneficiadas pela atuação da Comissão de Anistia e Reparação.

Denise Crispim era casada com Eduardo Leite, o Bacuri, revolucionário que teve das mortes mais sádicas da repressão política - foi torturado por 109 dias antes de ser assassinado com um golpe na cabeça pelos militares. “Enquanto gravávamos os depoimentos mais contundentes, eu e a equipe tínhamos de nos policiar para não fazer barulho ao chorar e atrapalhar as filmagens”, conta a diretora sobre o documentário filmado entre Brasil, Itália e Holanda.

O Brasil tem um dinamismo fantástico, muita juventude. A Europa corre o risco de se tornar um gigantesco museu."


Eduarda nasceu na clandestinidade, guardando do pai que nunca conheceu apenas recortes de jornal, duas fotos e uma camiseta que lhe foi dada por um ex-colega de guerrilha de seu pai. Só agora, a partir da ação da Comissão de Anistia, ela obteve desculpas públicas do Estado pela morte do pai e a certidão de nascimento brasileira. “Sou de uma geração de portugueses que cresceram com a revolução, somos muito politizados”, diz Maria. “A Comissão de Anistia está possibilitando um processo importantíssimo, mudando a vida de muitas pessoas. É muito democrático dar às pessoas acesso às suas histórias.” Na época da filmagem Denise vivia em Roma, Eduarda na Holanda – agora, por conta desse processo de anistia, Denise está voltando ao Brasil após 40 anos de exílio. Depois de rodar por vários festivais, o documentário estreia no cinema no próximo dia 23, em várias cidades brasileiras.

“AOS NOSSOS FILHOS”

Na peça que topou fazer de “modo meio milagroso”, ela vive Vera, ela própria uma revolucionária que foi presa e torturada durante a repressão política. Intelectual de ideias libertárias, Vera é mãe de uma homossexual que anuncia que vai ter um filho – pela barriga de sua companheira. A informação faz desabarem todas as convicções modernas e sem preconceitos da mãe. “Tenho uma pilha de textos em casa e às vezes levo meses para ler. Dessa vez li rápido e logo aceitei.”

Maria foi indicada ao prêmio APCA de melhor atriz por seu trabalho em
André Giorgi
Maria foi indicada ao prêmio APCA de melhor atriz por seu trabalho em "Aos Nossos Filhos"


O texto é de Laura Castro, atriz e dramaturga carioca que divide a cena com Maria no papel da filha homossexual. Ela escreveu com conhecimento de causa. Casada há anos com Marta, Laura tem três filhos: Rosa (gerada por Marta), José (gerado por ela) e Clarissa (adotada). “É a primeira peça adulta de Laura, achei muito corajoso usar suas referências pessoais para escrever esse texto. É ainda tudo muito recente na vida dela.” Laura é uma dessas mães multitarefas, que tem de dividir seu tempo entre os três filhos, a mulher, as viagens a São Paulo para as apresentações no teatro. “Ela tem uma exigência consigo mesma de querer ser uma mãe mais perfeita que todas. Toda mãe é imperfeita”, diz Maria, que por seu papel na peça foi indicada ao prêmio APCA de teatro de melhor atriz, e está concorrendo com Bete Coelho e Ligia Cortez, por “A Dama do Mar”, Marília Pêra por “Alô, Dolly!” e Rosana Stavis, por “Árvores Abatidas ou para Luis Mello”.

VEJA CENAS DOS BASTIDORES DO ENSAIO FOTOGRÁFICO DE MARIA DE MEDEIROS:



SERVIÇO:

“Aos Nossos Filhos” - Sextas e Sábados 21h30, e Domingos às 18h

TUCA– Teatro da PUC-SP
Rua Monte Alegre, 1024 – Perdizes - São Paulo - SP

Indicação de faixa etária - 14 anos

Até 1 de setembro


Agradecimentos :

Fotógrafo: André Giorgi

Ass. de fotografia: Denise Tiburzi

Locação: CasaNeo10 ( http://casaneo10.com.br/site/ )

Stylist: Higor Vaz Alexandre (Capa Mgt)

Beleza: Saulo Fonseca (Capa Mgt)

Ass. de beleza: Marilio Bitarello

Moda: 

Coven/ www.coven.com.br

Claudia Arbex/ www.claudiaarbex.com.br

Trash Chic / www.trashchicvirtual.com.br

Glidden Gannon/ (11 3151 5870)

Karin Reiter/ www.karinreiter.com.br

Vermelho Negro by Claudia Senna/ (11 98323 9729)

Christian Dior/ (11 3061 9299)

Víto r Zerbinato/ (11 4724 9231)

Giuliana Romano/ www.giulianaromanno.com.br

Wolford/ (11 3088 8279)

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